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A China tem uma estratégia para o dólar

Imagino que dizer-se que ”tem uma paciência de chinês” esteja fundamentado no facto deste povo ter uma noção do tempo muito diferente do Ocidente.

O problema do endividamento dos Estados Unidos e da crise mundial que aí foi desencadeada é certamente matéria da maior preocupação para a China, apesar de não parecer, pela simples razão de que estes são os maiores credores dos Estados Unidos e ao mesmo tempo os maiores detentores no mundo de investimentos em dólares.

Quando se deve pouco dinheiro a um banco temos um problema se não tivermos dinheiro para pagar, mas se se deve muito dinheiro ao mesmo banco, é este que passa a ter um problema se não pagarmos.

A situação chinesa e americana é um pouco similar, mas como todos estaremos implicados diremos para já que ambos têm um problema que está interligado.

A China como investidor num produto específico que são as obrigações de Estado dos Estados Unidos está a perder dinheiro. Vejamos: a China está a ganhar entre 1 a 2 % nas suas aplicações em divida americana. Ao longo dos últimos dois anos perdeu cerca de 10% com a desvalorização da moeda americana, e tem uma inflação interna de 6%, o que lhe dá uma rentabilidade negativa em yuans, a sua moeda-base, de -15%, ou seja, uma perda anual de 140 mil milhões de dólares o equivalente a 1,5% do seu PIB.

Visto assim este é um investimento ruinoso para a China, que poucos particulares ou empresas estariam na disposição de manter durante muito tempo. A China não é diferente e com paciência de chinês está a tomar medidas para sair deste investimento.

 Desde o ano passado que a China tem tomado decisões importantes que de tão subtis podem ter passado eventualmente desapercebidas, mas pelos potenciais impactos justifica-se que estejamos alerta.

A primeira medida que tomaram no último ano foi a de fazerem acordos de swap sobre moedas com vários parceiros comerciais asiáticos nos quais se incluem a Coreia a Malásia e a Indonésia. Estes swaps resumem-se a contas correntes na divisa do parceiro comercial, mas evitando a introdução de uma terceira moeda no negócio, normalmente o dólar.

Depois, fizeram o mesmo tipo de acordo com o Brasil e a Argentina, negociando directamente entre eles sem necessidade de fazer nenhum swap intermédio por dólares.

 Com a percepção Oriental do tempo e a paciência que caracteriza a China, esta tomou a decisão de fazer investimentos em matérias-primas e energias fósseis para garantir o seu consumo futuro, negociando linhas de crédito em dólares com países emergentes que não poderiam ter acesso a essas divisas. Desta forma a China investe garantindo o seu futuro energético e ao mesmo tempo desenvencilha-se de uma moeda que não pretende ter na proporção que tem.

 Pelo facto de ser o maior detentor de dólares, controla 930 mil milhões de divida americana, muitos acreditam – e os americanos certamente em primeira mão –, que não é do interesse da China criar problemas ao dólar, que seria cometer suicídio

 A segunda medida tem a ver exactamente com este ponto. A China está a alienar dólares fazendo empréstimos nesta moeda nas maturidades mais longas e ao mesmo tempo vai trocando a divida de longo prazo que não pode servir de garantia nestes empréstimos por divida de curto prazo. Entre 2008 e 2009 a China foi compradora de 171 mil milhões de dólares em divida de curto prazo até 1 ano e 22,9 mil milhões de divida de 2 anos e de maturidades até 5 anos enquanto vendia 23.5 mil milhões de divida de longo prazo.

 A terceira medida foi o anúncio de deixar valorizar o yuan contra o dólar, que criou pontualmente muito entusiasmo nos mercados sem se perceber muito bem porquê, porque uma valorização do yuan será boa eventualmente para tudo mas certamente que não para a moeda americana nem para a divida publica americana. As parangonas diziam ”China decide deixar de manipular a sua moeda e deixa o Yuan flutuar”, mas na realidade o que o comunicado oficial dizia é que o Banco Central Chinês tinha decidido continuar com as reformas para a conversão do yuan, e deixava bem claro que as bandas de flutuação mantinham-se as mesmas. Na prática, em ”chinês”, isto quer dizer que as reformas prosseguem e eventualmente darão maior flexibilidade ao yuan, mas à velocidade com que a China implementa as suas reformas profundas, ou seja, muito devagar.

A China tem um extraordinário mercado de exportação para proteger, agora que se apresta a ser dentro de muitos poucos meses o maior produtor industrial do mundo, mas ao mesmo tempo está a mudar o seu modelo de crescimento, o de um país baseado nas exportações para um modelo baseado no consumo interno, algo que levará ainda alguns anos, mas que está já no seu inicio como se pode verificar com as inúmeras greves e disputas recentes relacionadas com trabalho que mostram bem que a China não pretende mais ser o país com a mão-de-obra mais barata.

Vistas as mudanças vejamos as potenciais consequências.

A primeira e mais evidente é que a China não está muito preocupada com aquilo que possa acontecer à moeda americana e está a preparar-se para não ser muito afectada quando a desvalorização do dólar se acentuar, algo que já perceberam ser uma inevitabilidade.

A segunda tem a ver com a transição que a China está a encetar para uma economia de consumo. Desde 2008 o montante emprestado pela banca chinesa multiplicou-se por quatro. Sabemos por experiência que quando os bancos têm este tipo de crescimento, coisas não muito boas acabam por acontecer à economia, mais tarde ou mais cedo. Esta é a situação típica que ocorreu em 1929 nos Estados Unidos e em 1989 no Japão. Quando o crédito aumenta a esta rapidez a qualidade do crédito baixa na mesma proporção.

A terceira consequência deriva da atitude da China face à divida americana. As dívidas públicas no mundo estão numa situação nunca antes vista em período de paz. Todos os países deverão tentar voltar a níveis de endividamento considerados razoáveis porque não existem tomadores para essas dívidas.

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