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Crise Covid-19: Investir na Bolsa e a Realidade Económica

Diz-se que uma imagem vale por mil palavras; efectivamente, se observarmos a Figura 1, podemos constatar que os mercados de capitais reflectem o desempenho económico dos estados onde as empresas se encontram sediadas.

Figura 1

Os índices norte-americanos e o DAX 30 foram os únicos índices bolsistas que registaram um máximo histórico no presente ano – quando se iniciou a crise do Covid-19. Com a excepção do índice norte-americano DOW 30, estes máximos tiveram lugar no último dia 19 de Fevereiro.

Por outro lado, o índice NASDAQ encontra-se apenas a 4% de distância do seu máximo histórico.

Em situação inversa, encontram-se os principais índices de Portugal e da Grécia, nomeadamente o PSI 20 e o ATHEX 20. No caso do PSI 20, a sua actual cotação representa apenas 29% do seu máximo histórico; este teve lugar no longínquo ano 2000 – o segundo ano do Euro em Portugal.

No caso do ATHEX 20, a actual cotação representa apenas 10% do seu máximo histórico, registado há mais de 20 anos, em Setembro de 1999.

O desempenho dos países do Sul da Europa foi particularmente confrangedor a partir da grande crise financeira de 2008, que se iniciou com a falência de um dos principais bancos de investimento norte-americanos, o Lehman Brothers, em Setembro de 2009.

Na Figura 2, podemos observar que a rendibilidade acumulada entre o final de 2008 e Maio de 2020 foi extraordinária para os índices norte-americanos e o DAX 30; em particular para o principal índice tecnológico norte-americano, o NASDAQ.

Para este período, este índice registou uma subida de 675%! Algo em torno a 20% ao ano – utilizando uma capitalização composta.

Figura 2

No caso do índice PSI 20, registou-se um absoluto cataclismo: o principal índice português registou uma queda de 33%, dos 6300 para os 4200 pontos,aproximadamente. Igualmente, o nosso companheiro na desgraça, a Grécia, viu o seu principal índice bolsista, o ATHEX 20, perder 66%!

Uma perda de dois terços da capitalização bolsista.

Em pleno ano de crise Covid-19, em que decidimos participar no descalabro dos confinamentos, arruinando por completo a economia, o desempenho do nosso mercado de capitais foi, mais uma vez, plangente.

No entanto, para nosso consolo, desta vez, não nos situamos próximos do carro vassoura- o suspeito do costume, desde o início do século XXI, o xareta da turma, a Grécia!

Na Figura 3, podemos constatar que a nossa queda foi de 20%, longe do tombo de 34% do principal índice grego. Parece que, pela primeira vez na história do presente regime, as contas públicas em ordem nos trouxeram um lenitivo para o nosso infortúnio.

Figura 3

O que podemos concluir a partir destes dados: algo muito simples e que deveriam ser evidências para todos os investidores.

A poupança encaminha-se para os locais onde é bem tratada. Quem produz e deseja fazer algo, procura destinos que respeitem o seu trabalho.

No fundo, algo parecido aos 10 mandamentos revelados por Deus a Moisés, que se podem resumir a 7:

  • Respeito pela propriedade privada;
  • Existência de um estado de direito, com regras claras e perenes, onde as leis e os contratos fazem-se cumprir;
  • Existência de mão-de-obra preparada e qualificada;
  • Possibilidade de empreender livremente, sem condicionalismos de burocratas e fiscais;
  • Existência de mercados de capitais com liquidez, com pouca burocracia para start-ups e pequenas empresas, possibilitando saídas e entradas rápidas e com custos de intermediação reduzidos;
  • Possibilidade de negociar activos financeiros denominados na divisa reserva do mundo.
  • Existência de uma administração pública eficiente, com custos reduzidos e transparente, onde os desmandos são vigiados por uma imprensa livre;

Face a estes sete mandamentos, o desempenho do nosso mercado de capitais não é uma casualidade – reflecte todos os erros que temos cometido ao longo de décadas.

Em primeiro lugar, o respeito pela propriedade privada. Nos últimos anos, assistimos ao confisco de fundos de pensões privados, em que a poupança de particulares foi transferida para o estado, a título de receitas extraordinárias, sem a menor inquietação ou resistência.

Pôr a mão à poupança privada é algo que não perturbou qualquer consciência.

Temos igualmente a lei fiscal a tributar o património, ou seja, todos os anos aplicam-nos uma percentagem sobre o nosso património, apenas pelo facto de sermos proprietários!

Um cidadão por trabalhar é tributado; seguidamente, ao utilizar esse valor, deduzido de impostos, na aquisição de património é novamente tributado, tanto na aquisição como na manutenção – puro confisco que serve apenas para alimentar a voragem por receita fiscal, utilizando-se a tributação do mesmo fluxo, duas, três e quatros vezes…isto é grave em países com necessidade de poupança e capital.

Também se propõem leis para confiscar os proprietários de edifícios devolutos, como se o próprio estado não fosse um dos piores proprietários.

Também ninguém comenta a ruína total do património imobiliário nas principais cidades, fruto do congelamento das rendas durante décadas.

Assim que se tentou rectificar a situação, apareceu logo o drama dos despejos, como se o proprietário não pudesse dispor livremente do seu património, realizando caridade compulsivamente – também ninguém se indigna!

Fazer cumprir um contrato é missão impossível. Quantos anos para reclamar junto dos tribunais o cumprimento de uma dívida ou a resolução de um contrato?

