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Um cancro está generalizado

Ficou famosa a frase proferida por Michael Douglas no primeiro filme Wall Street, ‘’Greed is good’’ complementada no segundo filme por ‘’greed is not only good it is now legal’’.

Estas frases definem duas histórias e definem uma época, mas poderemos nós associar fraude e ganância? Será que dessa forma, utilizando a fraude, poderemos medir a ganância que se não vê? Associando a ganância à fraude não poderemos definir se houve mais ganância no ano de 1987 que no de 2007? E se em 2008 houve menos que em 2000?

Fraude e ganância são, sempre que estamos em crise, um tópico recorrente.
Todas as crises económicas têm na sua génese uma crise financeira. O ano de 2008 com a crise ‘subprime’ ficou marcado pela falência do Lehman Brothers, depois adquirido pelo Barclays por 1.3 mil milhões de dólares dos quais 960 milhões correspondem à aquisição do edifício-sede. O prejuízo total desta falência, a maior da história dos Estados Unidos, foi de 652 mil milhões de dólares. Outra das implicações da crise de 2007 foi o caso Madoff com um prejuízo apurado até agora de 20 mil milhões de euros.  A fraude na Societé Générale, no montante de 5 mil milhões de euros perpetrada por Gerome Kerviel também foi resultado do mesmo.

O ano de 2011, conhecido como o ano das crises soberanas, teve o caso UBS com o ‘trader’ Kweku Adoboli responsável pela perda de  2.3 mil milhões de dólares e a falência da MF Global no montante de 41 mil milhões, dos quais 1.6 mil milhões de dólares de dinheiro das contas dos clientes. Para que se possa comparar a evolução dos números, Nick Leeson é o homem que fechou o Banco Barings em 1995 com operações de mercado que totalizaram prejuízos de 1.4 mil milhões de dólares. Na sequência do ‘crash’ de 1987, Michael Milken, responsável do departamento de ‘junk bonds’ do banco Drexel Burnham Lambert, pagou de multas e indemnizações por ‘inside trading’, fraude fiscal e manipulação de mercado de 1.1 mil milhões de dólares em 1990.
Algumas destas perdas aqui referidas são comprovadamente fraudulentas, outras são tão só o resultado de uma noção limitada do risco. Todas são resultado da ganância.

Em 1998, deu-se a falência do LTCM, o famoso ‘hedge fund’ dirigido por 2 prémios Nobel, Myron Scholes e Robert Merton. A falência do LTCM deu-se a despeito daquela que foi a maior intervenção até então organizada por um Banco Central, para que fosse evitado um maior colapso nos mercados. No final, foram apuradas perdas de 4.6 mil milhões de dólares.

A falência fraudulenta da Enron (na época a maior empresa de energia do mundo), coincidiu com a crise do Nasdaq em 2000.  O montante desta falência – 63.4 mil milhões de dólares -, levou ao desaparecimento da auditora Arthur Andersen.

O curioso, ou talvez não, é que todas estas instituições eram entidades demasiado grandes na sua actividade, com excepção da MF Global. Mesmo o pequeno banco à escala global, que era o Barings, faliu no local em que era grande demais (Singapura). Quando se é grande demais impõe-se a necessidade de manter o estatuto e as receitas ao nível esperado, o que normalmente quer dizer que os responsáveis farão o que tiver que ser feito para esticar um pouco mais a corda, tendo como limite apenas o que a sua posição dominante permitir.

Haverá sempre maneira de justificar eticamente, ou moralmente, as situações mais dúbias em função dos contactos e da posição… é o pensamento. Até ao dia.

Uma das formas de justificar eticamente ou moralmente parece ser pagando multas de que as situações mais emblemáticas são a de 550 milhões imposta pela SEC ao banco Goldman para não admitir nem negar que tinha criado um produto viciado na transacção conhecida por Abacus relacionada com ‘subprime’.
Outra é a multa do JP Morgan, que em 2009 fez também um acordo com a SEC para pagar 722 milhões, relativo a um processo de suborno para ganhar uma emissão de obrigações do Condado Jefferson no Alabama.

Mas se nos dermos ao trabalho de procurar no Google outras multas aplicadas pela SEC vamos encontrar mais 285 milhões aplicados ao Citigroup ou 145 milhões ao Deutsche Bank, ou 150 milhões ao Bank Of America. E não estamos a ser exaustivos!

Visto assim pode parecer normal que entre bancos desta dimensão se paguem multas desta grandeza, como normal pode parecer que problemas internos com ‘traders’ como os criados por Kerviel na Société Général possam custar 5 mil milhões de euros ao banco sem que com isso a instituição trema ou tão pouco deixe de ter lucros.

