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Soluções precisam-se ou teremos uma revolução

Jornais e televisões falam, todos os dias, com maior ou menor sensacionalismo da crise económica, mas o problema actual não é só financeiro. O que está verdadeiramente em causa são as bases da nossa sociedade, a sua estrutura social e politica, enfim, o mundo tal como o conhecemos.

Recentemente, Mário Soares afirmou que ‘’uma nova revolução pode acontecer’’ e isso logo chamou a atenção dos media. Antes, já Vasco Lourenço, capitão de Abril, admitira ‘’uma revolta dos escravos’’ e Otelo Saraiva de Carvalho falou mesmo em golpe militar, mas o impacto mediático foi bem menor.
No meu entender não iremos certamente ter uma revolução do tipo da sugerida por Mário Soares. Essas revoluções, de lutas de classes, acabaram no século passado. A revolução que poderemos vir a ter será diferente e propor-se-á responsabilizar, justamente, pessoas como Mário Soares, que representam a democracia política, os banqueiros, que representam a democracia económica. Sejamos coerentes. A democracia só existe para proporcionar e salvaguardar o lugar dos políticos, da mesma forma que os bancos só existem para enriquecer banqueiros e alguns privilegiados.

Estamos em pleno segundo acto de uma crise que teve o seu início em 2007 e que então estava limitada ao sector bancário envolvido em ‘’subprime’’.  Era, por isso, uma crise do sector financeiro e como tal foi identificada por quase todos os políticos, os quais se apressaram a repetir que ‘’o mundo estava à beira de um precipício por culpa exclusiva de um sector financeiro irresponsável’’.
Hoje, cinco anos depois, estamos numa situação bem pior porque os tais políticos responsáveis pelas declarações referidas, decidiram prioritariamente salvar essas ‘’instituições irresponsáveis’’. Não sendo certo que o tenham conseguido, garantiram pelo menos o ‘status quo’, enquanto deixavam que se afundassem os seus próprios Estados por sua culpa exclusiva.
Quem poderá agora salvar esses Estados é a pergunta que todos fazem. Os bancos não serão, certamente, pelo que a solução encarada por esses mesmos políticos parece ser voltarem-se para a iniciativa privada com a perspectiva de aumentar os seus impostos, para o sector público com a possível devolução de parte dos seus rendimentos  e para os fundos de pensões. Por enquanto, a grande maioria destes políticos parece não ter ainda percebido  que as promessas que sempre fizeram,  em termos de reformas e garantias sociais,  pouco valor terão se não houver crescimento e não terão valor algum se o país entrar em falência.

Deixemos por isso a política para os políticos e falemos de factos concretos.
Os países da OCDE vão ter de se financiar em 2012 no montante de 10,4 triliões de dólares ou 10,4 biliões na unidade de contagem europeia. De onde virá este dinheiro? Isso é o que os políticos têm procurado encontrar nos dogmas comummente aceites da economia, mas foram certamente já informados que o endividamento existente no mundo ocidental não poderá jamais ser pago, quer pelo seu excessivo montante, quer porque as taxas de crescimento dos países o não permitem.
Se não, vejamos; se compararmos as receitas orçamentais à dívida, encontramos a evidência. Seriam precisos sete anos de receitas para reembolsar a dívida nos Estados Unidos e outros sete anos para eliminar a dívida portuguesa a 100%.

Nos últimos 30 anos, não apresentámos um único excedente orçamental pelo que só acrescentámos à dívida, jamais houve uma redução. O mesmo aconteceu com a França em idêntico período e nos Estados Unidos só nos últimos  dois anos de era Clinton foram capazes de ser excedentários.
A despesa pública em relação ao PIB é de 52% em Portugal e o governo afirma, e bem, que é insustentável, mas em França esse rácio é de 56% pelo que não é de admirar que a França esteja a semanas de perder o seu estatuto (“rating” AAA) de país sem risco. O que estes números querem dizer é que a pressão fiscal está no limite do sustentável e não tem forma de incentivar a actividade económica.

É perante esta situação económica que a solução dos políticos está na impressão de moeda por parte do BCE, à semelhança do que faz a FED americana. Esta é a solução, preconizada pelo antigo presidente Mário Soares e apoiada pelo actual presidente. Esta é a solução que permitirá manter tudo como está durante mais algum tempo, ou seja, os políticos fazendo de conta que tomam decisões importantes para manter a democracia e os seus privilégios e os bancos emprestando dinheiro a Estados que não poderão pagar o que devem.