Olhemos para o caso do Novo Banco:

  • Por quantos anos se arrastará este processo pelos tribunais?
  • Quantos anos para a condenação dos prevaricadores?
  • Como poderá alguém investir num país onde existe um simulacro de estado de direito?

Como podemos estar tranquilos num estado em que o Ministério Público persegue inocentes todos os dias, com a total impunidade dos procuradores?

Na maioria das vezes, estes últimos são derrotados pelos tribunais de forma consecutiva, no entanto, não sofrem quaisquer consequências na sua carreira; podendo inclusive usar métodos próximos da inquisição, em que o confisco de bens, antes de uma possível condenação, pode ter lugar – obviamente obtiveram a cobertura da lei, alegando a eterna falta de meios.

Por outro lado, o ataque à poupança e ao capital a que temos assistido, não tem permitido a acumulação de capital. Hoje, somos um dos países que menos afecta rendimento ao investimento.

Desta forma, a produtividade não aumenta, impedindo a subida de salários. Não constitui surpresa a debandada para países estrangeiros dos nossos melhores.

O actual regime fiscal é altamente punitivo para quem deseja ascender socialmente pelo seu trabalho, em resultado de uma apropriação superior a 50% do produto do trabalho – taxas de segurança social, tanto sobre o empregador como o colaborador, sem limites, e IRS.

O trabalho é muito caro para os empreendedores.

Há dias, ninguém se questionou a razão pela qual um enfermeiro português – aquele que tratou o primeiro-ministro britânico recentemente – decidiu abandonar Portugal. A rústica imprensa portuguesa apenas exaltava o feito!

A partir da adesão ao euro, as receitas do estado português tornaram-se praticamente ilimitadas, seja por confisco fiscal ou por emissão ilimitada de dívida – o BCE compra sempre e garante juros reduzidos, até negativos!

Desta forma, todos desejam fazer parte do regimento de polícias, fiscais, burocratas e supervisores- o rendimento não tem risco, está sempre garantido, independentemente de qualquer crise.

Sem conhecerem o mundo real, isto é, sem empreenderem ou arriscarem o seu dinheiro, tornaram-se coagentes dos empreendedores, utilizando um poder totalitário conferido pela legislação.

A liberdade económica está muito condicionada nos dias que correm.

A integração de Portugal numa zona monetária também não ajudou a atrair capitais. Estes tendem a mover-se para países com mercados de capitais de maior dimensão.

Não é surpresa que a Alemanha apresente o melhor desempenho bolsista da Europa, atendendo que fez correctamente o seu trabalho de casa. Por um lado, manteve a existência de várias bolsas de valores: Frankfurt, Estugarda, Munique…

Por outro lado, tem mercados de capitais exclusivamente dedicados a empresas tecnológicas, tal como acontece nos Estados Unidos. No fundo copiou há muitos anos as melhores práticas.

Um dos aspectos mais relevantes para o excepcional desempenho das bolsas norte-americanas é o estatuto do USD como moeda reserva do mundo. Se o estado português deseja adquirir petróleo deverá utilizar USD para o efeito; vários bancos centrais do mundo utilizam o USD como reserva; várias empresas da América Latina, África, Médio Oriente e da Ásia emitem dívida denominada em USD.

Por esta razão, a Reserva Federal norte-americana, o banco central dos EUA, pode emitir moeda, isto é, inflação, para estimular os mercados de capitais, sem correr o risco da subida de preços – a sua inflação é exportada.

Assim, as empresas norte-americanas recorrem a crédito para comprarem as suas próprias acções, beneficiando de taxas de juro próximas de 0 e, em consequência, fazem subir o preço das cotações.

A negociação de activos financeiros na moeda reserva do mundo é muito vantajosa para o país que a emite.

Apesar do sobredito, nuvens negras aproximam-se para as bolsas norte-americanas, atendendo que a sua situação fiscal é alarmante.

Para o mês de Abril do presente ano, o seu défice foi de 800 mil milhões de USD aproximadamente – cerca de 4% de défice em apenas um mês -, pelo que não cumpre com um dos mandamentos.

Essa foi e é uma das razões da nossa desgraça. Na figura 4, podemos observar que o endividamento do estado português é alarmante. Pior, apenas a Itália e a Grécia. Com o estado a capturar cada vez mais recursos, a liberdade económica vai diminuindo, impossibilitando o aumento da riqueza.

Figura 4

O escrutínio da aplicação de recursos públicos é praticamente inexistente, em resultado de uma imprensa condicionada – agora até recebem prebendas de milhões sem qualquer critério. Esta situação incrementa o grau de impunidade da burocracia estatal, sufocando por completo a iniciativa empresarial.

Não é surpresa que o desempenho económico português desde a crise financeira de 2008 seja miserável, muito inferior a países que nesse ano apresentavam uma riqueza per capita muito superior à nossa.

Na Figura 5, podemos observar o crescimento económico acumulado entre 2009 e 2019 de 9 países. Apenas crescemos 5%, algo medíocre quando comparado com os EUA que cresceu 22% e era um país com uma riqueza per capita muito superior à portuguesa em 2008.

Figura 5

Em conclusão, antes de investir na empresa A ou empresa B, o investidor deverá ter em conta os sete mandamentos enunciados no presente artigo, devendo previamente seleccionar o país onde deseja efectuar investimentos.

No caso da Grécia, foi o país das posições curtas, enquanto os EUA foi o El Dorado das posições longas.

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