A conclusão a que se pode chegar é a de que da mesma forma que existe uma denominação para a moeda euro, consubstanciada em notas de 5, 10, 20, 50, 100 e 500, poderíamos criar uma denominação para a ganância, consubstanciada nos volumes das fraudes financeiras. Assim, a denominação mais baixa será o Nick Leeson que vale mil milhões de euros, depois o Kweku Adoboli 1.5 mil milhões, o Kerviel 5 mil milhões, o Madoff 20 mil milhões e o Enron 45 mil milhões.
Estes montantes facilitar-nos-iam a identificação dos problemas actuais e dariam uma dimensão mais humana a esses mesmos problemas. Por exemplo, o défice de Portugal em 2011 correspondeu a 2 Kerviel (10 mil milhões) O montante total da dívida portuguesa é de 4 Enron (180 mil milhões) e o montante transferido dos fundos de pensões da banca para o Estado calculados em 2 Nick Leeson (2 mil milhões). Nada que, visto assim, não possa ser resolvido. Afinal estas foram perdas reais e o mundo não acabou. O que não pode ser resolvido é que estes factos que se pensou durante muitos anos terem origem na ganância são na realidade um cancro com origem na manipulação do mundo financeiro.

Dizer que essa realidade está institucionalizada é corroborado pelos factos agora comprovados da manipulação da taxa Libor. Este é um mercado de 600 triliões (12 vezes a riqueza do mundo medida pelo PIB), que se sabe agora ter sido manipulado e quando um mercado desta dimensão pode ser manipulado não podem existir mercados livres.

Esta não é uma teoria da conspiração, argumento que se utilizou  em 1998 quando se falava da possibilidade do mercado do ouro estar manipulado pelas instituições financeiras. Na época, a teoria da conspiração não permitiu detectar este cancro. Criou-se inclusive uma organização para combater e litigar o controlo do preço e da oferta de ouro com o nome de GATA (Gold Anti-Trust Action Committee), mas a teoria da conspiração nunca permitiu que tivesse verdadeira credibilidade. O GATA conseguiu, no entanto, através dos tribunais, anos depois, aceder às minutas da reunião do G10 em 1997 que comprova que os ministros das Finanças destes países e os governadores dos respectivos bancos centrais discutiram coordenar as suas políticas relativamente ao mercado do ouro. Coordenação essa que levou Gordon Brown a vender 400 toneladas de ouro a 275 dólares.

A palavra coordenar é aqui uma derivação da palavra manipulação.
Porque a manipulação é também politica, como é evidente pelas notícias relacionadas agora com a Espanha. Apesar da ajuda Europeia ser exclusivamente para a banca como se diz é, no entanto, a população quem se prepara para pagar os seus custos com a austeridade imposta pelo governo Rajoy.

As manipulações são um verdadeiro cancro, que receio estar já disseminado, pelo que o paciente não pode ter cura. Os valores, a integridade, o carácter são agora questões secundárias quando comparadas com o sucesso. Quando pensamos na dimensão das empresas temos que pensar que o sucesso só por via disso é mais difícil sem estratégias de manipulação.

O mais curioso é que se chegou a esta situação de cancro generalizado exactamente quando os conselhos de administração das grandes empresas, das instituições financeiras, quando os grupos de trabalho, os decisores e a política estão dominados por advogados e outros juristas. Quando existem mais comissões de ética, mais regulamentação, mais leis para enquadrar as actividades. Quando mais se fala de transparência e de bom governo das empresas, temos a maior fraude do século com a manipulação da taxa Libor.  É absolutamente impossível criar hoje um grupo de trabalho para o que quer que seja que não tenha a coordenação de um jurista, seja para garantir que o que se faz está dentro da lei, ou pode passar entre as leis.

Nada está relacionado com a moral, a ética ou a justiça, mas tudo está dependente da lei, sobretudo o sucesso porque esse está reservado para os conseguem contornar a lei.
Contornar a lei tornou-se a mais respeitável das actividades, a mais bem paga também, porque é uma actividade só ao alcance dos gabinetes mais capazes em desfazer o emaranhado de leis.

No sector financeiro a quantidade de artigos existentes em qualquer contrato entre duas partes torna ridícula qualquer noção de justiça e, no entanto, se fosse possível fazer justiça ao peso, os quilos de regulamentação deveriam ser garantia suficiente. Não é o caso, como bem se sabe. O negócio financeiro é hoje uma actividade eminentemente jurídica e nada se faz ou se decide sem a presença e a anuência destas eminências pardas.

As taxas Libor foram manipuladas por vários bancos e o Barclays já pagou 450 milhões de multas. Outros se seguirão. O importante não é a multa que como vimos não é problema para os bancos. O problema é a evidência de que os grandes bancos estão juntos com os bancos Centrais na coordenação/manipulação do sistema financeiro global no que parece ser um crime financeiro organizado.
Este cancro está generalizado e os médicos continuam a administrar mezinhas, como estas sobre branqueamento de capitais.  O Senado Americano tem um relatório de 340 páginas que expõe branqueamento de capitais no HSBC, o maior banco Europeu, a que irá corresponder certamente uma multa importante, se considerarem como precedente que em 2010 o Banco Americano Wachovia, comprado pelo Wells Fargo, foi apanhado por ajudar os cartéis da droga Mexicanos no que parece terem sido operações de transferência com casas de câmbio Mexicanas no montante de 378.4 mil milhões (biliões americanos).  Por estes factos, ou este montante, foi aplicada uma multa de… 160 milhões.

A quantidade de dinheiro existente no sistema está a ser coordenada/ manipulada pelos bancos centrais, o preço do dinheiro foi e está a ser coordenado /manipulado pelos grandes bancos e bancos centrais. Porque as taxas de juro estão coordenadas/manipuladas, os preços dos outros activos estão também manipulados, tal como as estatísticas. O cancro está generalizado.

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