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Reflexão de Natal

É Natal. É aquela época do ano em que, por força das circunstancias, pensamos mais nos outros, a época em que nos reunimos todos em família e falamos das coisas que…falamos durante o ano. É uma espécie de compacto! Este ano falou-se de Sócrates, de Mourinho, do Banif, dos atentados, da invasão de refugiados, do novo governo, do velho governo. Tal como acontece em televisão, a conversa versou na generalidade em dizer-se mal do que foi feito. Mas o Natal é também uma época de reflexão e a minha primeira conclusão dessa reflexão é que um dos grandes problemas da sociedade actual e da comunicação social é que ela está organizada por forma a ter uma cultura de dizer mal do que aconteceu ontem, mas muito pouco interessada em pensar no que pode acontecer amanhã.

Depois de comer, de beber e de pensar, mas sobretudo beber concluí, talvez de forma errada mas concluí, que aqueles que são capazes de comentar o que se passou com a eloquência de quem se sente capaz de mudar o mundo, não se dão conta de que o mundo não é, em si, um lugar seguro nem nunca o foi, e como tal, também não sabem ainda que o mundo é o lugar em que se aprende que nada é certo ou errado e que tudo é relativo. Mesmo  sendo assim, há necessidade de haver uma maioria.

Por estar casado com uma inglesa o meu Natal é ainda mais intenso porque é em duplicado. No dia 24 reúne-se o lado português, no dia 25 o lado inglês. Escrevo este artigo precisamente no dia 25 de Dezembro, dia em que o Arcebispo da Cantuária afirmou, no seu discurso de Natal, que o Cristianismo está num processo de extinção no Médio Oriente por culpa do fanatismo religioso.

Como já aqui deixei dito, bebi o suficiente para estar em profunda introspecção e creio nela ter recordado que houve um momento na história da humanidade em que cristianismo era sinónimo de intolerância. De 1100 a 1250 não era errado fazerem-se cruzadas para guerrear os muçulmanos, pois à época não era terrorismo. Eram chamadas guerras santas, tal qual como as designam hoje os jihaidistas, identificados hoje como terroristas. Certo é que, nos últimos 5 anos, o número de cristãos em lugares como a Síria e o Iraque baixou cerca de 70% e, quando deixar de haver ali cristãos, deixará certamente de haver terrorismo passará a prevalecer o poder da maioria, não porque esteja certo ou errado, mas pela força dos números.

Isto são factos, não são mitos, mas vivemos, hoje em dia, muitos mitos também, a saber o mito da democracia, do terror da maioria, do poder momentâneo das minorias. O mito do dinheiro, que tem o valor que decidimos atribuir-lhe, o mito dos bancos e dos bancos centrais, o mito da produtividade, o mito da regulação, o mito da esquerda e o da direita. Todos estes mitos têm como fio condutor os governos. Chegado aqui bebi mais um Porto e perguntei-me de onde vem esta necessidade de sermos governados. Procurei no Google mas não encontrei a resposta. Nem a razão que levou à origem dos governos nem sequer à necessidade de sermos governados.

A realidade é que toda a gente quer ter o máximo por troca do mínimo. O máximo de dinheiro, de status, de poder, de conforto, em troca do menor investimento possível em tempo e energia, e imagino que para isso seja necessário alguma forma de governo. Factual é que todos estes mitos são produto da nossa evolução, se considerarmos que uma das origens de governo pode ser o direito que o pai teve, de governar os seus filhos como li no Google quando fazia a tal pesquisa.

Não é ao acaso que coloquei aqui a palavra evolução. Uma das prendas que recebi é o livro de Matt Ridley ‘’a evolução de tudo’’ (the evolution of everything). Os ingleses têm queda para observar esta coisa da evolução. Já foi Darwin quem escreveu sobre a teoria da evolução, na origem das espécies. Apesar de ainda não ter lido todo o livro, li algo que me pareceu extraordinário, li que as grandes conquistas da humanidade, como a revolução industrial, ou a internet não foram planeadas ao mais alto nível, nem por governos nem por empresários, nem sequer pelo mundo académico. Simplesmente aconteceram.

Claro que este é o momento de beber outro Porto e reflectir sobre tudo isto, quando estamos a viver uma época em que tudo é planeado e intensamente regulamentado. Algo que está a ser cuidadosamente planeado é a sobrevivência do sistema financeiro a nível mundial. Portugal tem surpreendentemente uma parte activa neste planeamento com as experiências que têm sido feitas com as resoluções bancárias do BES e do Banif. A razão prende-se com o facto de a teoria financeira não ter ainda percebido que o mercado e o sistema financeiro têm mais risco que aquele que é calculado matematicamente. Investidores jovens têm sempre mais confiança de que os investidores mais velhos que se recordam do dinheiro perdido no mercado.  O declínio do crescimento económico é outro problema. Sem taxas de crescimento consentâneas não é possível amortizar dívida pública ou privada. O problema é que a economia depende do crédito, porque se habituou a ele, porque todos gastamos mais do que ganhamos. O modelo económico ocidental está assente no crescimento e o modelo financeiro assente na expansão. Sem crescimento não há rentabilidade que permita a expansão bancária e se não há expansão bancária muito provavelmente haverá resolução. O risco sistémico está agora nos bancos centrais com o esforço que têm feito para manter o sistema monetário. Este é um sistema monetário que está baseado em dívida, para assegurar liquidez precisa de emitir mais e mais dívida. A implementação de taxas de juro negativas obriga os bancos a pagarem para ter o dinheiro no Banco Central, e obriga as pessoas a pagar para ter o dinheiro nos bancos. Taxas de juro negativas obrigam as pessoas a pagar para ter o privilégio de comprar dívida dos Estados. Investidores, empresários, consumidores, são agora obrigados a tomar decisões que não tomariam em circunstâncias normais de taxas de juro, será esta a forma de resolver o problema? Pensamos que não. A FED tomou a decisão de anunciar o início de um ciclo de subidas nas taxas de juro com o intuito de normalizar a situação, recorde-se que foi a FED que levou as taxas a zero como forma de estabilizar a situação, agora quer normalizar. Poderá a FED normalizar a situação depois de investidores empresários e consumidores estarem a tomar decisões que não são normais? Pensamos que não. Votos de Boas Festas.

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