Loading...

Blog

ONDE FALAMOS DE BOLSA
Home / Blog

Inflação: O Roubo Silencioso

  • Inflação: O Roubo Silencioso

Na época medieval, um bom líder era aquele que atribuía recompensas ou parte de um espólio de guerra aos seus apaniguados. Alguns indivíduos eram elevados à categoria de aristocratas apenas pelo seu valor militar, pois ajudavam o monarca a obter mais território e população a quem podiam extorquir maior riqueza.

Esse foi o caso do herói nacional D. Nuno Álvares Pereira, que depois de uma série de vitórias militares, sendo a mais famosa a batalha de Aljubarrota, tornou-se praticamente dono do país, com uma grande parte do território nacional a pertencer-lhe. Pelo menos, neste período o escol ainda arriscava a pele num campo de batalha; agora, enche-se de regalias e nem precisa de aparecer no escritório.

Como obtinham rendimentos e património para distribuir prebendas aos seus favoritos? Após a conquista territorial, pelo clássico lançamento de tributos sobre as populações.

O estado não é mais que um monopólio de tributação sobre um determinado território.

Com dizia o economista libertário norte-americano Murray Rothbard: “A tributação é um roubo, pura e simplesmente, embora seja um roubo numa escala tão grandiosa e colossal que nenhum criminoso reconhecido poderia esperar igualar. É uma apreensão compulsiva dos bens dos habitantes ou súbditos do Estado.”

A cobrança de impostos obriga à violação do património e ao fruto do trabalho dos súbditos, por esta razão sempre gerou e gera enorme resistência, obrigando o estado a ter enormes mecanismos de controlo – hoje, complexos e dispendiosos sistemas informáticos, troca de informações entre estados, bases de dados alimentadas pelos privados e um exército de funcionários. Além destes mecanismos, também era necessário ter um conhecimento profundo das populações.

Durante a República Romana, uma das principais funções dos Censores romanos era o registo dos cidadãos romanos e dos seus bens. Controlar a população para assegurar um bom confisco não é nada de novo, apenas mudam os argumentos da propaganda para a execução dos censos: “…uma importante ferramenta que muitos países utilizam para planificar um conjunto de bens e serviços essenciais à população”.

Os negócios privados sem estas ferramentas orwellianas logram planificar a sua actividade, mas as entidades públicas necessitam de conhecer tudo sobre a nossa vida!

Se o saque tributário é demasiado violento – muitas revoltas contra impostos excessivos ocorreram ao longo da história -, pode gerar impopularidade; por essa razão, os líderes decidiram recorrer ao “imposto silencioso”: a inflação.

Em que consiste? Introduzir uma maior massa monetária na economia sem a correspondente produção de bens e serviços, ou através de um simples apertar de um botão do computador do banco central, como hoje ocorre.

Numa primeira etapa, diminuíram o conteúdo metálico das moedas em circulação, prática adoptada pelo Império Romano, tal como explicado brilhantemente pelo meu colega Paulo Pinto neste seu artigo. Na Idade Média, os cobradores de impostos raspavam as bordas das moedas para emitir novas moedas; por essa razão, foram introduzidas as ranhuras para evitar tal prática, tradição que ainda hoje se mantém.

Na idade moderna apareceu o papel-moeda e os bancos centrais. Foi John Law, que morreu em desgraça, aquele que introduziu todos os modernos mecanismos de geração de inflação sem limites (ler artigo “Bancos: Um logro sem fim à vista!”).

Atribuição do monopólio de emissão de papel-moeda ao banco central, com a obrigação de liquidar impostos precisamente nesse papel-moeda.

Nada de concorrência, apenas aceitamos o papel-moeda com umas palavras impressas em latim, para dar um ar altissonante e credível à coisa – o estado sempre dispõe de uma tremenda máquina de propaganda.

Tal como hoje, o banco central gerido por John Law criou uma tremenda bolha bolsista – a Companhia do Mississípi, sendo John Law um dos seus principais accionistas! -, através de compras realizadas precisamente com o papel-moeda do seu banco central: onde já vimos isto?

Faz-nos lembrar a subida das obrigações gregas, com maturidade a 10 anos, entre 2012 e 2021, com uma rendibilidade de 1300%, à boleia de um comprador que pode imprimir notas de monopólio sem fim: o Banco Central Europeu (BCE) – ver Figura 1.

Isto num país que no final de 2020 tinha uma dívida pública que representava 206% do PIB – actualmente já deve rondar os 220% -, e um défice público de 9,7% do PIB.

A inflação logra salvar estados falidos: é pura magia!

Figura 1

A revolução norte-americana, ao contrário do propagado na maioria dos livros de história, não resultou de uma revolta contra a lei do Chá de 1773, imposta pelo governo de sua majestade Jorge III, mas sim da lei da moeda de 1764.

O governo britânico queria impor às 13 colónias norte-americanas o monopólio da emissão e circulação da moeda emitida pelo seu banco central: o Banco de Inglaterra.

