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Covid-19: Causador do Fim da União Europeia?

Em 1 de Janeiro de 1999, com a introdução do EUR em 11 países da União Europeia, criou-se a Zona Euro e o Banco Central Europeu (BCE) passou a assumir a política monetária destes países, com estes, uma vez mais, a cederem soberania a uma entidade supranacional, dando-se mais um passo a uma união federal. O único país que então não aderiu e poderia ter aderido foi o Reino Unido e que acaba de sair.

Covid-19: Causador do Fim da União Europeia?

Na altura da criação da moeda única tudo era um mar de rosas. Os países do sul passariam a beneficiar das taxas de juro da Alemanha; as empresas e os negócios passariam a negociar com a moeda única, sem custos de intermediação; o acesso aos mercados de capitais seria facilitado, dada a sua maior integração; e seria, inclusive, um estímulo à entidade Europeia, segundo a Comissão Europeia!

Ou seja, tratou-se essencialmente de um projecto político, em que se concedia um enorme poder a um banco central, o BCE.

O EUR, segundo os seus panegíricos, passaria a rivalizar com o USD, a então moeda de reserva e que ainda se mantém com esse estatuto, apesar dos sonhos grandiloquentes de muitos burocratas europeus.

Ora, como ficou demonstrado no passado, em particular em países comunistas, o planeamento central, isto é, a existência de uma autoridade central a determinar um dado preço, é a receita perfeita para o desastre.

Antes do Euro, os bancos centrais eram apenas uma realidade de cada estado; posteriormente, tornou-se supranacional e uma mega estrutura.

Para utilizarmos um pequeno exemplo à escala nacional, podemos apontar o desastre que ocorreu no mercado imobiliário nacional durante várias décadas.

A então legislação, ao proibir a subida de rendas durante o grande período inflacionário dos anos 70, impeliu os proprietários a praticar um preço muito inferior àquele que seria praticado num mercado livre, levando à completa ruína do nosso parque imobiliário.

Quando um dado preço é determinado de forma administrativa e inferior ao real preço de mercado, não existem quaisquer incentivos do lado da oferta – a razão da ruína e o desleixo do parque imobiliário português.

Por outro lado, a procura é estimulada por um preço baixo e irreal, conduzida por um sinal errado, julgando existir excesso desse bem ou serviço no mercado: algo que não é verdade.

Tal incentivo foi música celestial para a classe política dos países do Sul da Europa, levando-os a entrar numa espiral de gasto desenfreado.

Atraídos por juros baixos, muito inferiores aos determinados num mercado livre, e iguais aos praticados nos países protestantes e ricos do norte da Europa, que possuíam um nível de poupança para tal, os políticos compreenderam que podiam facilmente vencer eleições, prometendo aos eleitores o paraíso na terra, através de dívida sem fim.

Ao contrário do que nos venderam, desde o início da união monetária até à grande crise de 2008, os estados do Sul da Europa entraram num período de total extravagância, em particular o aumento brutal da despesa pública.

Na figura 1, podemos observar que, para este período, na Grécia a despesa pública subiu 85%, enquanto a sua economia apenas 69%, menos 16 pontos percentuais! Ao mesmo tempo, a despesa pública correspondia a mais de metade do PIB!

O mesmo se passou em Espanha, Itália e Portugal; no nosso caso, a despesa pública subiu 48%, enquanto o PIB apenas 39%. Ao contrário do propalado, a via para uma sociedade socialista estava aberta, com os estados a apropriaram-se de mais e mais recursos do sector privado, com o patrocínio do BCE.

Figura 1

O que aconteceu durante a crise de 2008?

A classe política decidiu realizar uma fuga em frente, em lugar de reduzir a despesa pública, face à queda brutal de receitas públicas, aumentou-a; o objectivo era “estimular a economia”!

Em consequência, as contas públicas pintaram-se de vermelho de forma acentuada; excepto a Itália, os défices elevaram-se acima de 10% do PIB em 2009 e 2010. Na Grécia chegaram mesmo a superar os 15%!

