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Bolsa de valores: Covid-19, o último prego no caixão?

Com a tragédia do Coronavírus, fica-nos a sensação, ou talvez seja já uma nova realidade, de que estamos a viver o segundo capítulo da crise de 2008. E porquê? Os políticos e os banqueiros centrais regressaram ao proscenio, apresentando-se, mais uma vez, como os nossos Remidores, anunciando estímulos monetários e fiscais sem fim, pasmando-nos a todos com a dimensão das suas medidas.

Bolsa de valores: Covid-19, o último prego no caixão?

No último dia 18 de Março, o BCE informou-nos que ia iniciar um programa de compra de dívida de 750 mil milhões de euros, quase 4 vezes o PIB português, denominado pelo magnificente nome “Pandemic Emergency Purchase“. Isto depois de na semana anterior ter anunciado um estímulo monetário de 120 mil milhões de Euros!

Do outro lado do Atlântico, a Reserva Federal norte-americana anunciava um estímulo monetário de 700 mil milhões de USD, um valor próximo do valor dos seus activos no final de 2007, e reduzia a sua taxa directora a 0%.

Em paralelo, determinava que os bancos comerciais norte-americanos deixavam de cumprir reservas mínimas. Podemos imaginar a segurança deste sistema financeiro!

O governo português informou que ia lançar um pacote de medidas de 9,2 mil milhões de euros, 4% do PIB português. Aqui ao lado, na nossa vizinha Espanha, o governo de Pedro Sánchez anunciou um pacote de estímulos de 200 mil milhões de Euros, um valor que representa quase 20% do PIB espanhol! Sabe Deus onde o governo espanhol desencantou tal pecúlio!

Outra vez em Portugal, um conjunto de economistas assinou um manifesto, uma carta aberta às autoridades políticas e económicas de Portugal e da União Europeia, para solicitar a emissão de obrigações europeias, ou seja, responsabilizando todos os estados da união europeia por essa dívida. Que pedem? Mais dívida!

Em todos estes extraordinários anúncios, uma pergunta fica no ar, no entanto, parece que ninguém a coloca:

De onde vem tanto dinheiro? Porque será que não apareceu mais cedo?

Parece que todos estes “economistas” e burocratas se esqueceram de um princípio fundamental da ciência económica: os recursos são escassos.

O nosso tempo é escasso. O nosso tempo dedicado ao trabalho é escasso. Os recursos existentes na natureza são escassos. Os bens de capital, como máquinas e computadores, são escassos e levam tempo a ser fabricados, obrigando a um sacrifício prévio, a que chamamos poupança.

Toda esta gente deve viver no mundo místico, atendendo que, segundo eles, não são necessários quaisquer esforços para se produzir bens e serviços. Basta anunciar e aparece de imediato um truque de prestidigitação ao virar da esquina!

Importa recordar que não existe qualquer entidade, pelo menos do mundo profano, podendo chamar-se estado ou outra coisa qualquer, que levite acima de nós e não esteja sujeita às restrições do comum dos mortais. Até ao momento ainda não foi descoberta.

No caso do estado, os seus recursos advêm essencialmente de três fontes, que muitos aparentemente se esquecem:

  • (1) da tributação do rendimento e património das pessoas e empresas;
  • (2) da emissão de dívida, que implica necessariamente uma tributação acrescida no futuro, por forma a honrar as amortizações de capital e juros;
  • (3) da emissão de moeda, talvez a mais perversa, pois diminui o poder aquisitivo da mesma, com um impacto severo nas camadas mais desfavorecidas da população.

Quando se emite moeda, nenhuma riqueza é produzida. Não aparece uma refeição adicional ou um novo carro por um acto sobrenatural, apenas a redistribuição de riqueza a favor dos primeiros a receber as “novas notas”.

Em conclusão, o estado nada produz, apenas confisca uma parte da população para dar a outra.

Até à data, julgo não existir melhor definição do mesmo que a do grande economista francês, Frédéric Bastiat: “O estado é a grande ficção, através da qual todos tentam viver às custas de todos.

Sendo assim, porque nos deixamos iludir sistematicamente pelas mesmas patranhas? A cada crise, as mesmas soluções: mais dívida, mais défices, mais impressão de dinheiro.

As mesmas soluções e o mesmo resultado: desastres financeiros de maior dimensão e o endividamento brutal da população. Senão vejamos.

Em 2000, a bolha tecnológica, em 2008, a bolha imobiliária; agora uma enorme bolha bolsista, com um problema acrescido: a dívida encontra-se na estratosfera!

A valorização da bolsa norte-americana, no início do presente ano, tinha atingido 200% do PIB deste país. Desde os mínimos de Março de 2009 até ao início do presente ano, o índice DOW tinha subido 300%, tal como podemos ver na seguinte figura.