Desta forma, queria-se impedir os habitantes das colónias americanas de utilizarem as várias moedas que então aí circulavam: (i) Ouro; (ii) Papel-moeda na forma de uma letra de câmbio ou uma nota de banco respaldada pelo valor de um terreno de propriedade de um indivíduo; (iii) matérias-primas, como tabaco.

Talvez por essa razão, os EUA tornaram-se a maior potência industrial do mundo no final do século XIX, apesar de duas tentativas falhadas de lhes impor um banco central, dada a sua aversão histórica a este tipo de instituições. Mas, como diz o ditado popular: à terceira foi de vez.

Numa reunião secreta em Jekyll Island, EUA, em Novembro de 1910, lá se preparou a lei que deu origem ao actual banco central norte-americano: a Reserva Federal norte-americana.

A tentativa de controlo do sistema monetário pelo estado, visando assegurar inflação sem fim, não parou enquanto o padrão-ouro não foi destruído. O primeiro golpe deu-se a 30 de Janeiro de 1934: a lei do Ouro.

Todos os norte-americanos foram obrigados a entregar o seu ouro ao tesouro norte-americano, recebendo por cada onça 20,67 USD (0,0484 USD por onça); caso não o fizessem poderiam sofrer pesadas penas, incluindo a cadeia por vários anos.

Quando a entrega ocorreu, passados poucos dias, o idolatrado presidente Franklin D. Roosevelt decidiu que uma onça de ouro passaria a valer 35 USD (0,286 USD por onça), uma desvalorização de apenas 40%!

Os cidadãos norte-americanos foram simplesmente confiscados em 40% num espaço de poucos dias.

O segundo golpe e definitivo dá-se a 15 de Agosto de 1971, quando o presidente Nixon decretou o fim da convertibilidade do USD em Ouro. Os EUA que andaram anos a pagar as contas da guerra do Vietname através de inflação admitiam que não eram capazes de entregar o ouro correspondente aos USD detidos pela França e Alemanha, países que nessa altura eram fortemente exportadores e possuíam contas públicas sólidas.

A partir de então todos os argumentos têm sido utilizados para incrementar de forma inexorável a dimensão do estado:

  • redistribuir rendimentos, ao melhor estilo Robin dos Bosques, sem nunca aparecer qualquer racional para tal, a quem tiram e a quem dão, quais os critérios;
  • prover serviços à população mais débil, como saúde ou educação, caso contrário, segundo dizem, esta sem o estado não logra aceder a tais serviços. Nunca se questionam se aplicássemos tais critérios ao fornecimento de comida, por exemplo, teríamos assim uma rede de cantinas do estado, com um único menu, com colaboradores contratados centralmente; alguém acredita que iria funcionar? Acabamos sempre por obter serviços que não funcionam, com filas de espera e de baixa qualidade;
  • proteger a população das alterações climáticas, taxando os combustíveis fósseis até à medula; um dia destes temos o litro de gasolina a 2 Euros por litro, sem ninguém se dar conta que hoje um barril de petróleo vale 70 USD e há 12 anos valia 150 USD por barril;
  • estimular os correctos comportamentos, taxando determinados alimentos calóricos, como se as pessoas fossem incapazes de conhecer os riscos que correm e necessitassem de um pai estado para os conduzir todos os dias, tal como um pastor. Um dia destes, os “gordos” e os “feios” irão sofrer um imposto extra;
  • e, agora, claro está, “proteger-nos” de uma pandemia, onde assumiram que afinal os sistemas públicos de saúde não estavam aqui para nos salvar, mas para serem salvos, depois de anos e anos a fio em que assistíamos ao crescimento contínuo da despesa pública, aparentemente sem qualquer proveito para o sistema de saúde.

Podíamos estar aqui a citar infinitas razões, que todos os dias ouvimos, para justificar o crescimento do estado. Apesar de tudo, a situação começa a apresentar contornos dramáticos.

Em 20 anos, a despesa pública em França passou a representar 62,1% do PIB!

Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado parece ser o caminho das sociedades ocidentais!

Figura 2

A Irlanda, o país com o maior crescimento económico da Europa, a despesa pública nem representa 30% do PIB; ainda reduziu a sua despesa pública em 2,5% do PIB em 20 anos. Tal como podemos ver na Figura 3, juntamente com a Irlanda, apenas dois países lograram tal feito: a Suécia e a Eslováquia.

Para termos uma ideia da loucura desta evolução, a Espanha subiu a sua despesa pública em 13,2% do PIB, o que representa hoje aproximadamente 150 mil milhões de Euros (o PIB está em torno de 1,2 biliões de Euros)!

Que benefícios existiram nestes 20 anos para justificar tal subida? E a Grécia, um país totalmente falido?

Figura 3

A Grécia é há muito tempo a campeã da dívida pública, com Portugal a ocupar um honroso terceiro lugar, tal como podemos observar na Figura 4.

Figura 4

Recentemente, a Espanha tem lutado arduamente para alcançar a primeira posição; objectivo: tornar-se, a par com Portugal, Itália e Grécia, um dos países mais endividados do mundo.

Na Figura 5, podemos ver que a Espanha registou em 2020 o défice público mais elevado da União Europeia: 11% do PIB!