Assim, ao final de dois anos, gerou-se a crise da dívida soberana europeia, em que o mercado simplesmente se recusava a financiar a espiral de despesa e dívida pública.

Que vozes se ouviram?

“Os malvados mercados”…as “pessoas acima dos números”…“a constituição é sagrada e acima dos ditames da economia”…”abaixo o neoliberalismo”…”as criminosas agências de rating”….

Como resolveram um problema de excesso de despesa e dívida pública? Com mais dívida!

Apareceu o FMI e a Troika para nos resgatar da bancarrota, através da concessão de enormes empréstimos, pois os mercados de dívida privada tinham-nos encerrado as portas, dada a situação de completa insolvência.

Em paralelo, visando “controlar os mercados”, o então presidente do BCE, Mario Draghi, decidiu comprar dívida pública, ou seja, obrigações soberanas, e reduzir o custo de financiamento destes estados em apuros.

Uma vez mais, atendendo que o preço de mercado não era do agrado dos comissários soviéticos, optou-se pela manipulação dos mercados financeiros, obrigando o custo de financiamento a reduzir-se substancialmente, no sentido por eles desejado.

Como funciona este mecanismo?

Vamos supor que o leitor tem um depósito de 100 euros que lhe proporciona um rendimento fixo ad aeternum de 5 euros ao ano, ou seja, 5% de rendibilidade. Se o leitor desejar vender este depósito a um seu amigo por 50 euros, qual a rendibilidade que o seu amigo irá obter? Será de 10%.

Se em lugar de vender por 100, tivesse vendido por 200, significava que a rendibilidade se tinha reduzido, neste caso para 2,5%. Ou seja, se existe uma pressão compradora, o preço sobe e a rendibilidade reduz-se e vice-versa.

O BCE decidiu emitir dinheiro para adquirir estas obrigações, provocando uma subida brutal do seu preço e reduzindo a taxa de juro implícita. A situação mais ilustrativa do que se passou, relaciona-se com a evolução do preço e taxa de juro implícita das obrigações emitidas pelo estado Grego, com maturidade a 10 anos, desde a crise de dívida soberana em 2012.

Tal como podemos observar na linha vermelha da Figura 2, o mercado em 2012 chegou a exigir à Grécia taxas de juro em torno a 40%! Após a intervenção do BCE, a taxa de juro aproximou-se no princípio do presente ano a 0%!

Um investidor que tivesse adquirido obrigações do estado grego em 2012 e as tivesse vendido no início do presente ano teria ganho mais de 600%!

Figura 2

Este tipo de manipulação, para além de ser crime, caso eu ou o leitor o realizássemos, é perverso; pois retira a principal função da taxa de juro.

O preço de um empréstimo indica a probabilidade de um dado credor receber de volta um empréstimo e os respectivos juros. Quando os mercados deixam de avaliar o risco, fruto da manipulação dos bancos centrais, deixam de realizar a sua principal função.

Em lugar da Grécia e outros do estados do Sul da Europa ajustarem a sua despesa à receita, incluindo superávites para diminuir a colossal dívida, fizeram precisamente o contrário, continuando a fazer subir a despesa, a dívida e a carga fiscal sobre a economia, atendendo que nenhum mecanismo os impedia de tal.

Recordo o leitor, se um de nós emitir moeda vai de imediato para a prisão, no entanto, o banco central pode impunemente reduzir o poder aquisitivo do dinheiro que temos no bolso, para adquirir obrigações de estados insolventes. Este foi o papel que o BCE tem desempenhado ao longo dos anos: permitir o desleixo e a impunidade.

Mas o impacto negativo deste tipo de políticas não fica por aqui.

A necessidade de tributar violentamente o sector privado, dada a necessidade de sustentar um regimento à mesa do orçamento, criou um ambiente hostil à actividade privada.

Elevados tributos, legislação que apenas visava criar um inferno burocrático, com o propósito de esbulhar, com multas e sanções, e incentivos a um excessivo de endividamento, dada a ilusão criada pelo “crédito grátis” a jorrar do BCE, foram uma combinação explosiva que conduziram à ruína.

