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COVID-19: O Ataque ao Dinheiro Físico?

Nos últimos dias, pela primeira vez na Europa, um partido político, neste caso aquele que actualmente suporta o governo de Espanha, propôs a eliminação do dinheiro físico (Notícia); ou seja, caso esta proposta siga o seu curso, as notas e as moedas que levamos na carteira irão desaparecer.

Todas as transacções entre particulares e empresas passariam a ser digitais.

O guião para iludir a população é sempre o mesmo. Numa primeira fase, o BCE comporta-se tal como um amigo da população, alertando para a vulneração dos tratados da União Europeia que tal proposta representa.

No entanto, o real objectivo está encoberto; tal como o papel da lebre numa corrida, esta proposta visa testar a resistência da população a tal conceito.

Se não existirem vozes dissonantes, é evidente que a eliminação do dinheiro físico, tal como o conhecemos, será uma realidade a médio prazo.

A situação dramática em que se encontram governos e bancos comerciais, em particular após a crise Covid-19, não permite outro tipo de solução. Senão vejamos.

Na Figura 1, podemos observar a evolução da dívida pública e do PIB. Entre 61 e 74 do século passado, até ao início da democracia, o crescimento nominal anual do PIB foi superior ao crescimento da dívida pública, 12% vs 10%.

A partir da implementação da democracia, o crescimento nominal da dívida pública foi sempre superior ao PIB. Entre 74 e 99, 17% vs 24%; entre 99 e 2020, 3% vs 7%.

Figura 1

Com a decisão de confinar e parar a economia, a situação tornou-se dramática.

Caso a previsão do Banco de Portugal se confirme, ou seja, uma queda de 10%, o PIB no final do ano situar-se-á em torno a 190 mil milhões de Euros – assumindo um valor nulo para a inflação.

Em Abril do presente ano, a dívida pública já se situava em 262,1 mil milhões de euros (fonte: Banco de Portugal), um crescimento de 12,2 mil milhões de Euros em apenas 4 meses. A manutenção deste ritmo, levar-nos-á a um valor no final de 2020 em torno a 285 mil milhões de euros.

Tal situação significa que a dívida pública passaria a representar 150% do PIB, algo próximo do abismo!

Aparentemente, nenhuma das luminárias que visita todos os dias as televisões deseja comentar ou discutir esta situação.

Outro dos problemas da presente crise Covid-19 é a insolvência dos bancos europeus.

Presentemente, todo o seu balanço é praticamente dívida, sendo a maior parte constituída pelos depósitos dos clientes: o meu e o seu dinheiro!

Para termos uma ideia da situação, na Figura 2 podemos consultar a situação do BCP. Esta instituição financeira possui 82 mil milhões de euros de activos, enquanto os seus capitais próprios estão valorizados em bolsa em apenas 1,4 mil milhões de Euros.

Figura 2

Será o mesmo que iniciar um negócio com 100 euros, em que o investidor aplica apenas 1,7 euros e os restantes 98,3 euros são obtidos por dívida.

Desta forma, se o valor do activo da empresa desvalorizar 2%, isto é, passar de 100 para 98 euros, o negócio já se encontra insolvente, pois a sua liquidação não permite pagar aos credores.

Como os depositantes dos bancos nunca exigem a devolução do seu crédito ao banco, é disso que se trata quando falamos de depósitos, apesar de insolventes, podem continuar a funcionar.

No entanto, em momentos de falta de confiança, tal situação pode acarretar problemas: precisamente, o que aconteceu ao Banco Banif há uns anos atrás.

Qual é a forma mais apropriada de solucionar este problema, tanto para governos como para bancos?

Eliminar o dinheiro físico.

Tal cenário poderia permitir várias coisas:

  • evitar “corridas aos bancos”. Regra geral, este processo obriga-os a encerrar;
  • tornar o serviço de dívida gerível; isto é, permitir a continuação do actual modelo de gastos públicos e dívida sem fim, acompanhado de uma tributação crescente.

Se o dinheiro é apenas digital, não é possível ter notas e moedas em casa ou na nossa carteira.

Todo o dinheiro está algures num registo electrónico de um banco. Desta forma, se existir alguma situação de “desconfiança” em relação a um determinado banco, apenas é possível transferir o saldo para outro banco.

Neste caso, as autoridades irão apadrinhar sempre as instituições mais poderosas, fazendo cair as mais pequenas, levando as pessoas a transferir o seu saldo dos bancos pequenos para os grandes.

Ou seja, maior concentração em grandes bancos, cada vez mais poderosos, e impossibilidade de fazer cair todo o sistema, atendendo que o dinheiro nunca pode ser retirado do sistema – é inteiramente digital.

Ao sermos obrigados a ter sempre um saldo em algum banco do sistema, será mais fácil obrigar os depositantes a suportar perdas, em caso de falência do banco. Imaginemos que um determinado banco está em risco de fechar as portas, as autoridades decidem que acima, por exemplo, de 100 mil euros, os depositantes perdem o seu dinheiro, evitando que sejam os governos a suportar tal desastre.

Neste caso, os depositantes que pudessem levantar a totalidade do seu saldo, teriam podido proteger-se, o que não acontece nesta situação.

A inexistência de dinheiro físico permite a prática de taxas de juro negativas. Se o depositante é obrigado a pagar pelo seu saldo no banco, actualmente pode convertê-lo em notas e não terá de pagar.

Mas se o dinheiro é apenas digital?

Terá que obrigatoriamente ter o dinheiro em algum banco. Assim, de forma coerciva, será obrigado a pagar por ter poupanças ou uma conta corrente num banco.

A facilidade em praticar taxas de juro negativos, irá permitir aos governos receber pelo seu endividamento.

Será vantajoso para qualquer estado endividar-se até ao infinito, dado que passa a receber por se endividar!

A última vantagem, e talvez a mais importante, é a eliminação por completo da nossa privacidade. O dinheiro físico permite realizar transacções de forma anónima, algo que não acontece com o dinheiro digital.

Para que servirá esta importante alteração?

Implementar um enorme “Big Brother”, em que o estado passará a conhecer tudo sobre a nossa vida: onde comemos, onde consumimos, que livros consumimos.

Assim, ao alcance de um simples botão do computador, o fisco exigirá que os bancos o informem de todas as nossas transacções, podendo tributar ainda mais o nosso rendimento, tornando-nos simples escravos do estado.

Tudo isto será vendido em nome do bem: do estado social, da promoção da igualdade, da transparência.

O fim do dinheiro digital será a última etapa da eliminação completa da nossa privacidade.

A crise Covid-19 foi uma etapa que apenas acelerou este processo!

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