Não sendo possível na Europa colocar o BCE a imprimir dinheiro (como faz a FED) é necessário recorrer a métodos menos ortodoxos. Depois de muitas jogadas politicas e artimanhas jurídicas conseguiram :
– que os países Europeus, na última reunião de ministros das finanças, acordassem reunir 150 mil milhões de euros para o FMI. A Itália contribui com 23,5 mil milhões para salvar…… a própria Itália;
– que o BCE emprestasse aos bancos 489 mil milhões de euros a três anos (mais exactamente a 523 bancos) a uma taxa de juro de 1%. Estes empréstimos foram feitos ao abrigo de um novo procedimento de injecção de liquidez com a designação de LTRO (Long Term Repo Operations)
Na prática os bancos podem financiar-se a 1% e emprestar aos países em dificuldade a 6%. Esta operação já é conhecida como o Sarko trade, porque o presidente francês Nicolas Sarkozy afirmou que estas operações de ‘’repo’’ permitirão aos países em dificuldades como a França, Espanha ou Itália voltarem-se para os seus bancos para se financiarem. Na realidade, também pode permitir que os bancos comprem a sua própria divida a preços mais reduzidos no mercado realizando ganhos com a sua divida  em vez de comprarem a dívida dos países.

Será agora útil recordar algumas das coisas que os políticos tentaram e de que aparentemente já ninguém  se lembra. Em Julho de 2011 o ‘’nosso’’ José Manuel Durão Barroso declarou, depois de uma reunião do Conselho Europeu:
“We needed a credible package: we have a credible package. It is the first time since the beginning of the crisis that we can say that politics and the markets are coming together”.

Nessa data os testes de ‘’stress’’ tinham sido feitos à banca Europeia e só cinco bancos falharam o teste. Em Novembro, o assunto que dominava a política era a necessidade de recapitalizar todos os bancos.

Em Julho, o famoso fundo europeu foi aumentado para 440 mil milhões. Depois afirmaram ser necessário aumentar este montante 4 ou 5 vezes. A seguir, como ninguém  tinha dinheiro para estas folias (a Espanha e a Itália são responsáveis por 1/3 das contribuições) fez-se uma declaração e esqueceu-se o fundo. Agora aprovam-se fundos para o FMI.
Já poucos se lembram do segundo empréstimo negociado com a Grécia no montante de 109 mil milhões em Julho. Tal como poucos se lembram do perdão selectivo de 50% acordado depois, que ainda está em negociação. Nem tão pouco nos lembramos quando o sistema financeiro parecia à beira do abismo a 30 de Novembro e surge um acordo de SWAP para garantir a liquidez do sistema em dólares, feito pelos bancos centrais dos Estados Unidos, do Japão, da Suíça, da Inglaterra do Canada e o BCE.
Este acordo teve como intenção baixar o custo do dinheiro no mercado interbancário em 50 bp, confirmando que a situação da liquidez no sistema é cada vez mais dramática. Esta situação de crise no sistema bancário não é exclusiva do mercado português.

Poucos parecem saber, para além do governador do Banco Central Francês Senhor Noyer, que a situação do Reino Unido é muito mais dramática que muitas das que  agora se consideram dramáticas. Na realidade, a dívida do Reino Unido quando considerada conjuntamente a dívida dos bancos, a dos agregados e das empresas e a dívida do Estado, é de quase 1000% (mil por cento) do seu PIB, ou seja, quase 10 vezes a sua riqueza. O curioso é que os ‘’famosos’’ mercados não parecem estar atentos ao Reino Unido e a razão é bem simples.   Os mercados são constituídos pelas grandes instituições financeiras e Londres é o verdadeiro centro da indústria financeira. Os mercados sabem que atacar Londres seria fazer implodir o centro da finança moderna e isso seria suicídio.

Para que não haja uma revolução à antiga, baseada no populismo da ignorância dos factos, seria bom começar a discutir um novo modelo económico e financeiro, para que a transição se faça de modo pacifico. Os políticos parecem ainda não ter percebido que a dívida cresce de forma exponencial, nem que o crescimento está limitado pelo montante da dívida existente. Estes factos tornam os bancos totalmente inúteis nas actuais condições de mercado  porque passaram a ser parte do problema e não a solução.

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