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Porque somos todos coletes amarelos

Vivemos um mundo de mitos, de promessas não cumpridas, de Estados omnipresentes, de permanente fiscalização, de regulação, de divisão entre o sector público e o sector privado, de extorsão das pequenas empresas e beneplácito às grandes, vivemos um sentimento de que apesar da propalada ’’retoma’’ económica há qualquer coisa que não está bem e por isso a mim surpreende-me que muita gente fique surpreendida com as ‘’manifestações’’ dos coletes amarelos. Eu não, mas devo desde já dizer ‘’Je suis gilet jaune’’, ou seja, sou colete amarelo.

Como podemos viver uma situação normal quando a grande maioria das pessoas tem medo do futuro e medo do futuro dos seus filhos?

Como podemos ter uma situação normal e ter tanta gente revoltada, nas empresas, no Estado, nas ruas, com permanentes alertas de segurança e constantes discursos políticos sobre as desigualdades com referências aos problemas sociais e aos perigos do extremismo político?

Vejamos então, com mais detalhe, estas situações ‘’normais’’, que espoletaram este movimento dos coletes amarelos.

Porque temos de pagar impostos se depois temos de dar para o Banco Alimentar, os sem-abrigo, a Liga Contra o Cancro, os bombeiros, os Inválidos do Comércio, os antigos combatentes, a Casa do Gaiato, as Raríssimas, a Unicef, a AMI, os desalojados dos fogos, a Acreditar, a Fundação Gil, etc. O que faz o Estado, para que servem os impostos?

Para que servem as leis-quadro e leis de base, entre outras, que são diariamente produzidas no Parlamento? Os coletes amarelos percebem? Não percebem, certamente, porque enquanto o nível de vida das pessoas continua a baixar, o Estado continua a taxar uma parte crescente do rendimento para financiar a máquina do Estado, que está cada vez mais omnipresente e ao mesmo tempo é cada vez mais ineficiente. É uma contradição com consequências.

As populações empobrecidas e exasperadas estão sob tensão. A Europa é um barril de pólvora e os políticos continuam com a sua retórica dos populismos. Mas afinal o que é ser populista?

Não é populismo dizer que existe retoma quando o desemprego jovem é de 30% em média na União Europeia? Não é populismo falar de melhoria sustentada das condições de vida quando a dívida em relação ao PIB dos países Europeus está em média perto dos 100% com países como Portugal, Itália e Grécia acima dos 120%?

Não é populismo falar de populismo quando o número de sem-abrigo na Europa aumentou 20% desde 2014 e as cidades Europeias estão pejadas de tendas para os abrigar?

Não é populismo falar do princípio Europeu ‘’a mesma coisa para toda a gente’’, quando esta é uma política que tem conduzido à desintegração social com a invasão de migrantes?

E o que dizer do sistema económico e político Europeu que foi construído com dois objectivos: aumentar o crescimento económico e favorecer a integração política.

Passados estes anos o resultado é aquele que se vê: o Reino Unido tomou a decisão de abandonar a União Europeia e em França, na Itália na Holanda, na Alemanha, na Áustria, na Suécia e na Hungria os partidos anti-Europa ganham todos os dias em popularidade. Isto não é resultado do populismo das políticas dos últimos 20 anos?

Estas já seriam razões suficientes porque ‘’Je suis colete amarelo’’, mas há mais.

Estou farto dos constantes atestados de menoridade que me são passados pelos políticos europeus, e acredito que os coletes amarelos também estejam fartos de serem tratados como cidadãos de segunda, a quem não se lhes diz a verdade sobre as desigualdades.

Desigualdades entre os sectores públicos e privado. Desigualdades entre a geração de reformados e a geração que procura o primeiro emprego. Desigualdades nos sindicatos, que defendem os interesses daqueles que têm emprego em detrimento daqueles que procuram emprego. Desigualdades na justiça que é forte com os fracos e fraca com os fortes. Desigualdade entre aqueles que votam e os que não votam, reflectida na dívida que esta geração vai deixar para a próxima e, provavelmente, até para a seguinte que ainda não nasceu. Desigualdades no sector bancário, com a protecção das grandes instituições em detrimento das pequenas. Desigualdades no acesso ao financiamento das empresas. Desigualdade na saúde quando se aplicam as mesmas leis da mesma maneira ao sector privado e ao sector publico. Desigualdade nos incentivos Estatais às grandes e às pequenas empresas. Desigualdade no controlo das pequenas e das grandes instituições. Desigualdades na responsabilização do sector público e do sector privado.

Estas e muitas outras desigualdades são as razões que levam os coletes amarelos a estar fartos da liberdade que lhes é apregoada como benefício supremo e a preferirem uma igualdade que não é praticada.

Felizmente, os coletes amarelos funcionam como um sistema “blockchain” descentralizado, que por agora não está debaixo da alçada de nenhum partido político porque a tentação de politizar esta desigualdade é muito grande.

A desigualdade de que os coletes amarelos se queixam não é de esquerda nem de direita, é sobre todas as contradições aqui referidas, que permitem que todos se identifiquem com este descontentamento.

Para quem está ligado ao mercado como eu não deixa de ser esquisito que se fale de recordes nos lucros das empresas, das quantidades astronómicas de dinheiro que circulam e não se fale que o número de empresas cotadas nunca foi tão baixo. Também aqui existem desigualdades perniciosas, menos empresas significa menos emprego, significa também maiores empresas que distorcem o mercado, e que limitam a penetração de novas empresas.

Eu sei que isto pode não ser evidente para muitos, e é mais fácil culpar o capitalismo, mas é importante compreender que o aumento da dimensão das empresas não é um benefício para a economia quando existe o risco de cartelização, que é actualmente o caso em praticamente todos os sectores e algo que o BCE está a tentar fazer com o sector bancário. O capitalismo não é isto.