Desta forma, a evolução da capitalização bolsista dos principais índices destes países é um absoluto desastre desde a adesão ao Euro.

Se analisarmos a evolução do IBEX 35 e do PSI 20, os principais índices bolsistas de Espanha e Portugal, desde 1992, mas medido em onças de ouro, uma divisa não sujeita à inflação do BCE, podemos constatar o sinistro que constitui a moeda única.

Em Janeiro de 2000, o IBEX 35 cotava nos 10.835 pontos; uma onça de ouro então valia 292 euros. Por conseguinte, o índice IBEX 35 valia 37 onças de ouro aproximadamente. Agora vale apenas 4,4 onças, atendendo que está a cotar nos 6.582 pontos e a onça de ouro 1.500 euros, uma queda de 90% aproximadamente!

A mesma conclusão seria retirada para os índices de Portugal, o PSI 20, e para o de Itália, o MIB 40. As poupanças são completamente obliteradas, agravadas por juros a 0% para os depósitos dos aforradores. Aqui está ilustrado o resultado de políticas inflacionistas!

Desde 2000, com o aprofundamento da união política e monetária, em lugar de concorrência entre os estados, o que temos é a harmonização fiscal e legislativa, proposta por uma Comissão sem qualquer escrutínio democrático.

Se um estado como a Irlanda tem uma taxa reduzida de IRC, de imediato aparecem vozes a acusá-la de “dumping” fiscal! Ou seja, para a União Europeia, todos os estados devem despojar violentamente e de forma concertada os seus cidadãos e empresas.

Por outro lado, as empresas não podem escapar ao inferno regulatório criado pela União Europeia, como, por exemplo, a lei de protecção de dados, que dificulta expressivamente o trabalho às empresas, em particular às pequenas, precisamente a maioria do tecido empresarial dos países do Sul da Europa, atendendo aos elevados recursos necessários para a cumprir.

No entanto, para a escol destes países, a beneficiar de empregos milionários em Bruxelas, sem pagar impostos como a plebe, tudo isto é fantástico! Talvez por isso desfilavam todos os dias nas televisões, lançando ignomínias ao Reino Unido pela sua saída do paraíso.

Com a crise do COVID-19, parece que estamos a entrar no último capítulo desta hecatombe. Aparentemente, a fantástica recuperação desde 2008, afinal não foi assim tão quimérica.

E porquê?

A classe política já se deu conta que o desastre é inevitável, atendendo que o Sul da Europa, em particular estes quatros países não estão preparados para enfrentar uma crise desta dimensão. Vejamos então.

Em 2008, uma queda de 2% do PIB grego resultou numa queda de 6% das receitas do Estado Grego. Caso o PIB grego apresente uma queda de 10%, a dívida pública em percentagem do PIB poderá alcançar os 220% do PIB!

A necessidade de nova dívida para tapar este monstruoso buraco orçamental poderá situar-se entre 15 e 30 mil milhões de Euros, assumindo que as despesas se mantêm em linha com a tendência de anos anteriores.

Figura 3

A Espanha representa a maior ameaça ao mercado de dívida, as suas necessidades de financiamento imediatas poder-se-ão situar entre 80 e 150 mil milhões de Euros. A dívida pública, em percentagem do PIB, poderá atingir os 120%, tal como Portugal no final de 2019.

Figura 4

No caso de Itália, assumindo que mantém a mesma resiliência da última crise, pouco provável, as suas necessidades de financiamento imediatas poderão rondar os 60 a 100 mil milhões de Euros. A sua dívida pública poderá elevar-se acima de 150% do PIB!

Figura 5

No caso de Portugal, as necessidades de financiamento de curto prazo poderão estimar-se entre 15 e 25 mil milhões de Euros. O mais sombrio de toda esta situação é a possibilidade de a dívida pública aproximar-se dos 150% do PIB, tal como a Itália!

Toda a indústria do turismo e do imobiliário está arruinada, os principais motores da recuperação económica dos últimos anos.