Figura 5

Face a esta ruína, a única forma de servir a dívida pública e financiar défices monstruosos será através das rotativas dos bancos centrais: isto é, inflação!

Vão continuar a manter artificialmente as taxas de juro a 0%, algo que nem com a existência de um estado com contas públicas saudáveis seria normal, isto se existisse um mercado livre de aforro e empréstimos entre os agentes económicos.

Entramos assim num círculo vicioso de inflação, mas, desta vez, a uma escala sem precedentes.

Estado em apuros? Sem tesouraria para pagar as contas? Não há problema.

Emite obrigações e vende-as aos bancos comerciais; estes compram tudo, mesmo que em muitos casos proporcionem uma rendibilidade nula ou negativa; e porquê? Porque existe alguém, com infinitas notas, que através de um programa retumbante, tipo “emergência pandémica”, compra as obrigações a um preço superior.

O BCE fica com esses títulos em carteira e quando recebe o cupão (juros) desse estado, devolve-lhe esse montante em suculentos dividendos! É uma espécie de descoberta: onde está a bolinha!

Apesar de continuarmos a ser manipulados, onde nos dizem sistematicamente que não há inflação, esta é a situação em 2021, em que apenas 5 meses estão completos.

Como podemos constatar na Figura 6, a carne de suíno sobe mais de 70%, o petróleo e o milho mais de 40%, a madeira e o cobre mais de 30%, o café e o cobre mais de 20%; isto, apenas mencionando as maiores subidas.

Figura 6

No dia 10 de Junho de 2021, dia nacional em Portugal, publicou-se a inflação nos EUA para o mês de Maio: o índice de preços registou uma subida de 5% em relação a Maio de 2020.

Isto significa que os aforradores com depósitos a 0% nos bancos comerciais estão a perder 5% ao ano do seu poder aquisitivo! Isto de acordo com o índice de preços oficial.

O economista francês do século XIX Frédéric Bastiat tinha a seguinte definição: “O estado é aquela grande ficção pela qual todos tentam viver às custas de todos”.

Julgo que terá de ser ajustada: “O estado é aquela grande ficção pela qual uma casta* tenta viver às custas de uma outra”. O asterisco pede uma definição: casta é um sistema tradicional social de estratificação ao abrigo da lei, que é uma divisão social importante da sociedade…

Agora, todos querem fazer parte da casta superior, é o sonho e aspiração de qualquer um; também pudera!

Proporciona magníficas sinecuras, à prova de qualquer risco – durante uma pandemia, o salário é certinho e as séries da Netflix são um óptimo entretenimento -, com uma lista infindável de regalias, como o indispensável motorista, secretária e assessores.

É natural que a casta superior utilize todos os meios para controlar e proceder ao saque da outra casta que ainda faz parte desta fantasia. Estamos a assistir precisamente a isto, como é o caso dos passaportes sanitários. Estes seriam o sonho dos censores romanos.

Para além de eliminar o direito de circulação, será um dia exigido para abrir uma conta bancária, para validar uma transferência bancária, para movimentar uma carteira digital com a moeda digital do BCE, ou mesmo indispensável para receber um subsídio estatal.

O cartel fiscal que se está a estabelecer é outra das medidas. Veja-se o caso do imposto mínimo sobre os lucros das sociedades. Os avençados já vieram celebrar, dizendo-nos que é o fim “do roubo de receita fiscal” aos estados.

As empresas têm de concorrer e apresentar preços competitivos para captar consumidores, mas essa regra já não se aplica aos estados – o saque fiscal deve estar garantido por serviços mínimos.

Apesar da alarmante subida do índice de preços, a inflação em grande escala terá de continuar, será a única forma de tapar os enormes buracos causados pelos enormes défices.

Hoje, a maioria dos estados ocidentais vive da máquina de imprimir dinheiro dos seus bancos centrais. Estes são agora os únicos compradores das suas obrigações, assegurando não só a compra, mas também custos a 0%, ou mesmo negativos, como é o caso da Alemanha.

Esta inflação não só diminui o poder aquisitivo da moeda, como é um confisco dos aforradores sem paralelo na história da humanidade.

O assalto aos aforradores será completo quando terminar o dinheiro físico, a pretexto do enorme sucesso do dinheiro digital do banco central.

Aí, as criptomoedas serão ilegalizadas ou fortemente perseguidas, impondo-se juros negativos sobre os depositantes. Desta forma, a velocidade do dinheiro estará absolutamente debaixo de controlo dos bancos centrais e o índice de preços será o número que estes decidirem.

Termino com a frase do economista francês Frédéric Bastiat: “Parece-me que tenho a meu favor a teoria, pois qualquer que seja o assunto em discussão, quer religioso, filosófico, político, económico, quer se trate de prosperidade, moralidade, igualdade, direito, justiça, progresso, trabalho, cooperação, propriedade, comércio, capital, salários, impostos, população, finanças ou governo, em qualquer parte do horizonte científico em que eu coloque o ponto de partida de minhas investigações, invariavelmente chego ao seguinte: a solução para problemas sociais humanos está na liberdade.

A liberdade é a única esperança por nos livrarmos deste pesadelo!

Veja também: