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Pode uma Escravatura Digital Fazer uma Sociedade Andar Para Trás?

Uma das poucas coisas boas desta pandemia e dos seus confinamentos é que permitiu mais tempo para a leitura e a reflexão.

A série Netflix, ‘’O Império Romano’’, foi responsável por me trazer à memória uma dúvida antiga. Na escola, sempre fiquei fascinado com o império Romano e intrigado com a descida aos infernos que representou a idade média. Como é possível que a civilização tenha momentos de regressão?

Os acontecimentos que temos estado a viver no último ano levaram-me a conjecturar sobre o que pode vir a acontecer.

A antiga sociedade romana contribuiu com uma civilização altamente desenvolvida para o governo, o direito, a política, a engenharia, as artes, a literatura, a arquitectura, a tecnologia, das sociedades modernas, mas, no momento da sua falência, a sua moeda estava tão desvalorizada que os seus soldados se recusavam a ser pagos em Denários – o nome de uma moeda de prata romana, que deu origem à palavra dinheiro -, pois praticamente já não continha prata, menos de 5%.

Esta política inflacionista foi seguida ao longo de séculos, em particular a partir do momento em que a República se tornou Império.

Durante 220 anos; aproximadamente até 68 DC, o Denário era uma moeda 100% em Prata, correspondente a 4,5 gramas. Hoje, seria aproximadamente 3,15 Euros e naquela época correspondia a um dia de salário de um trabalhador qualificado.

Com os gastos públicos sem freio por parte dos imperadores, enormes obras públicas, custos crescentes da corte imperial, as autoridades recorreram ao clássico método de tributação, “sem dor”: a inflação.

No reinado do imperador Cláudio Gótico, que chegou ao poder em 268 DC, a Denário continha apenas 5% em Prata, uma desvalorização de 95%, que obviamente fez disparar os preços: mais moeda à “procura” dos mesmos bens e serviços.

Quando a crise se aprofundou, em particular a meio do século IV, as benesses sociais tinham atingido o seu nível mais elevado, com Roma – uma cidade que no seu auge atingiu 1 milhão de habitantes – a distribuir trigo gratuito aos seus cidadãos.

Algum tempo antes, em 301 DC, Roma tinha promulgado o “Édito Máximo”, que ficou conhecido pelo nome do então imperador, Diocleciano (284 DC a 305 DC), com o propósito de fixar os preços máximos dos géneros alimentícios no resto do império, perseguindo os comerciantes por violarem tal édito.

O mesmo estado que cria a inflação persegue os negociantes por subirem os preços: onde já vimos isto? Foi desta forma que o império Romano gradualmente estabeleceu um estado social para alimentar o populismo: ficou conhecido pelo lema “Pão e Circo”.

Agora, fala-se em rendimento mínimo garantido e a felicidade eterna daqueles que nada possuem.

Tudo aquilo que tinha permitido a expansão do império romano foi sendo esquecido paulatinamente: a liberdade para se fazer livre comércio, a segurança dentro das fronteiras indispensável a esse mesmo comércio e a estabilidade do valor da moeda que serve de protecção ao património das pessoas e incentiva a poupança, indispensável à acumulação de capital.

Após a queda da parte ocidental do império no final do século V, a parte oriental continuou a prosperar, que hoje designamos por Império Bizantino, com a capital em Constantinopla – hoje Istambul.

A moeda Soldo – Solidus em latim e Numisma em grego -, criada pelo imperador Constantino I em 309 DC, continha 4,5 gramas de Ouro – hoje, corresponde a 200 Euros aproximadamente, foi a moeda por excelência do Império Bizantino (a cunhagem foi quase sempre em Constantinopla), não sofrendo qualquer desvalorização até 1028 DC; ou seja, não sofreu qualquer tipo de desvalorização durante 700 anos dos 1400 que durou o Império Romano – de 31DC, o primeiro imperador, até à queda de Constantinopla em 1453 DC.

A partir de 1028, foi necessário um banqueiro que se tornou imperador, Miguel IV, o Paflagónio, para se iniciar um processo inflacionário.

É fantástico saber que hoje ainda existem centenas de obras escritas durante esse período clássico entre os quais Ovídio, Tito Lívio, Aristóteles, Euclides, Políbio, Sócrates, Pitágoras, Platão. Mas não só de filósofos vivia a antiguidade, os romanos construíram estradas e aquedutos, casas com mosaicos, telhas e aquecimento central e jardins.

