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Pequeno manifesto anti-capitalismo

Em 2011, escrevi o livro “Capitalismo sem capital“, para explicar a crise de 2007.  O problema de excesso de divida dessa crise não só não foi resolvido, como se tornou bastante pior, existe agora mais divida que nunca.

 

Pequeno manifesto anti-capitalismo

 

De acordo com governos, bancos centrais e ‘’opinion makers’’, a criação de dinheiro engendrada pelos bancos centrais está a resultar. É certo que, pelo menos para uma certa elite, a estratégia está a funcionar, mas também sabemos que não se trata de uma criação de riqueza honesta (porque o dinheiro deixou de ser honesto), considerando que passou a ser criado de forma arbitraria pelos bancos centrais.

Pessoalmente, acredito que tal como não se pode dar palha falsa a bovinos, mesmo que estes consigam sobreviver algum tempo, também não é possível dar dinheiro falso à economia, mesmo que esta pareça reagir bem durante algum tempo. Daí este manifesto anti capitalismo.

Tudo na vida tem um tempo, e tudo tem uma curva de distribuição ou‘’Bell curve’’. As pessoas vivem a sua vida dividida em 4 períodos, o período de meninice, depois o da juventude, depois a fase adulta e finalmente a velhice.

Crescemos, aprendemos, assumimos responsabilidades e depois transferimos essas responsabilidades à geração seguinte. Não é diferente com o capitalismo nem é diferente com o dinheiro.

A nossa teoria é simples. A dinheiro sério correspondem recursos sérios. Os recursos são por natureza escassos, e quando explorados em excesso mais escassos se tornam, porque vivemos num espaço que sabemos finito a que chamamos Terra.

O dinheiro, é desde a crise de 2007 ilimitado, pelo que, no actual contexto não pode criar prosperidade sustentada, a menos que o paradigma mude.

 

É certamente de todos conhecida esta historia, passada no único hotel de uma pequena aldeia dos Alpes:

 

  1. Um turista russo acabado de chegar pede na recepção para ver os quartos. Entrega ao balcão da recepção 100 euros como caução. Enquanto a recepcionista acompanha o cliente na visita aos quartos, o dono do estabelecimento vai ao mini mercado entregar os 100 euros que tinha ficado a dever nessa manhã.
  2. O dono do supermercado que está a atender o farmacêutico da aldeia entrega-lhe os 100 euros para liquidar a divida que ali tinha. Com os 100 euros acabados de receber o farmacêutico vai ver Josefina, que é ‘’madame’’ numa casa de alterne próxima para liquidar o favor que lhe tinha feito, e esta sem demoras atravessa o largo da aldeia para ir ao hotel liquidar a divida de 100 euros pela ocupação dos quartos com os seus clientes.
  3. O turista russo acaba de chegar à recepção, não muito entusiasmado com o que viu, reclama o depósito de 100 euros, e sai em busca de outro hotel numa outra aldeia;
  4. Sem se ter gasto um só cêntimo, toda a aldeia ficou sem dívidas. Esta história é vista como uma espécie de puzzle da economia monetária.

 

Não sendo um puzzle, demonstra claramente que o dinheiro só existe porque existe divida, e como tal, se não houvesse divida simplesmente não haveria dinheiro.

 

O desenrolar dos acontecimentos descritos só foi possível porque nesta aldeia não havia um banco. Vejamos como ela ficaria com a intervenção de instituições financeiras:

Turista russo chega ao hotel e pede para ver os quartos. A recepcionista pede-lhe o cartão de credito que terá uma operação de debito de 100 euros que lhe será devolvido se não ocupar o quarto. O proprietário do hotel ficou nessa manhã a dever 100 euros no mini mercado e este não poderá emitir a factura, nem fechar o caixa enquanto o pagamento não for feito. Vai por isso ao banco pedir um credito pessoal ao consumo no montante de 100 euros. Este credito tem uma taxa de 6% pago em 12 meses se a garantia associada for aval ou fiança.

  • Tem ainda uma comissão inicial designada de contratação ou de estudo no montante de 20 euros.  Tem ainda o imposto de selo de 4% sobre a comissão de estudo e o imposto de selo sobre a utilização do credito. Face aos custos e como a divida no mini mercado é de 100 euros o hoteleiro decide pedir 130 euros para poder pagar os custos e ter disponíveis os 100 euros para pagar a divida.

O senhor do mini-mercado ansioso com a falta do dinheiro liga para o banco para saber se lhe podem fazer uma conta corrente caucionada com limite máximo de utilização, disponível a partir da conta de depósitos à ordem que tem no banco. É informado que sim, que pode ter essa conta, mas que ela tem uma comissão de organização/Dossier, cobrada independentemente da concessão do credito em conta corrente.

Tem ainda uma comissão de abertura, variável em função do limite da conta corrente e uma comissão de imobilização de 1,5% que incide sobre o montante do limite da conta corrente caucionada que não está a ser utilizada, cobrada mensalmente na data de pagamento dos juros.  Ao avaliar o peso da conta corrente caucionada, o dono do mini mercado percebe que será de 14% considerando um spread de 8% sobre a euribor, mas não tendo alternativa tem que aceitar.

