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Parecia real

Esta noite tive um sonho que parecia mesmo real. Estou sentado em frente aos meus monitores seguindo o evoluir dos mercados e o telefone toca. Atendo e do outro lado está o senhor Ministro das Finanças, que me diz:

 Paulo, como estás? Estou a ligar-te porque a situação actual está muito relacionada com os mercados e preciso da tua opinião.

Foi grande a minha surpresa porque, não tendo nenhuma intimidade com o Ministro das finanças, respondi:

– Sr. Ministro, que surpresa. Compreendo a situação que o obriga a ouvir-me porque o governo está a lidar com mercados, algo de que não têm quaisquer conhecimentos e são, por isso, criticados pelos partidos que, eles também, não têm conhecimentos destas coisas, mas não obstante, falam delas.

– Paulo, é exactamente por isso. Como te dizia, a situação está muito relacionada com os mercados e não temos experiência desses assuntos. Por exemplo, tenho os banqueiros a dizerem-me que os mercados estão fechados para eles e  que é muito importante que a bolsa não baixe muito mais porque, se continuar a baixar, terão que criar provisões e se tiverem que o fazer isso afastará ainda mais os investidores. Eu disse-lhes que quando o Estado garante à população benefícios futuros não tem que criar provisões, por isso, não vejo porque com eles não se passe o mesmo.

– Sr. Ministro, essa é uma coisa que o mercado agora percebeu. Constatou que os estados não se regem pelas mesmas regras das empresas e estando o Estado em situação económica e financeira difícil, não podendo oferecer mais ao mercado a credibilidade de pessoa de bem e com posses para resolver a situação, coloca todo o sistema financeiro em risco, a começar pelos bancos, daí advém a razão ou razões para que eles se queixem.

– Mas, Paulo, estes mesmos banqueiros, quando estavam a fazer muito dinheiro com aquilo que faziam, não tiveram o cuidado de alertar o Ministro das Finanças para o facto de que as coisas não iriam continuar ad eternum como estavam. Toda a gente a comprar tudo com dinheiro que não tinham e que os bancos emprestavam para poderem continuar a ganhar comissões e juros.

– Pois, senhor Ministro, mas essa é a natureza do negócio privado, procurar fazer negócios, o máximo que lhes for possível e é também isso que a Bolsa pretende, para que o valor das acções suba. Eu creio que o problema real que agora enfrentam está no facto das agências de rating terem aparecido dando notas com base em critérios empresariais que o Estado não está na disposição de cumprir, como baixar os custos, aumentar as receitas, demonstrar capacidade de liderança para negociar a taxa do seu endividamento oferecendo garantias, no fundo, os mesmos critérios e padrões que se aplicam às empresas.

– Mas o Estado não é uma empresa, Paulo. Os polícias, os professores, os médicos, os juízes não podem ser vistos como matéria-prima de um produto.

– Com o devido respeito, senhor Ministro, o mercado discorda totalmente dessa sua visão. O mercado pactua com essa visão de um Estado conquanto exista dinheiro para pagar os erros e assim os esconder. O problema é que não existe mais dinheiro para pagar os vossos erros. Por isso a situação só poderá agravar-se. O socialismo é maravilhoso enquanto existir dinheiro para dividir. O problema do socialismo é quando esse dinheiro acaba. Veja-se o exemplo de Cuba, que chegou agora à mesma conclusão. O mercado acredita que estamos nessa situação. O senhor Ministro poderia, na próxima reunião do Ecofin , falar com os seus colegas sobre este assunto porque, uns mais outros menos, estão todos na mesma situação. Não é só Portugal. A Moody’s anunciou que a França a Alemanha e a Grã-Bretanha, assim como os Estados Unidos, poderiam perder o seu estatuto de países sem risco com o rating AAA. As consequências serão devastadoras para estes países também, porque as suas dívidas públicas são muito importantes entre os 75 e os 115% do PIB. Parece evidente que as soluções utilizadas de salvar bancos e salvar empregos salvando empresas não está a funcionar. Poderia explicar-lhes também que a solução preconizada para todos aumentarem as exportações, pode não ser a melhor porque é preciso que alguém compre aquilo que se exporta.

– Não sei se posso estar de acordo Paulo. Se não tivéssemos feito o que fizemos, a crise seria muito pior, estaríamos todos muito pior.

– Não discuto isso senhor Ministro. Seria certamente pior, o mercado teria ido para níveis inimagináveis, alguns bancos teriam eventualmente entrado em dificuldades, empresas teriam falido, mas neste momento já teríamos começado a reduzir a dívida, as empresas em dificuldades mas com perspectivas teriam sido absorvidas por outras mais capazes, equipas de gestão teriam sido substituídas por outras mais motivadas e melhor preparadas para este tipo de situação e o tecido económico estaria mais regenerado. Nas actuais circunstâncias, o mercado está a actuar como um drogado totalmente dependente da sua droga, olha para o governo como sendo o salvador porque se habituou a que seja o governo a resolver as situações e, como sabe que não vai haver solução, prepara-se para criar problemas como fazem os drogados em desespero.

Creio que não é possível manter a situação que se vivia, aquela em que os bancos emprestavam dinheiro para que as famílias consumissem produtos que não precisavam com dinheiro que não tinham. O mercado acabará por destruir as empresas que fizeram investimentos com base em premissas erradas sobre o futuro, pelo que é melhor que isso aconteça naturalmente sem interferências de governos, e quanto mais rápido melhor.

– Não podemos fazer isso Paulo. Dessa forma o governo acabaria por perder as eleições.

– Talvez não necessariamente senhor Ministro. Poderia ir regularmente à televisão pública explicar à população as coisas óbvias que as pessoas esqueceram, como, por exemplo, que não é possível manter uma empresa que produza coisas que não se vendem, mesmo que tenha muitos trabalhadores e mesmo que existam bancos ou programas governamentais que a suportem porque, a menos que comece a gerar riqueza, a empresa acabará por fechar. Explicando estas coisas simples poderá dizer que com os estados se passa o mesmo. Não pode gastar aquilo que não tem. Dessa forma julgo que ganhará a confiança e a credibilidade junto dos eleitores. Se a oposição vier fazer demagogia, dizendo que é possível salvar tudo e todos, sem explicarem como, perderão a confiança dos votantes.  

Mas Paulo a democracia dos partidos não funciona explicando as dificuldades, as pessoas votam... Neste preciso momento o despertador tocou para interromper aquilo que prometia ser um bom princípio de conversa.

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