As suas técnicas eram tão desenvolvidas, que em 5 anos somente (entre 527 e 532), a Basílica de Santa Sofia em Istambul foi construída (ver Figura 1).

No caso do Panteão em Roma, a sua construção demorou 10 anos, entre 118 e 128! Existem fortes dúvidas se as técnicas modernas logram tal rapidez.

Figura 1

O palácio de Diocleciano foi mandado construir pelo imperador para sua residência na reforma e aí viveu os seus últimos anos, é o protótipo de modelo palaciano que reúne residência de prestígio, templo dinástico e um mausoléu e pensa-se que tenha sido construído em apenas 7 anos entre 298 e 305 (ver Figura 2).

Figura 2

É impossível não fazer comparações com aquilo que temos vivido nos últimos 20 anos, a economia com tendência para cair em recessão permanentemente, a maioria das pessoas no ocidente a preferirem mais despesa governamental, independentemente das cores partidárias, mais resgates a bancos e empresas de regime, mais subsídios, mais regulação, mais inflação.

No comércio, indústria e sector financeiro suplica-se por mais dívida; o mesmo acontece com o sector público, onde paira a dúvida sobre se se justifica investir em dívida pública com taxas 0% e com oferta permanente e crescente, ou se é preferível investir em Ouro, que tem oferta limitada e rendimento idêntico, ou seja, zero.

Finalmente, graduais e crescentes restrições da liberdade: não se pode sair do concelho, não se pode ir à praia, não se pode ir ao restaurante, não se pode ir a um bar, não se pode ir a uma discoteca, não se pode reunir, não se pode circular sem uma máscara que nos retira a individualidade, tudo sob o pretexto de uma situação extraordinária, mas que se tornou habitual, típico de ditaduras, mas que vive debaixo da capa da democracia e que, talvez por isso, misteriosamente é tacitamente aceite pela maioria.

O escol que beneficia desta inflação é o primeiro a clamar por mais impostos e inflação, porque são precisamente os mais beneficiados (ver artigos 1 e 2). O imperador Diocleciano também criava inflação para se fazer beneficiar dela, pagando, desta forma, ao seu exército e comprando a sua protecção; os soldados eram os primeiros a ser pagos e, como tal, os primeiros beneficiados.

A inflação apenas redistribui riqueza, não a produz. Os primeiros da fila saem sempre beneficiados.

Este estado tirano tem o poder que lhe é concedido pelos seus cidadãos e utiliza-o para reprimir com a cooperação e a subserviência de muitos, incentivando a bufaria, apoiando o crescimento de um estado tentacular. A denúncia está aliás no manual de bom comportamento de todas as ‘’democracias totalitárias’’, esteve no Império Romano, esteve na Revolução Francesa, esteve na Revolução Russa com os Bolcheviques, esteve na Alemanha no advento Nazi.

Com o conforto tecnológico em que vivemos, com as facilidades que o crédito proporciona, não é difícil ver as similitudes neste declínio, quando analisado sem emoção. Porque o declínio é um processo, não é uma queda e, como tal, mais difícil de ser auto-avaliada no momento.

As pessoas continuam a fazer a sua vida mais ou menos como antes, os governos continuam a governar, os cidadãos continuam a votar, mas nada é exactamente igual, os discursos são vazios de conteúdo, os factos são duvidosos e os números certamente não batem certo.

Imagino que alguns já estejam a dizer que isto são só palavras sem substância, mas só não se lembrarem que a União Europeia é um espaço de livre comércio e livre circulação, que agora deixa muito a desejar.

Que alguns países estão à espera que seja a União Europeia a financiar a recuperação económica e não os estados soberanos individualmente. Ninguém se importa por cá, é certo, mas que se saiba não existem tratados que digam que Bruxelas é responsável pelo financiamento europeu, ou que possa impor objectivos e planos fiscais.

Ora, mesmo que este programa de mutualização da dívida europeia tenha o beneplácito dos burocratas em Bruxelas, tem o risco político de os países “pagadores” não estarem de acordo e de haver uma ruptura política do processo. Objectivamente, isto demonstra um crescimento sustentado da Europa ou um salto para a frente? Estamos ainda na fase ascendente ou já na fase descendente?

Com os Romanos, depois do declínio veio a queda, e com isso a invasão dos Vândalos, dos Visigodos e dos Suevos e a morte de milhões de pessoas e a destruição do conhecimento que deu lugar a 3 séculos de completo obscurantismo, conhecida pela idade das trevas.

E a pergunta natural que fica é: porquê? Se eram a maior potência mundial, a sociedade mais avançada, com a tecnologia superior, porquê a queda na idade das trevas?

Duas razões fundamentalmente: razões financeiras, naturalmente, e razões morais, mas na base a natureza primitiva da espécie humana, incapaz que é de fazer a sua autocrítica.

A incapacidade da sociedade romana de garantir um nível de vida decente à maioria da população, comparativamente com a riqueza de alguns e os extravagantes gastos públicos promovidos pelo império, foram motivo de instabilidade crescente.

Quando uma sociedade começa um processo de decadência, os instintos primários das pessoas tomam prevalência, as suas reacções colectivas passam a ser primitivas. Pode ser surpresa para muitos, mas uma boa parte dos nossos comportamentos está impresso no nosso ADN.

A anatomia do cérebro humano não está equipada para processar a complexidade de uma sociedade avançada, especialmente no que diz respeito à avaliação do risco. Isso mesmo nos diz Dan Gardner, no seu livro ‘’Risk the science and politics of fear’’.

A realidade é que ainda temos um cérebro de troglodita, que prefere uma vida simples e sem stress e se limita a processar imagens e a construir uma opinião baseada nelas, quer queiramos ou não.

No Império Romano, essa resposta do cérebro numa sociedade avançada para a época, começou a criar inquietudes à sociedade, com receios crescentes relativamente a bárbaros e barbaridades.

Hoje, está cientificamente comprovado que o medo vende e os políticos e o marketing têm sabido explorar esse facto ao longo do tempo. É essa primitiva parte do nosso cérebro que está mais receptiva ao alarmismo, mas, com a evolução, existe uma outra parte mais predisposta a pensar, e que com o tempo racionaliza os factos.

Outro aspecto interessante: o pensamento é também gerador de criatividade. A produção de arte baixa com as crises, outro facto cientificamente demonstrado, pelas razões apresentadas.

O melhor exemplo histórico será provavelmente o de Esparta em contraponto com Atenas, separadas por apenas 500 km, e que na sua essência eram o mesmo povo.

Um produzia arte e pensava, porque vivia em liberdade, o de Atenas, o outro totalmente focado no aspecto militar, sem outras distracções, debaixo de um corpo militar de elite que governava em tirania não produziu nada que se consiga mencionar, de carácter artístico ou literário.

O seu ‘’cérebro’’ era totalmente primitivo, sem medos nem receios, porque não tinham nenhuma ilusão sobre o controlo que poderiam ter sobre a vida, apesar de crescerem a ser preparados para a guerra.

Já o povo de Atenas tinha uma outra noção do risco porque era consciente que os resultados estavam dependentes de escolhas correctas.

Este tema do risco e do instinto primário tem exemplo científico estudado na universidade de Yale. Uma experiência feita para um episódio do ‘’The Big Idea’’ da BBC World Service, com macacos, que se separaram da nossa árvore evolutiva há 35 milhões de anos, trouxe resultados surpreendentes sobre as razões porque reagimos e como reagimos em momentos de crise.

Os cientistas treinaram os símios a receber uvas na troca de um voucher metálico. Por cada voucher recebiam um bago de uva. Depois, alguns cientistas passaram a fornecer 2 bagos na troca de um voucher, enquanto outros continuavam a trocar um bago por voucher. Apesar de não saberem contar, os macacos passaram a convergir para o cientista que dava 2 bagos pelo voucher.

Alguns macacos passaram a roubar vouchers na primeira oportunidade. Os cientistas em ciência cognitiva e psicologia da Universidade de Yale passaram os resultados a economistas, e estes ficaram convencidos que o estudo era sobre consumidores.

O momento mais interessante da experiencia é talvez quando um dos cientistas oferece 3 bagos na troca do voucher, mas na realidade só lhe dá 2 bagos, enquanto outro oferece só um bago em troca do voucher e depois lhe oferece outro como bónus. Apesar de ambos os cientistas estarem efectivamente a oferecer 2 bagos na troca do voucher, os macacos passaram a preferir o cientista que oferecia a troca de 1 por 1 mais o bónus.

Substituindo a psicologia do símio pela psicologia humana, podemos perceber melhor porque existe agitação quando as promessas não são cumpridas, ou quando pensamos que não podemos obter aquilo a que acreditamos ter direito.