O Farmacêutico, entra no banco e dirige-se ao balcão para fazer um credito comercial sem garantia hipotecaria. Este crédito tem também uma comissão de abertura, uma comissão de gestão e uma comissão de imobilização, mas como os seus clientes pagam-lhe tarde e a más horas e ele tem que comprar os medicamentos a pronto não tem alternativa.

Verificando que o custo deste empréstimo lhe vai sair por cerca de 10% decide ir visitar a sua amiga Josefina antes de ela ir abrir a casa de alterne.

É fácil dizer que os bancos se tornaram parasitas, mas é verdade que o custo do dinheiro reflectido nos juros, é a razão pela qual a economia tem que estar sempre em expansão, fazendo com que seja necessário sempre mais dinheiro (e logo mais divida) para pagar os juros. O risco de queda nos mercados de divida ou no mercado imobiliário é a razão, pela qual os bancos precisam de um banco central, e muitas vezes de resgates.

  • É este sistema monetário e financeiro, a razão de ser da nossa sociedade viver o modelo actual e a razão porque estaremos certamente na eminência de alterações sociais importantes. E porque razão terão que haver alterações sociais? Principalmente por causa do dinheiro e da robótica. A robótica irá segundo algumas estimativas eliminar metade dos empregos existentes até 2030 e o dinheiro actual está a sofrer as pressões conflituantes de governos a tentar eliminar o papel dinheiro em circulação, para melhor fazer o cerco aos impostos e os bancos centrais estão a cartelizar o sistema bancário, impondo fusões e aquisições e uma taxa de juro administrativa. Entretanto a sociedade civil está a criar moedas alternativas de cariz digital.

A combinação destas tendências é perigosa, porque trilham um caminho incompreendido pela maioria das pessoas. Os que não têm dinheiro não percebem porque lhes custa tanto, o dinheiro que precisam, quando toda a gente fala em taxa zero.

  • Os que têm dinheiro não percebem porque não têm remuneração nas suas aplicações. Os bancos são obrigados a tomar risco, apesar de não conseguirem avaliar risco e, por via disso, a aumentar as comissões. Os governos não só não conseguem reduzir dívida, como continuam a aumentar o seu endividamento. Algumas pessoas fazem dinheiro em moedas digitais e dizem que o futuro passa por aí, enquanto alguns governos e bancos centrais continuam a contestar a sua legalidade. Tudo isto parece-nos ser uma conjugação perigosa porque todos têm razões de queixa.

Os juros são supostos ligar o dinheiro, o tempo e a economia. Uma taxa de juro de 10% significa que reavemos o capital em 10 anos e com uma taxa de juro a 1% precisamos de 100 anos para reaver o mesmo capital.

Com taxas de juro negativas, entramos numa nova dimensão em que o tempo teria que andar para trás.

 

Por agora funciona? Funciona e, enquanto funcionar, os responsáveis políticos e bancos centrais terão razão e serão os bons rapazes do filme. Os que estão do lado certo da historia têm sempre razão, mas a historia está sempre a mudar. Quantos terroristas se tornaram legitimados chefes de estado? Quantas revoluções mudaram a natureza das coisas?

Apesar de famílias e empresas estarem no limite da sua capacidade de endividamento, se novos empréstimos não forem feitos o credito irá contrair, a contracção do crédito origina recessões ou pior, origina depressões.

O crédito continua assim a fluir para as grandes empresas e para o Estado, para manter o ‘’status quo’’. A actual sociedade está tremendamente dependente do ciclo de credito e por isso os bancos continuam a ser importantes enquanto mantiverem o monopólio sobre o credito.

economia deixou de estar dependente de um modelo politico, passando a ser globalmente refém dos bancos centrais com uma cada vez maior intervenção do Estado na economia. A actual luta de classes mais não é que uma luta geracional em que se procura garantir os direitos adquiridos dos actuais trabalhadores, sabendo que serão as gerações futuras que irão pagar a factura. Os velhos ganham os jovens perdem.

  • Independentemente dos governos serem de direita ou de esquerda o eterno vencedor é o aparelho do Estado. A série ‘’Sim senhor ministro’’ fez-nos rir nos anos 90, hoje ri melhor o aparelho do Estado.

O capitalismo, de acordo com Adam Smith aprende com os seus erros, era a famosa mão invisível, que resultava em mais riqueza. Apesar da sua cada vez maior dimensão a economia Estatal não tem mão invisível e em vez de produzir mais riqueza está a asfixiar a economia privada com impostos. Ao contrario da ciência, o conhecimento na politica não é cumulativo, é cíclico.

Mark Twain dizia que era mais fácil enganar as pessoas que convencê-las que tinham sido enganadas. Vai ser um problema quando as pessoas se convencerem que foram enganadas.

 

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