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A Ocultada Crise de 1921

  • A Ocultada Crise de 1921

No nosso imaginário, a única grande depressão que nos ficou na memória foi a crise económica que se iniciou com o “crash” bolsista ocorrido em Outubro de 1929.

Na verdade, não é estranho que tal aconteça, pois esta foi a crise que veio justificar a necessidade de intervenção governamental em todos os aspectos da nossa vida; segundo os estudiosos desse período, essa crise “provou” que necessitamos inevitavelmente do “papá” estado para nos salvar!

A imagem icónica do presidente Franklin D. Roosevelt a retirar os EUA da crise através do seu programa de obras públicas, denominado o “New Deal”, ficará para sempre na nossa memória.

Ora, anos antes, tinha ocorrido uma crise económica tão ou mais severa que a crise de 1929, no entanto, parece que a maioria das pessoas continua a ignorar tal facto; foi o que não fez o jornalista norte-americano dos mercados financeiros, James Grant, no seu livro: “The forgotten Depression”.

O livro é extenso e muito bem documentado. Mas começa por fazer um enquadramento da economia norte-americana anterior à crise de 1921.

Em 1920, a população norte-americana era de 106,5 milhões, hoje são 333 milhões; o PIB per capita era de 859 USD, hoje é 65 298 USD.

Uma nota curiosa, em 1920, a moeda nos EUA era o ouro e o USD era apenas uma medida de peso; em 1920, uma onça de ouro correspondia a 20,67 USD; desta forma, podemos afirmar que o rendimento per capita era de 41,5 onças de ouro.

Hoje, essas 41,5 onças de ouro seriam o equivalente a 75 649 USD (hoje, uma onça de ouro corresponde a 1820 USD aproximadamente).

Ou seja, a população tinha um PIB per capita mais elevado do que hoje, o que demonstra à saciedade que o actual sistema monetário não gera verdadeiro crescimento económico; é apenas uma máquina de gerar inflação que cria uma ilusão de crescimento e crédito fácil!

No final de 1920, o PIB norte-americano era de 91,5 mil milhões de USD, hoje, corresponde a 21 biliões de USD. A Reserva Federal (FED), o banco central norte-americano, criado em 1913, detinha então 6,3 mil milhões de USD em activos, o correspondente a cerca de 7% do PIB norte-americano, sendo a sua maior parte constituído por reservas de ouro.

Hoje, o balanço da FED é de 7,9 biliões de USD, que corresponde a 37% do PIB e constituído maioritariamente por “papel” – obrigações do tesouro norte-americano.

Como se iniciou a crise?

Foi precedida por um enorme processo inflacionário, resultante do esforço de guerra. Os governos sempre recorrem à inflação para pagar as contas. Assim, em 1916 o índice de preços subiu 11%, em 1917 subiu 7%, em 1918, o último ano da I guerra mundial, subiu 18,6% e em 1919 subiu 13,8%.

Esta subida brutal dos preços também iludiu muitas empresas norte-americanas a contratarem de forma expressiva; a GM que tinha 49 mil colaboradores em 1918, em 1919 tinha 86 mil colaboradores.

Mas eis que chegou a crise: o PIB caiu nominalmente 24% em 1921, a deflação foi de 9%, uma queda em termos reais de 16,4%; nem a crise Covid-19 trouxe algo que representasse uma queda desta dimensão. A produção industrial caiu 31,6%, o preço das terras agrícolas caiu 41,3% e a produção de carros caiu 23%!

Os lucros das empresas acima de 100 mil USD diminuíram 45%. Os salários também não estiveram imunes à tempestade, a indústria aplicou em média um corte salarial de 22%!

Vários grandes bancos viram-se em apuros, como destaque para o City Bank que era proprietário de imensas explorações de cana-de-açúcar em Cuba. O preço do açúcar despencou em 1921, tal como aconteceu a imensas matérias-primas e, no final desse ano, a exposição do City Bank a este negócio era de 79 milhões de USD, representando 80% do seu capital!

O índice Dow sofreu uma correcção de 46%, desde um máximo de 119,62 pontos em Novembro de 1919 para um mínimo de 63,9 pontos em Agosto de 1921.

Mas como foi a gestão desta crise?