A principal ironia de tudo isto, foi o aumento da carga fiscal no presente orçamento da actividade de alojamento local e a eliminação dos Vistos Gold nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, numa tentativa de eliminar o que tinha tido sucesso!

Figura 6

A classe política destes países já conhece perfeitamente tudo isto, ou alguém seguramente já lhes explicou que o buraco irá rondar no imediato num valor entre 200 a 300 mil milhões de Euros, apenas para estes quatro países

Por essa razão, estão desesperados a pedir os “Corona Bonds”, porque sabem que a dívida pública elevar-se-á à estratosfera. A carga fiscal terá que obrigatoriamente ser incrementada para pagar a dívida monstruosa, arruinando por completo a economia, daí a necessidade de enviar esta conta para os países protestantes e ricos do Norte da Europa.

A Alemanha com uma dívida pública de 62% do seu PIB e a Holanda com 53%, países absolutamente preparados para esta crise, sabem que o mercado de dívida privada pode absorver as suas necessidades de financiamento, atendendo que o mercado confia que terão capacidade para reembolsar a dívida; o contrário da actual situação de países como Portugal, Espanha, Itália e Grécia.

O confronto entre estes dois blocos será crescente, ameaçando a existência da União Europeia.

Estes países irão chegar rapidamente à conclusão que a ilusão do crédito barato e fácil, permitido pelo BCE, não passou de uma ilusão, uma armadilha que irá arruinar por completo a economia.

Um sistema monetário nacionalizado e dirigido por um súper comissário soviético; um directório em Bruxelas sem controlo democrático e com poder para impor uma legislação infernal e punitiva sobre empresas e negócios; economias intervencionadas e a caminho do socialismo, chegarão finalmente ao fim. A vida terá que mudar obrigatoriamente, atendendo que a “Europa” não parece preparada para enfrentar esta calamidade.

Os que estão a viver à mesa dos orçamentos de estado irão continuar a desfilar pela imprensa e pelas televisões a propor soluções mágicas, sem qualquer adesão à brutal realidade, tais como: “ponham as rotativas do BCE a funcionar a todo o vapor”, esquecendo-se que a emissão de moeda é uma agressão à propriedade privada e nociva para os mais desfavorecidos; “emitam as Corona Bonds”, esquecendo-se que os contribuintes dos demais países também estão sobrecarregados de tributos e dívidas e, ao mesmo tempo, atirando aos seus dirigentes epítetos depreciativos.

Propõem tudo isto, porque em todas as crises nunca viram o seu emprego ameaçado e o seu rendimento sempre apareceu no final do mês; precisamente o contrário do sucedido ao sector privado, que vai para a rua, fica sem rendimento e ainda tem de sustentar o estado com toda a espécie de tributos: por respirar, por ser proprietário, por morrer, por trabalhar, por poupar, por comprar, por vender

Uma certeza podemos ter, este tipo de soluções não irão aparecer:

  • despedir funcionários públicos e reduzir o seu salário em 20 ou 30%;
  • reduzir as pensões em 20 ou 30%;
  • reduzir despesa pública em 20 ou 30%;
  • reduzir a carga fiscal para incentivar a iniciativa privada;
  • acabar com os bancos centrais e voltar a uma moeda séria e que seja eleita pelo mercado, em lugar de um monopólio estatal;
  • aceitar que as taxas de juro resultem da procura e oferta por poupança, em lugar de 10 burocratas, sem nenhuma ideia do que estão a decidir;
  • eliminar legislação inimiga dos negócios, que não ponha entraves à comercialização, à entrada, à concorrência e à contratação.

Em lugar disso, iremos ter o sector privado a arcar com todas as consequências desta loucura de dívida e despesa pública sem freio.

A realidade brutal irá acordar as pessoas para a realidade.

Ao contrário da imagem de uma fonte infindável de subsídios e peitas, vão finalmente compreender que a União Europeia foi apenas um projecto de poder, um harém de burocratas e de políticos derrotados, que nunca tiveram um emprego de verdade na vida.

O confronto entre países por recursos que não existem irá agudizar-se e irá formar-se seguramente uma fila atrás do Reino Unido.

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