Voltar ao Blog
Swaps, Chipre e Liberdade

A moderna finança tem uma panóplia importante de produtos e instrumentos, mais ou menos complexos, que regularmente são atacados por políticos e reguladores, normalmente com mais regulação. O problema da finança moderna, infelizmente, não está nos produtos complexos, antes na assunção de que o risco pode ser totalmente eliminado bastando para isso criar protecções. Este conceito, de que a diferença entre o investimento inicial menos o custo da protecção criada é lucro, está na base de uma moderna finança em que se assume que o sistema não tem risco.
Ora, tendo por base este conceito, é fácil perceber, as inúmeras vantagens que o sistema criado pela finança moderna tem sobre o capitalismo tradicional, em que o retorno é proporcional ao risco assumido.
Partindo deste conceito (errado) de que os retornos podem ser obtidos sem risco não existe qualquer problema em assumir grandes exposições, especialmente se forem alavancadas, porque… não se pode perder.

Os swaps fazem parte deste conjunto de instrumentos da moderna finança que permite ‘’correr risco zero’’ fazendo protecções, desde que cada uma das empresas tenha um departamento de risco que continuamente monitorize esse risco e o possa regularmente transferir – algo que os bancos certamente se esqueceram de informar -, os seus clientes.

Claro que a moderna finança sem risco é uma ilusão, mas os detalhes (e o diabo está nos detalhes), só agora começam  a ser visíveis. Porquê? Porque cada protecção no mercado financeiro tem uma contraparte que é suposta pagar a perda que a outra não está a ganhar. Este sistema, que está baseado em protecções, não está organizado, vive sem regras, ou melhor com acordos particulares, que fazem com que as dúvidas ou litígios sejam decididas em tribunais arbitrais e não, por exemplo, numa câmara de compensação como funcionam os mercados de futuros, que também são derivados mas que vivem em mercado organizado.
Este sistema de produtos complexos não regulamentados foi maximizado (entre 600 a 700 triliões de dólares segundo o BIS), e alavancado até ao limite, sempre protegendo a protecção da protecção, e criando uma cadeia imensa de contrapartes.
Como as entidades que originam as protecções também estão alavancadas, sempre com a desculpa que o risco pode ser eliminado, o capital requerido é sempre muito pouco, os prejuízos é que podem ser muito grandes como se viu nas operações de swap recentemente divulgadas, e como se viu em 2008 na AIG que precisou de 182 biliões dos contribuintes americanos.

A pergunta que se segue é o que acontece quando uma das contrapartes inserida nesta cadeia entra em colapso? Claro que depende da contraparte em questão e dos montantes envolvidos, mas se em média 4 a 5 instituições financeiras por país representam habitualmente 60 a 80% do seu mercado interno, já teremos identificado melhor onde estão os riscos. De novo o recordar a AIG é importante porque a eventualidade de não pagar os 182 biliões de protecções dadas com swaps significaria a falência de quase todo o sistema financeiro.

Infelizmente, como muito bem se sabe agora, o risco não se pode eliminar, só pode ser transferido, e é por essa razão que o modelo seguido no Chipre de confiscar depósitos é agora aprovado para ser aplicado na restante Europa se necessário.

Todo o sistema financeiro da zona Euro beneficia agora de regras especiais. Pode cobrar o que entender por todo o tipo de serviços reais ou fictícios pode ser resgatado por dinheiros públicos e em última análise ficar com os depósitos dos clientes.
Num tradicional modelo capitalista, os insolventes perderiam o seu capital e novos participantes ocupariam o espaço deixado vago.
No actual sistema de protecções mal protegidas e pouco capital, o tempo encarregar-se-á de mostrar que a moderna finança é tão só um sistema de cadeiras musicais em que as cadeiras são todas as entidades com protecções, o risco é a melodia em movimento e quando a música pára temos oportunidade de eliminar quem não está ‘’bem’’ protegido.

