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Um Banco Central diferente

Recentemente, encontrei um artigo de 1998 em que os Estados Unidos recomendavam aos países asiáticos, que na época se encontravam em crise, três soluções para resolver a situação: deixar falir os bancos com problemas, manter o controlo sobre os gastos e subir as taxas de juro.

A verdade é que não me lembrava deste facto. Claro que as pessoas que fizeram estas afirmações não são as mesmas que agora inundam as páginas de jornais, mas é o mesmo Ocidente. Aquele que dizia antes para deixar os bancos falir na Ásia, diz agora que é fundamental salvá-los. Enquanto antes recomendavam um controlo rigoroso dos défices, agora afirmam que é preciso controlar a austeridade. E quando o Ocidente considerava que era necessário subir as taxas de juro aos países Asiáticos, agora aplica taxa zero para estimular a economia.

Devo reconhecer, por ser verdade, que tenho sofrido uma grande ansiedade nestes últimos meses relativamente aos acontecimentos políticos e económicos que se revelam um pouco por todo o mundo. Não porque a crise seja uma surpresa para mim, já que a reconheci muito antes de ser interiorizada por todos, mas o que cria esta angústia é a incapacidade de resposta dos políticos e da sociedade e a incapacidade por parte dos órgãos de comunicação social de fazerem as perguntas correctas, focando-se sistematicamente naquilo que não é essencial.

Resultado: tenho lido muito, essencialmente história, para perceber o que pode acontecer e como pode acontecer, porque, como diz Eclesiastes 1:9  “o que aconteceu antes vai acontecer outra vez, o que foi feito antes será feito outra vez. Não há nada de novo neste mundo’’.

O senhor Juncker, primeiro-ministro do Luxemburgo e presidente do Eurogrupo, disse no dia 9 de Maio de 2011 que “quando as coisas ficam sérias é preciso mentir’’. Uma afirmação que me deixa confuso, porque não sei se mentem para não parecerem estúpidos, se mentem para proteger “os estúpidos demais para entender’’, se são simplesmente estupidamente hipócritas.

Os políticos que não se aperceberam da chegada desta crise, são os mesmos que, aparentemente, dizem agora ter as soluções! Mas que soluções têm que nos possam tirar desta situação de insolvência? Quando um país está insolvente a falência é normalmente o passo seguinte. Será a isto a que se refere o sr. Juncker quando diz que é preciso mentir?

Se é isso então talvez faça sentido que se adicione dívida ao montante de dívida existente com o intuito de ganhar tempo. A pergunta agora será: tempo para quê? Talvez tempo para que os bancos se recuperem, mas se é isso, é porque acreditam que, se os bancos centrais emprestarem dinheiro suficiente por tempo indeterminado, a taxas de juro suficientemente perto de zero, as economias vão recuperar. Do meu ponto de vista, a ser verdade, nasceu uma nova fé. A fé nos banqueiros centrais, os novos Deuses, os únicos capazes de nos salvar da “tirania dos mercados” no fundo de nos salvar do capitalismo.

Eu não o vejo assim. Por uma questão de princípio, penso que uma solução para o problema que o mundo enfrenta deveria servir a todos e não só a alguns. Diga-me, por exemplo, se fosse possível garantir uma pensão correspondente ao rendimento obtido enquanto membro produtivo da sociedade, sempre actualizado até ao dia da morte, faria alguma coisa diferente? Será que este facto mudaria a sua atitude perante o dinheiro? Ficaria menos ansioso quanto à necessidade de garantir um pé-de-meia que lhe permitisse uma reforma estável? Mudaria os seus hábitos de consumo por saber que o dinheiro não lhe faltaria até ao último dia?

A situação que vivemos actualmente foi construída na base das promessas feitas pelos políticos de que a prosperidade continuaria a aumentar, que o Estado Social era uma realidade e que a segurança de todos estava garantida.
Agora, que se verifica não ser possível cumprir essas promessas infindáveis, até os políticos com ou sem mentiras vão precisar de um novo paradigma.

Imagine então que em vez do banco central actual haveria um banco central da segurança social, que compraria activos no mercado repondo a liquidez necessária no sistema para o benefício de todos.

O dinheiro é actualmente uma obsessão, por diferentes razões. Alguns estudaram-no até à exaustão como Bernanke, o actual presidente da Reserva Federal, tentando chegar a conclusões coerentes com o fenómeno monetário e os seus impactos no crédito. Bernanke sempre afirmou que em tese o importante seria garantir a liquidez no sistema e evitar a deflação na economia. A sua teoria em prática nos últimos 5 anos não parece solucionar o problema. O resultado é uma total distorção do mercado  e do risco implícito, com benefícios exclusivos para alguns, nomeadamente os bancos.