Mais uma vez, após a crise do Lehman Brothers, o banco central norte-americano soprou uma nova bolha. Ao colocar os juros a 0%, durante quase 10 anos, e ao implementar três programas de compras de activos, eliminou a percepção de risco no mercado. Todos se podiam endividar!

As empresas aproveitaram para comprar as suas próprias acções, endividando-se para tal. Ao mesmo tempo, os gestores e os accionistas embolsavam chorudas mais-valias. Toda a orquestra tocava ao som da Reserva Federal, que fazia jorrar sobre o mercado crédito grátis sem fim!

Em paralelo, muitos estados, em particular os europeus, se endividaram. Animados por taxas de juro a 0%, ou mesmo negativas, incrementaram a sua despesa e défices públicos. No último ano, os EUA apresentaram um défice superior a 1 bilião de USD (10^12 USD). Também Portugal, Espanha, Itália e Grécia participaram na festa.

Em lugar de reduzir despesa e diminuir impostos, implementaram precisamente o contrário. Animados pela ilusão do dinheiro “grátis” do BCE, incrementaram o gasto público, carregaram o sector produtivo de impostos e elevaram a dívida pública a níveis estratosféricos.

Segundo nos contaram, no rescaldo da última crise em 2008, tudo se deveu à decadência do capitalismo e à ganância das pessoas pelo lucro; às empresas falidas e mal geridas, como foi o caso de muitos bancos comerciais e grandes empresas.

Para salvar o capitalismo da sua própria destruição, o estado e os bancos centrais necessitavam de intervir, imprimindo dinheiro, injectando dinheiro dos contribuintes nas empresas e bancos e, claro está, dar mais poder aos supervisores e a porta aberta a uma legislação punitiva das empresas e dos negócios. Era preciso mão forte no sistema capitalista.

Nesta história, todavia falta um detalhe. Nada disto é capitalismo, bem pelo contrário. Em lugar de preços determinados pelo mercado, temos um banco central a determinar um preço tão importante como a taxa de juro.

Em lugar da livre entrada no mercado, os supervisores e a pesada legislação praticamente impedem a entrada de novos concorrentes no sector financeiro ou dificultam expressivamente o trabalho das pequenas entidades.

Em lugar de moeda seleccionada pelo mercado, como o foi com os metais preciosos durante 5 mil anos, um papel com um “selo oficial” é imposto aos cidadãos pelos estados, obrigando-os a liquidar os impostos e os pagamentos nessa moeda. No fundo, um sistema monetário totalmente nacionalizado.

Em lugar do respeito pela propriedade privada, os bancos centrais e comerciais podem emitir moeda até ao infinito, fazendo diminuir o poder aquisitivo da moeda e tornando a vida dos mais fracos um inferno: casas, refeições, comida, vestuário, tudo sobe em flecha, apesar do índice de preços confeccionado pelos estados assim não o indicar. Se algum de nós imprimir moeda, vai preso!

Em lugar de falências, penalizando os incompetentes e incapazes de servir os consumidores com ganhos, algo inerente a um livre mercado, subsidiam-se e ajudam-se negócios falidos. Agora já se fala em ajudar companhias aéreas, casinos, restaurantes…um sem fim de negócios já se colocam na linha para receber uma ajuda que necessariamente será confiscada à outra parte da população. Ninguém se lembra que o estado nada produz.

A prova de que este sistema, baseado no intervencionismo e inflação, através da emissão de moeda por contrapartida de dívida, aproxima-se do abismo, basta realizar um simples exercício.

Na anterior figura, o DOW subiu, entre 1970 e 2020, de 500 pontos a 29 mil pontos, no entanto, se em lugar de utilizarmos a moeda do estado norte-americano, o USD, utilizarmos onças de ouro, a realidade é bem diferente.

O DOW chegou a valer no início do ano 2000, no final da primeira bolha gerada pelo banco central norte-americano, um valor superior a 40 onças de ouro. Desde então, estamos num mercado de tendência descendente, apesar da bandeira que entretanto ocorreu a partir de 2011.

Com a crise do Coronovírus, o Dow rompeu, no sentido descendente, essa bandeira e agora encaminha-se para as 7,5 onças. O mercado descendente continua e parece imparável: este é o resultado de políticas inflacionistas, de dívida e défices crescentes.

A crise do COVID-19 veio pôr a nu a fragilidade do sistema. As pessoas e as empresas não possuem um pé-de-meia, estão “encharcadas” em crédito, qualquer contratempo gera o absoluto pânico.

Mais uma vez, os mesmos que nos conduziram a outra crise, estão aí, à espreita, para nos tirar mais poder, mais liberdades, para nos vender as mesmas receitas, mas com maiores doses: mais dívida, mais défices, mais impostos e, claro está, mais rotativas a trabalhar para imprimir dinheiro.

Será que iremos comer esta patranha, uma vez mais?

 

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