De regresso ao nosso tema, todo e qualquer governante quer naturalmente mais prosperidade, mesmo que seja temporária, e é aqui que entra o problema monetário e as más escolhas que são feitas sempre com a melhor das intenções.

O grande sucesso do sistema bancário foi o seu sistema fraccionário, o facto de por cada euro depositado o banco poder emprestar pelo menos 8 euros e assim criar “valor” e “crescimento”. A criação de dinheiro de forma ostensiva desde 2008 será provavelmente o seu fim, tal como o conhecemos, e a razão por que se criaram moedas digitais, porque o seu modelo limita o crescimento do dinheiro.

Neste processo entre as escolhas que são feitas, muito provavelmente existe um momento em que deixa de ser importante o que se diz e até aquilo que se faz, porque tal como uma bola de neve, se a escolha foi errada, este processo, no seu movimento de descida, vai sempre ganhando velocidade, fazendo com que seja cada dia mais perigoso parar esta ‘’bola’’ e este movimento.

Quando se tomam decisões erradas durante muito tempo é praticamente impossível voltar a tomar as decisões correctas.

Roma foi cortando na percentagem de ouro e de prata da sua moeda até praticamente não ter valor, mas os impostos tinham que ser pagos em ouro e o mundo ocidental do século XXI imprime dinheiro emitindo dívida e cria dinheiro digital.

Algumas pessoas falam do risco de perda de controlo da inflação, porque a história tem tendência a repetir-se, mas nunca o faz da mesma maneira. Não creio que seja possível ter no ocidente uma situação de inflação de tipo sul-americana, mas o que chamar à valorização do bitcoin que há 10 anos valia um USD, há cinco anos menos de 500 USD e agora cerca de 55.000 USD?

O problema com a vida é que normalmente aquilo que se aprende chega no fim, raramente as pessoas estão disponíveis para aprender por antecipação, ou com a experiência de outros e essa é a razão pela qual a maioria das pessoas não está atenta ao que está a acontecer.

As mesmas pessoas esquecem-se das coisas que são verdadeiramente importantes, como por exemplo aquilo que fez com que fossem bem-sucedidos.

O perigo da moral da história é só chegar no fim, quando já for tarde para se fazerem alterações. E o tema da nossa reflexão é saber se é possível a sociedade regredir como aconteceu depois do império romano?

Aquilo que nos fez chegar a este nível de desenvolvimento foi indiscutivelmente o capitalismo, a liberdade de empreender e de fazer comércio, fazendo acordos bons para todas as partes. Somos provavelmente a geração que viveu em maior conforto na história da humanidade e, no entanto, ao ouvir a população e os meios de comunicação ficamos com a impressão que estamos a viver uma época de grande crise e incerteza, com medo.

A pergunta lógica é por que razão a população mais desenvolvida da história da humanidade vive debaixo desta cultura do medo, se vivemos melhor que todas as gerações anteriores? E a resposta deve ser o conforto e as razões primárias que já vimos anteriormente.

Esse medo não pode ser senão irracional, por estar baseado na nossa incapacidade de julgar o risco no contexto em que estamos inseridos. A discrepância de valores sociais e de desenvolvimento económico na sociedade faz o resto.

A sociedade moderna avançada quer que as pessoas sejam mais iguais, que tenham empatia, mas não lhe ocorre que tal não é possível com campanhas para o rendimento mínimo garantido, usando as regras que foram adoptadas para se chegar.

A bondade da ideia não coloca em igualdade um cidadão em Espanha com outro na Mauritânia. A dignidade do mesmo em Espanha com o rendimento em causa traria ao cidadão da Mauritânia um estatuto de classe média abastada.

O problema da igualdade está em saber igual a quê. Um mundo em que todos fossem iguais ao Ronaldo reformularia o futebol e ajustaria a uma nova realidade, sem ídolos sem estrelas, sem os mesmos incentivos. A questão está portanto em definir novas regras primeiro que possam adoptar novos conceitos.

Ajustes ocorrem permanentemente a todos os níveis, mesmo quando os governos querem que as pessoas sigam as suas recomendações, mas os ajustes são uma questão de perspectiva, aquilo que a sociedade moderna precisa não é uma questão de perspectiva, é antes uma refundação.

O nosso argumento para essa necessidade de refundação, é que a sociedade ocidental actual, enquadrada na perspectiva em que se insere, está no mesmo processo de declínio que o império romano e está também, comparativamente, mas a outro nível, em declínio em relação ao Oriente.

