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ONDE FALAMOS DE BOLSA
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Subprime, risco e crise

A imprensa tem tendência a ampliar os acontecimentos sem muitas vezes explicar cabalmente esses mesmos acontecimentos que a queda recente das bolsas tem origem nos subprime, já todos sabem. O que talvez nem todos saibam é como é que uma crise no mercado imobiliário nos Estados Unidos pode originar uma crise no crédito hipotecário e simultaneamente despoletar uma crise no mercado de derivados de proporções ainda desconhecidas.

Qual foi então o problema que os emitentes de subprimes criaram? Emprestaram dinheiro a pessoas que não podiam pagar. Simples. Até aqui nada de especial, acontece em todo o lado. Então porque é que este problema não ficou limitado aos bancos e aos proprietarios não cumpridores desses empréstimos? Porque, só em 2004, os proprietarios de casas nos Estados Unidos levantaram mais 600 mil milhões, aumentando os empréstimos garantidos pelas suas casas.

Normalmente, quando uma familia obtem mais dinheiro, isso tem origem num aumento dos seus rendimentos, fruto do seu trabalho ou do seu negócio. Neste caso isso não aconteceu. A origem era a valorização do seu património imobiliário. Os resultados das empresas ligadas ao sector também cresceu, enquanto as pessoas vendiam as suas casas umas às outras, sempre a preços mais altos, incentivadas pelos baixos juros, o mercado ajudava, ao melhorar as avaliações às propriedades e ao mesmo tempo, não questionando a capacidade de liquidação desses mesmos empréstimos.

Todos estes empréstimos eram rapidamente transformados em produtos financeiros e vendidos a investidores. Estes ”subprimes” foram divididos em vários grupos, os CDOs. Collateralised Debt Obligations e CLO Collateralized Loan Obligations, com diferentes niveis de risco para que os investidores tivessem uma panóplia de alta remuneração, mas alto risco, para escolherem como aplicações.

Estes produtos financeiros são os agora muito conhecidos produtos estruturados ou produtos derivados com base em créditos. Estes produtos, que representavam cerca de mil milhões há cerca de 5 anos, representam agora 34 mil milhões ou seja, de um mercado relativamente pequeno passou-se a um mercado equivalente a 3 vezes o PIB americano.

Estes produtos não são negociados em mercado organizado. Criados por matemáticos e outros génios, têm como valor o resultado das suas fórmulas e não o preço de mercado. Claro que para se chegar a este nivel de sofisticação era preciso um chapeu de credibilidade que foi obtido junto das agências de rating internacionais as quais passaram uma espécie de certificado de garantia ao atribuir ratings elevados a estes produtos. Com este certificado de garantia, estes CDOs foram vendidos por todo o mundo e passsaram a fazer parte de todo o tipo de instrumentos que os consumidores utilizam no seu dia à dia na banca, como sejam fundos de tesouraria ou produtos estruturados de capital garantido.

Ninguém sabe neste momento quanto valem estes CDOs, ninguém sabe quanto valem em relação ao seu valor financeiro implicito, mas todos têm a noção de que foram enganados.

Não estamos ainda certamente no fim desta crise. O facto de haver a noção por parte de muitas instituições financeiras não americanas de que foram enganados, o facto de a moeda americana ser o produto mais exportado pela maior economia do mundo, mas essa economia ser ao mesmo tempo o maior devedor do mundo, o facto de essa nação ter até agora as agencias de rating mais respeitáveis do mundo, podiam credibilizar a divida, mas abriu um precedente de credibilidade com os CDOs e deixa aberta a porta para uma crise mais profunda.