À frente da Reserva Federal de Nova Iorque, a delegação mais importante do então recente banco central, encontrava-se Benjamim Strong. Um homem sem curso superior, apenas com o secundário, mas habituado a trabalhar no sector privado desde o início da sua vida laboral. Tinha fé no efeito corrector dos mercados, salários e preços tinham de corrigir.

Em Janeiro de 1921, a taxa directora do banco central norte-americano, a FED, era de 4,75%; foi alterada para 6%, uma subida de 1,25%. Em Junho de 1921 subia novamente, desta vez para 7%, uma nova subida, mas agora de apenas 1%.

Ao contrário que propagam, aqui não houve necessidade de estímulos monetários ou de estímulos ao crédito, foi sem contemplações!

Hoje, taxas de juro de 7% fariam colapsar por completo a economia mundial, como um baralho de cartas, nenhum governo ou negócio continuaria de portas abertas dada a colossal dívida de que todos sofrem.

Quem lidou com a crise do lado do governo?

A administração norte-americana tinha como Presidente da República Warren G. Harding; o seu vice-presidente era Calvin Coolidge. Esta administração esteve no poder entre 4 de Março de 1921 e 2 de Agosto de 1923.

Como secretário do tesouro, correspondente ao nosso ministro das finanças, estava um homem chamado Andrew Mellon, uma das maiores fortunas dos EUA naquele tempo. O seu pai tinha fundado o Mellon National Bank, ele próprio tinha sido um grande banqueiro e advogado.

Como banqueiro tinha ajudado a financiar empresas como a Alcoa, a New York Shipbuilding Corporation, a Old Overholt whiskey, a Standard Steel Car Company, a Westinghouse Electric Corporation, a Koppers, a the Pittsburgh Coal Company, a the Carborundum Company, a Union Steel Company, a the McClintic-Marshall Construction Company e a Gulf Oil.

Que opinavam estes homens?

A depressão não era um problema do governo!

O presidente Harding nunca usou a palavra depressão ou recessão em qualquer dos seus discursos. Mas tinha claro que “os preços devem reflectir a diminuição da febre das actividades de guerra”; o próprio Mellon tinha claro que aquela recessão tinha sido a mais severa que alguma vez o país tinha enfrentado.

Que fez a administração Harding? Reduziu a despesa pública de 5,1 mil milhões de USD no ano fiscal de Junho de 1919 a Junho de 1920 para 3,3 mil milhões de USD no ano fiscal de Junho de 1920 a Junho de 1921, representando uma queda de 35%!

Se hoje um governante operasse tal corte na despesa pública seria despedido no dia seguinte. O excedente orçamental explodiu para 509 milhões.

A administração Harding também se opôs ao pagamento de subsídios ou prémios aos soldados que tinham regressado da grande guerra, em nenhum momento vacilaram em relação ao rumo que pretendiam.

E decidiram reduzir impostos! No momento em que administração Harding subiu ao poder, apenas 18% dos trabalhadores norte-americanos pagavam IRS. O imposto directo tinha sido levantado a título excepcional antes da grande guerra – foi tão excepcional que ainda o temos! O método de cálculo era o seguinte: até 4000 USD anuais, aplicava-se uma taxa de 4%; a todos os rendimentos acima de 4000 USD anuais, aplicava-se uma taxa de 8% (uma taxa marginal).

Depois ainda existia uma sobretaxa, que começava a aplicar-se a partir de 5 mil USD, neste caso 1%, a rendimentos de 1 milhão de USD ou superiores (hoje seria um multimilionário), onde se aplicava uma sobretaxa de 65%. A administração Harding reduziu esta sobretaxa para 50%.

A crise terminou no Verão de 1921. Em apenas 14 meses a recessão tinha terminado!

Estavam abertas as portas dos loucos anos 20, uma expansão económica sem paralelo até ao final de 1929. Hoje, compreende-se que académicos e economistas associados ao governo tentem ocultar o que se passou. Bastou deixar aos mercados que operassem a necessária correcção, queda de salários e preços, e uma recessão que tinha indicadores piores que 1929 terminou em apenas 14 meses, iniciando-se uma grande expansão económica.

Hoje, vemos um desfile de burocratas da União Europeia a prometer despesa pública como se ela fosse salvífica, tal como se saca um coelho da cartola, dizendo-nos que mais estado, governo e planos são a solução de todos os males. Apenas podemos imaginar como isto irá terminar!

As lições da crise de 1921 nunca serão utilizadas por esta gente!

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