Este declínio em relação à China é económico e financeiro, mas não é em termos de liberdade, porque as realidades não podem ser comparadas.

A China passou de país subdesenvolvido a segunda potência mundial no espaço de uma geração. Esse atraso em liberdades permite à China a adopção mais rápida de uma moeda digital controlada pelo seu governo e banco central que lhe permitirá um maior controlo sobre os seus cidadãos.

Este dinheiro programável pode ter limite de validade para incentivar o consumo, sempre que as autoridades entenderem necessário apoiar a economia. Vai permitir também seguir as pessoas e mantê-las debaixo de apertada vigilância.

O ocidente, na sua competição com o Oriente, fará o mesmo com a narrativa adequada ao momento. Este ponto parece-nos decisivo para o futuro, porque os níveis de desenvolvimento da sociedade no Ocidente e a sua tradição de liberdade farão com que as consequências sejam diferentes. É aqui neste ponto que fazemos a ponte com a época romana e não com a China como poderiam estar a pensar.

Os ataques à civilização ocidental não são feitas com invasões de bárbaros como no tempo do Império Romano, mas com ataques à sua moeda, como está a ser feito pelas múltiplas moedas digitais e também pela moeda digital chinesa, o Iuane digital.

Se o mercado receber esta nova moeda e vir nela a estabilidade que procura com sensatez governativa, talvez consiga atrair ainda mais capital de todo o mundo e fazer da China uma potência ainda mais forte, forçando um novo padrão internacional para concorrer com o dólar norte-americano.

Se, ao contrário, este Yuan digital for visto como mais uma forma de os governos interferirem na vida das empresas e pessoas, talvez então não consiga atrair capitais externos e não chegue nunca a ameaçar a influência da moeda norte-americana, o USD.

No sistema monetário ocidental vigente desde o fim do padrão ouro em 1971, o dinheiro é ilimitado, mas os recursos e o tempo do mundo real não o são. Seria natural que o dinheiro no modelo existente tivesse restrições, até porque deriva de um modelo que impunha restrições, como foi o padrão-ouro.

O que é facto é que para o mundo ocidental não tem. A dívida não parece ter limites e os gastos aparentam não precisar de ser controlados.

Ora a civilização requer disciplina, aprender com aquilo que é correcto e adoptar aquilo que pode parecer correcto, mas, neste segundo caso, parece óbvio que ninguém se quer lembrar como era antes de parecer correcto.

Com o declínio do valor da moeda, outros valores se vão perdendo, como os valores políticos e da sociedade civil no seu conjunto. Quando se perde a estabilidade monetária numa economia, os seus cidadãos perdem a capacidade de planear para o futuro, perdem a capacidade de entender o valor real das coisas.

O resultado? Passam a viver no curto prazo, deixam de se preocupar com o futuro.

Talvez esteja aqui a razão, porque algumas civilizações antigas que deixaram legados importantes, mas sobre os quais pouco se sabe sobre a sua origem, e muitas outras sobre as quais quase nada se sabe, porque os seus descendentes simplesmente tenham decidido não se lembrar, porque perderam a disciplina.

É-nos ensinado que é importante saber distinguir entre o que é verdadeiro e o que é falso, mas como saber o que é verdadeiro com dinheiro que parece não ter limite.

E se o dinheiro pode ser adulterado, que mais podemos adulterar? Será esta a razão que leva agora as pessoas a querer controlar o tempo, a reescrever a história, a identificar novos géneros e a garantir direitos? Serão estes motivos suficientes para fazer regredir a civilização ocidental?

Porque não. Tudo parece possível, mesmo aquilo que é fisicamente e até matematicamente impossível. Já não existe vergonha associada ao que se possa dizer ou fazer, mesmo que totalmente estúpido. A moral acompanha esta tendência, quando se olha com mais atenção.

Hoje em dia, candidatos derrotados fazem fortuna no lobby, outros, carreira em empresas com quem dirimiram contratos enquanto governantes, tudo num formato normalizado, higienizado e educado, que faz com que os seus beneficiários tenham orgulho no que fazem e na forma como o fazem.

Em todas as sociedades as elites envelhecem e perdem qualidades morais. O poder corrompe e a riqueza enfraquece os conceitos. Com o tempo, as gerações seguintes vão sendo mais incompetentes, faz parte da natureza da história. As pessoas que mais clamam pela necessidade de impostos extraordinários ou temporários são normalmente aqueles que beneficiam de situações especiais de isenção, ou que pelo seu estatuto simplesmente não pagam impostos.

Guerra e inflação é a forma tradicional de se acabar com uma civilização, mas na guerra é preciso matar e roubar numa escala industrial. O vírus era suposto fazer a parte do matar, os governantes ficaram encarregues da inflação.

Foi assim que a riqueza medida pelo PIB regrediu em todo o mundo e o endividamento subiu de forma exponencial.

E, finalmente, como último motivo, lembrar que existem ciclos. Tudo aquilo que nasce: morre; os ciclos são inevitáveis.

O difícil neste tipo de ciclos que atravessam gerações é perceber em que lugar do ciclo se está. Ainda distantes do fim ou já perto do fim? O que parece claro, por tudo o que podemos observar, é que já estamos na curva descendente; isso quer dizer que os princípios com que nos regemos estão na curva descendente também.

Isso é visível na economia, com inúmeras novas empresas que não apresentam lucros, mas sim prejuízos. Isso quer dizer que não criam riqueza, na realidade destroem riqueza. É o que acontece quando o produto da venda é inferior ao seu custo de produção.

Não é só dinheiro que se perde, é também capital que se perde, e capital é aquilo que cria riqueza no modelo em que vivemos. Capital é o que faz um país ser rico e outro ser pobre. Essas eram e ainda são as regras, e não é justo nem tem moralidade que as regras não sejam as mesmas para todos.

O problema destes negócios não é que percam dinheiro, mas o facto de terem modelos de negócio que não irão permitir nunca ganhar dinheiro, mas, no entanto, as acções valorizam-se, os especuladores ganham dinheiro, apesar de duvidarmos que o mundo tenha ficado melhor quando os investidores aportam capital para empresas que destroem esse capital.

Tudo isto só é possível porque o mundo ocidental propõe-se resolver todos os problemas endividando-se e imprimindo dinheiro. Eventualmente, o sistema monetário acabará tal como o conhecemos.

Entretanto, algumas moedas digitais continuam a ter valorizações astronómicas, fazendo alguns dos seus detentores absurdamente ricos. Não investiram em nada de produtivo, não realizaram nenhum negócio palpável, não colocaram nenhum produto no mercado.

Este dinheiro não representa verdadeiro valor. O conceito de riqueza passa também para um estado de fantasia, por que não representa nenhum esforço, nenhuma ideia criativa, nenhuma visão de futuro e é o resultado unicamente de uma aposta, de uma lotaria. Comprei a moeda premiada ou não? Aposto 20 euros na moeda premiada ou 20.000 euros.

Esta realidade acontece porque uma grande maioria de participantes, ao fazer estas apostas, está de forma inconsciente a posicionar-se como anti-bancos centrais, a troco de alguns se poderem tornar excêntricos.

A outra versão é a das moedas digitais que estão a ser pensadas pelos bancos centrais, parecendo que o Iuane digital será o primeiro a ser implementado. Como vimos anteriormente, esta será a maior ameaça à privacidade.

Quando implementado, dará total controlo sobre todos os aspectos da vida de um cidadão, quer seja a comprar cigarros ou a fazer um donativo.

Claro que a narrativa estará sempre sobre o branqueamento de capitais; segundo dizem, quem não está envolvido em actividades ilícitas não tem nada a temer.

Deve ser por isso que é necessária legislação sobre todos os aspectos da natureza humana. A realidade é que o ser humano irá sempre cometer fraudes, é um facto facilmente comprovável. Mas, e se nesta futura realidade, uma pessoa ficar impedida de aceder à sua carteira digital por que fez um donativo para uma organização não aprovada ou porque andou a ler livros contrários à narrativa.

Estamos a viver uma enorme disputa sobre dinheiro, controlo e liberdade. Tudo o que é verdadeiramente importante para a espécie humana ocidental, e tudo depende da escravatura digital.

Para já, as pessoas parecem desesperadas por mais governo, tal como as crianças esperam a protecção dos pais, e parecem aceitar quase tudo para esse desiderato, numa espécie de feudalismo moderno.

Será mesmo assim? Não temos maneira de saber.

Estes processos levam sempre muito mais tempo que aquilo que se espera e depois acontecem muito mais depressa do que aquilo que se espera. Talvez só tenhamos perdas a nível financeiro, ou talvez se entre numa nova idade das trevas. Este é um momento importante para estar atento ao que se vai passar com a moeda digital chinesa

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