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Tratar a doença ou os sintomas

Creio que é opinião unânime que a economia não é a mesma que nos habituámos a conhecer e é exactamente por isso que a crise com o sector financeiro nos Estados Unidos está a confundir-nos a todos, incluindo reguladores, académicos, governantes e os investidores.
A confusão deriva da dúvida existencialista de saber se é mais justo salvar as instituições financeiras ou deixar o sistema purgar normalmente os excessos e penalizar os menos hábeis.

A conclusão a que se está a chegar é que sendo consensual que a economia continua a não ser uma ciência exacta,ela é agora mais inexacta que nunca. Parece, porém, que há uma opinião convergente de que a responsabilidade é dos mercados de crédito.

O Governador da FED Ben Bernanke é reconhecido como sendo um estudioso da Grande Depressão de 1929. A conclusão a que chegou fá-lo adoptar nesta crise a teoria de que o importante é manter o sistema financeiro em funcionamento e evitar que o publico acorra aos bancos para levantar o seu dinheiro. Essa prática indica-nos que dará aos bancos todo o dinheiro necessário para que estes possam continuar a conceder crédito.

O capitalismo não é um sistema económico que garanta que as pessoas se tornam ricas. É tão somente um contexto em que as pessoas só se podem tornar ricas se fizerem as coisas certas, e em que as capacidades são premiadas e os erros punidos. Em termos económicos a sociedade hoje não é de esquerda ou de direita, é tão só uma sociedade que consome mais do que deveria, em função do seu rendimento e que continua a ser incentivada a fazê-lo.

O crédito é visto como um elixir milagroso capaz de resolver os problemas das economias porque alimenta o consumo, sem o qual não existe crescimento. O sistema financeiro vai emitindo mais moeda para poder abastecer e manter este motor em funcionamento, sendo que, em sentido figurado, os bancos centrais são como os comandantes dos navios.

Esta crise veio demonstrar ainda mais claramente que o necessário é fazer de conta que existe dinheiro e o importante é que os bancos continuem a cumprir com a sua função de olear a economia com crédito. O Governo Americano também percebeu isso e tomou a extraordinária decisão de enviar cheques a cada contribuinte como forma de lhes atenuar os problemas criados com a crise.
A ideia é brilhante mas poderia ser melhorada. O que as populações querem é maior poder de compra , nisso estamos todos de acordo, e distribuirem meios para alimentar esse poder de compra é realmente uma ideia genial. A questão que todos já se estão a colocar é saber onde ir buscar esse dinheiro? A FED já aceitou como colateral 360 biliões de derivados sem valor, aos bancos americanos em dificuldades e estará na disposição de aceitar muito mais para garantir o funcionamento do sistema financeiro, apesar de não ter garantias de que a solução funciona. As dúvidas de quem investe são as mesmas, mas os resultados nos investimentos são mais imediatos, sobretudo quando estes não correspondem às expectativas do raciocinio.
Em 2006 estavam os titulos a fazer máximos e eu estava pessimista em relação ao mercado. A razão prendia-se com a inversão da curva das obrigações ou inverted yield curve como é conhecida. Historicamente este facto, representado pelas taxas de juros de curto prazo acima das taxas de longo prazo, é percursor de uma recessão económica. Mais uma vez foi o que aconteceu, se ainda não estamos oficialmente em recessão penso que o estaremos em breve, mas em qualquer circunstancia os acontecimentos já justificam a atenção que se deve dar a este indicador.
Se bem se recordam, ninguem na altura estava preocupado com o facto, e a verdade é que essa minha preocupação também não me beneficiou em termos de negociação porque o sentimento e a observação antecipados em 1 ano estiveram desenquadrados no tempo.

Acontece que desde meados deste mês mais oito paises industrializados estão na mesma situação o que sugere que o problema americano que muitos afirmam estar ultrapassado está, para já, a afectar os outros paises industrializados. Na Europa as taxas acabarão por cair (mesmo que temporariamente), apesar da posição firme assumida até agora pelo Banco Central Europeu. Isto porque a inversão da curva das obrigações a isso vai obrigar.

Como se sabe os maiores bancos mundiais continuam a apresentar enormes perdas, que neste momento ascendem a 300 biliões montante que está ainda longe de estar totalmente contabilizado. Os bancos não podem assumir a totalidade das suas perdas de uma vez só, pelo que terão que o fazer a conta gotas. O curioso no meio desta crise é que tirando o caso Bear Sterns só 5 bancos pequenos faliram nos últimos 12 meses nos Estados Unidos algo de notável quando comparado com a crise americana dos Savings&Loans entre 1990 e 1992 em que 800 bancos desapareceram. Há que reconhecer que esta situação só é possivel graças à politica monetária imposta por Bernanke, o que não se sabe ainda é se estão a tratar a doença ou só os sintomas da doença.

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