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ONDE FALAMOS DE BOLSA
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Tempo e os 60 anos de Alex

Foi uma tarde diferente a que passei este sabado na messe dos oficiais da marinha em Cascais, uma tarde que me permitiu ver o passado e o presente num almoço cheio de sexagenários e septuagenários, para celebrar a chegada ao clube dos 60 do Alexandre Serra Brandão.

O Alexandre e eu conhecemo-nos faz 35 anos, ele como meu senhorio eu a lançar uma editora para publicar a primeira revista de Software em Portugal. Se fosse hoje seria considerada uma ‘’startup’’, uma acção corajosa de empreendedorismo, naquela altura era simplesmente considerado um tonto a lançar uma tontaria.

Na época não havia business angels, nem novas economias, nem internet, nem negócios que sobrevivessem se não fizessem dinheiro. Os modelos de avaliação naquele tempo eram simples: ‘’não há dinheiro não há palhaços.’’

Começou aí uma relação de grande amizade, baseado numa grande admiração mútua, o Alexandre não me achava tonto, que tinha regularmente o seu momento mais tenso no ultimo dia do mês quando tinha que pagar a renda.

Nos últimos 15 anos a assiduidade na convivência não foi tão frequente, muito por culpa da DIF Broker, que simplesmente monopolizou a minha vida. Quando nos viamos, as conversas surgiam animadas, com histórias sobre acontecimentos do ano anterior, mas sempre sem nenhuma relação com trabalho, exceptuando uma vez, em 2012, quando me telefonou emocionado por saber que a DIF tínha sido eleita a melhor corretora da Europa Ocidental. ‘’A primeira Corretora Portuguesa a ter essa distinção’’ dizia ele orgulhoso e patriota.

Voltemos ao aniversário do Alexandre. ”Então em que é que trabalha?” Assim começou a conversa, no cocktail antes do almoço.

‘’Na Bolsa? Mas ainda há gente a investir? Aquilo não é tudo uma vigarice?’’. A conversa surgia animada.

Era uma reunião diferente. Veio gente de toda a parte para estar com o Alexandre. Para mim representavam outras vidas, outras realidades. Profissionalmente eram gestores, médicos, economistas, pelo menos um politico, professores universitários, editores, burocratas e reformados.

De repente senti-me ansioso, por falta de tempo e pensei que teria gostado de passar mais tempo, com os meus pais quando ainda estavam vivos, mais tempo com o meu filho enquanto ele era pequeno, mas agarrei-me à ideia de que nunca tive tempo.

Tempo é o ativo mais precioso do ser humano porque o tempo não pode ser enganado. Tempo é também o responsável de todas as desculpas: Devia ter ganho hábitos de leitura mais cedo, devia ter passado mais tempo com o Alexandre, podia ter sido menos dedicado ao trabalho. De cada vez o tempo adiantou-se.

No almoço para celebrar os 60 anos do Alexandre, não sei se conscientes ou não, todos estavam a ficar sem tempo e pelo menos alguns estavam arrependidos.

Ali na solidão das muitas conversas estranhas, a noção que deixámos escapar muita coisa da vida, coisas também importantes, mas que escaparam simplesmente porque não estivemos mais vezes presentes. Ausentes relativamente ao meu filho por exemplo, ao meu irmão, às minhas sobrinhas, e a tantas outras vidas que poderiam ter sido vividas. Nesse momento realizei que há mais vida para além da nossa vida vivida, há todas as outras que podíamos ter vivido fazendo com que tudo seja muito relativo. As crianças crescem os adultos envelhecem, a vida acontece a toda a gente.

Como é possível? Pergunto-me. Porque só agora percebo esta realidade? Sei o que ganho ao levar a vida que levo, mas não sei o que perco, não tomando outras opções. No fundo sei o que aconteceu mas não o que poderia acontecer. Quero pensar que não sou diferente dos outros.

Gostava de ter podido utilizar melhor o meu tempo como gostava de ter comprado o Nasdaq em 2009, teria triplicado o dinheiro. O que prova que tempo também é dinheiro. Mas tempo é sobretudo ….sofrimento. Imagino que deve ser isto o mistério da vida, escondido nas opções que se tomam.