Até agora quem não está bem protegido são as pequenas instituições porque as grandes beneficiam de uma nova versão desta história conhecida:
– Se o banco deve 500 milhões e não pode pagar tem um problema, mas se deve 1000 milhões ou mais quem tem um problema é o contribuinte.
A realidade é que este modelo actual baseado em dívida e crédito está neste momento saturado de dívida, porque os pagamentos da dívida são superiores à capacidade de gerar poupança e cash flow para se sustentar.
De acordo com o Banco ING, existem actualmente no mundo 223,3 triliões dólares de dívida para um PIB mundial de 71,5 triliões. Este montante de riqueza criada é insuficiente para suportar a dívida existente.

Talvez pelas razões anteriores, os ‘’opinion makers’’ passaram a venerar os bancos Centrais, e os seus governadores tornaram-se os novos deuses porque são vistos como os donos do dinheiro. Esta situação induz, na minha opinião, um problema tão grande quanto o anterior, que é a constante intervenção governamental a pretexto de melhor controlar a situação.
Estas intervenções são responsáveis pela nossa gradual perda de liberdades individuais.
A lei tornou-se num instrumento do Estado contra as liberdades individuais. Quando Patrick Henry disse em 1775 ‘’dêem-me liberdade ou dêem-me a morte’’ não tinha consciência que vivia em total liberdade comparado aos dias de hoje, em que cada movimento é seguido, em que a correspondência e comunicações são espiadas e uma parte importante dos ganhos quer estes sejam de capital ou de trabalho são para o Estado. Patrick Henry, agora, nem poderia fumar onde e quando quisesse só para dar um exemplo ligado à sua época. Claro que também teria agora que se cruzar com funcionários do Estado para quase tudo o que pretendesse fazer.
A liberdade do século XXI tem poder suficiente para intimidar qualquer um, nas regras que são alteradas à medida que as coisas vão acontecendo, com leis que servem mais uns que outros, na destruição do mercado de capitais ao destruir o conceito de risco, no endividamento que demos às futuras gerações, que irão viver escravas de uma dívida que não pediram.

Os políticos actuais garantem que vivemos em liberdade, mas a liberdade que apregoam cinge-se a vivermos cada vez mais limitados nas nossas ideias e nos nossos princípios, a seguirmos os mesmos ‘’decrépitos’’ valores, as mesmas modas, a uniformizar em vez de individualizar, a promover o seguidismo em vez do individualismo. Esta é a liberdade a que estamos reduzidos.
A percepção que penso, as pessoas têm da democracia, é que os governos são eleitos para nos manterem as liberdades, quando na realidade o que fazem é destrui-las.

Não existe finança moderna, da mesma forma que não existe recuperação da economia e a continuar assim ficaremos sem liberdade.

AVISO LEGAL: A informação aqui apresentada é apenas para fins informativos e não constitui uma recomendação de investimento, convite ou oferta para realizar qualquer operação ou transacção. Esta informação não é um reflexo de posições (própria ou de terceiros) firme dos participantes nos mercados de valores. A DIF Broker não tem em conta objetivos de investimento específicos ou situações financeiras particulares. Também não faz qualquer declaração ou assume qualquer responsabilidade sobre a confiabilidade das informações fornecidas ou perda decorrente de investimentos realizados. Este conteúdo é puramente informativo, portanto, não deve ser utilizado para valorizar carteiras ou ativos, nem servir de base para recomendações de investimento. Para os fins informativos deste blog, as decisões de investimento tomadas com base neste conteúdo são da exclusiva responsabilidade do investidor. As operações feitas em seu nome seguindo as recomendações de uma análise, em investimentos particulares e sem limitação, e alavancados, como o comércio de câmbio e investimento em derivados pode ser muito especulativo e, portanto, gerar lucros, mas também perdas. Antes de fazer um investimento ou efectuar uma transacção, deve considerar a sua situação financeira e consultar o seu / s conselheiro / s financeiros / s, a fim de compreender os riscos e considerar se é apropriado à luz da sua situação. Todas as opiniões expressas estão sujeitas a alterações sem aviso prévio. O conteúdo pode mostrar a opinião pessoal do autor que pode não reflectir a opinião da DIF Broker.
Os CFD são instrumentos complexos e apresentam um elevado risco de perda rápida dinheiro devido ao efeito de alavancagem.
86% das contas de investidores não profissionais perdem dinheiro quando negoceiam CFD com este distribuidor.
Deve considerar se compreende como funcionam os CFD e se pode correr o elevado risco de perda do seu dinheiro.