Mas esta é a razão pela qual o fosso entre os ricos e os pobres aumenta e não diminui, porque a dimensão das empresas assim o obriga.

Existe um claro declínio da utilidade marginal na dimensão das empresas, que para ser compensado obriga a um continuo processo de consolidação que, por sua vez, agrava esse declínio da utilidade marginal.

As grandes empresas acumulam dinheiro para investimento que se reflecte na maioria das vezes na aquisição de novas empresas levando com isso a mais desemprego e com isso a uma maior acumulação de dinheiro com mais poder, mais influência e menos oportunidades para novos participantes. O resultado deste estado de coisas é, provavelmente, mais coletes amarelos.

Ainda no sector económico e financeiro, há mais razões para existirem coletes amarelos, por exemplo, o dinheiro criado na base de nada não só não transmite ganhos de produtividade, como permite manter em vida empresas que em condições normais não seriam capazes de o fazer.

Em resultado disso o sistema monetário não é fiável e é a razão subjacente a este movimento, mesmo que muitos ainda não o saibam.

Vivemos hoje um sistema em que o crédito é que faz os depósitos. Para que os bancos emprestem dinheiro têm que criar um depósito fictício para o dinheiro criado para o empréstimo. Aquilo a que as pessoas chamam depósito é na realidade um empréstimo que as pessoas fazem ao banco. Os bancos pequenos fazem empréstimos pequenos e os bancos grandes só estão interessados em fazer empréstimos grandes e essa é outra das razões que levou os primeiros coletes amarelos para a rua vindos da classe média não urbana, porque a economia não funciona com a velocidade devida para todos. É a razão também porque a diferença entre ricos e pobres continua a aumentar porque este dinheiro novo a que têm acesso só alguns entra em concorrência com o nosso dinheiro e o resultado depois é o aumento das casas, dos alugueres, da alimentação, da educação, da saúde, de tudo na realidade. Criou-se mais riqueza, mas a vida do trabalhador médio ou não melhorou ou ficou mais pobre.

Alguns dirão que é indiscutível que existe mais riqueza. Claro que existe mais riqueza, é verdade que aumentou o número de milionários no mundo, mas são só algumas pessoas, mesmo que sejam uns milhares. São aqueles que são responsáveis pelos avanços tecnológicos, pela robotização, a inteligência artificial, só que estes avanços vão ser responsáveis por mais desemprego.

Mas o grande segredo que os Bancos Centrais pretendem se mantenha escondido do conhecimento publico é este: o sistema monetário vigente é o grande responsável pela situação actual e pelo agravamento da situação explosiva que se vive neste momento, condenando a maioria da população à pobreza.

Nunca o endividamento das famílias foi tão elevado, nunca esteve a este nível em percentagem do seu rendimento. Mas não é só o endividamento das famílias, é o dos Estados como já vimos, o das empresas, sem esquecer o dos bancos.

Trabalhar mais ou trabalhar melhor não é garantia de alteração da situação, e essa é uma razão porque as pessoas já não têm confiança nas instituições, nem nos seus dirigentes.

Um problema privado é colocado em praça pública e aí julgado, um problema público dá sempre origem a um ‘’inquérito exaustivo’’ para se apurarem todas as conclusões até cair no esquecimento.

É por esta razão que os coletes amarelos se radicalizam e é por esta razão que existe o risco de dezenas de milhões de pessoas se juntarem para desfilar nas ruas exigindo que se faça alguma coisa, e é por esta razão que existe o risco de radicalização da vida política.

O sistema financeiro era o garante inconsciente de uma moral que já não existe. Essa moral exigia gente de bem e de bons costumes que trabalhava mais e melhor para assumir as suas responsabilidades e assim poder crescer na vida, ao mesmo tempo que aqueles que não eram íntegros ou competentes eram punidos.

Tudo isso é passado. Hoje sabe-se que existem entidades grandes demais para falir, sabe-se que existem dívidas que nunca serão pagas, sabe-se que existem empresas falidas a quem se concede credito a taxas irrisórias porque têm uma certa dimensão apesar de não terem viabilidade, enquanto outras com viabilidade não lhe é concedido crédito, ou não beneficiam das mesmas taxas. Tudo isto são razões para que o sistema financeiro já não seja o garante da moral, porque criou duas economias, uma de cigarras com taxas de juro perto de zero, e outra de formigas com crédito ao consumo a taxas de 9% ou de cartão de crédito a taxas de 19%, e por essa razão existem coletes amarelos.

A moral perdeu-se a todos os níveis criando-se grupos com direitos  e deveres e entendimentos diferentes. Existem dois tipos de países, por exemplo, uns pequenos que são obrigados a cumprir com os acordos de défice estipulados e outros grandes que não têm as mesmas necessidades de cumprimento com os seus limites de défice e consequentemente as suas obrigações.

Existem também dois entendimentos dentro do BCE, um que aceita as instruções impostas de resolução de bancos e fusões e outro que não aceita instruções como a Grécia, que com três resgates não teve nenhuma resolução bancária.

Tudo isto deve parecer confuso aos coletes amarelos, mas certamente que o é também para todos aqueles que ainda não vestiram o colete amarelo.

Vai ser necessário um novo sistema monetário que reponha conceitos morais. Actualmente quando os ricos não podem pagar é um problema económico e financeiro, quando os pobres não podem pagar é um problema social e político. Os políticos vão ter que reagir se não quiserem perder o controlo da situação e para isso vão ter que intervir nos Bancos Centrais, que não podem ter a independência de que beneficiam para tomar decisões com consequências sociais importantes.

Por alguma razão o fundo de garantia de depósitos da zona euro não avançou, e a razão está no sistema financeiro, não está certamente na decisão política.

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