O dinheiro teve uma indiscutível evolução. O funcionamento das economias foi, no início, totalmente transformado com a criação do dinheiro. E mais tarde transformado novamente com a introdução do crédito bancário permitindo maior poder de compra. Estamos no final desta curva de Bell da evolução do dinheiro, provavelmente no que Malcolm Gladwell designa por “Tipping Point’’, porque os instrumentos de dívida expandiram-se ao ponto que os seus montantes não podem ser pagos, porque o mercado não confia mais nas dívidas nem naqueles que as constituíram, nem tão pouco naqueles que concederam os créditos. Pior ainda, esta dívida deixou também de ser produtiva. Estamos por isso no fim deste modelo, pelo que precisamos de um outro paradigma para evoluir como espécie, antes que os cidadãos percam a fé que têm nos actuais bancos centrais.

Por muito absurdo que possa parecer, bastaria a substituição dos bancos centrais por bancos Centrais da Segurança Social para que o modelo tivesse mais justiça. Isto porque a solvabilidade da Segurança Social tem indiscutivelmente primazia sobre uma solução que só beneficia os bancos, ao mesmo tempo que resolve o problema de uma outra crise eminente que é o sistema Ponzi, que representa a Segurança Social.

Um novo banco central deste tipo teria as mesmas pretensões que as soluções aplicadas actualmente e que são fazer subir os mercados, estabilizar o preço das obrigações e do imobiliário. É indiscutível que a única solução com o actual modelo é mais austeridade, como é indiscutível que mais austeridade faz encolher a economia e torna mais difícil assumir o serviço da dívida. Como os políticos e os bancos centrais impediram o funcionamento do mercado impedindo as inevitáveis falências para proteger os detentores de dívida, a correcção destes excessos de dívida que serão necessários eliminar terão que levar muitos anos.

A criação de dinheiro novo sob a forma de capital, por um banco central da Segurança Social, para benefício dos pensionistas e da Segurança Social, permitiria capitalizar as empresas e as famílias, sem criar as distorções que o aumento de dívida envolve, permitiria o retorno dos mercados livres e o fim da tirania dos Estados, pressionados que estão em redistribuir a cada vez menor riqueza.
Milhões de pessoas no mundo ocidental esperam ter uma reforma legítima, confortável e segurança médica para o resto da vida, na base das promessas que lhes foram feitas e que, infelizmente, no actual modelo não podem ser cumpridas, pelo montante do endividamento, pelo fenómeno demográfico que é a baixa natalidade e maior longevidade, e pela realidade financeira que é a ilusão do progresso no crescimento das economias, por ser geradora de desemprego.

A manter-se a situação actual a pergunta que se deve fazer é quem vai assumir os prejuízos criados pela dívida? Como e quando é que o sistema se vai purgar? Quem decide quem são os vencedores e os perdedores deste sistema? Quem terá maiores prejuízos: os investidores ou os aforradores? Porque não são os mesmos como facilmente se compreende, uns arriscam investindo, outros limitam-se a poupar.
Aldous Huxley escreveu em 1931 o livro “Brave World’’. Nele alertava para um mundo futuro em que ninguém estaria interessado em ler livros e prefeririam o trivial e a coscuvilhice sem se preocuparem com a verdade ou o conhecimento. Huxley percebeu muito bem o processo evolutivo da tecnologia em que nos tornamos cúmplices da nossa escravatura.

A grande maioria da população pretende algo dos governos. Em Portugal, mais de 65% da população beneficia directa ou indirectamente alguma coisa com o Estado. Nos Estados Unidos, já são mais de 55% aqueles que recebem alguma forma de subsídio do Estado. Não admira que os governos retribuam com leis, privilégios, protecções e penas.
Será que acreditamos mesmo na liberdade nestas circunstâncias? Não é o governo agora que nos diz o que podemos ou não podemos fazer?  Não é o governo que decide que empresas podem ser subsidiadas, que sectores podem ser protegidos, quais devem ter reguladores ou taxas adicionais?
Estes são os grandes debates dos nossos dias, mas não são certamente os debates fundamentais porque o vencedor é sempre o Estado e os seus protagonistas, os seus agentes políticos do momento, os seus consultores, os seus juristas. Estes são factos inquestionáveis na actual sociedade, mas são factos que serão certamente questionados a seu tempo, porque assim o diz a história. 03

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