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Os mercados, a felicidade e o GES

Os mercados mantêm a capacidade de confundir e surpreender todos aqueles que julgam ser possível o seu controlo, e a razão prende-se com o simples facto de que os complexos mecanismos da oferta e da procura são mais fortes que a influência que os poderes julgam poder exercer sobre eles. É verdade que a planificação imposta pelos Bancos Centrais nos últimos anos tem levado muita gente a acreditar que é possível o controlo dos mercados. Imagino que é isso que banqueiros, políticos e reguladores têm pensado, porque têm trabalhado arduamente para retirar o risco do mercado desde 2008, impondo uma vontade, forçando uma opinião, mesmo que esta seja independente da opinião dos mercados. O problema é que qualquer que seja a fragilidade existente, o mercado acabará por encontra-la, porque essa é a sua natureza, a de atribuir a verdade pelos preços, porque apesar de todo o ruído, os preços acabarão por revelar a verdade. Não é isso o que se passa actualmente. Os montantes de dívida, por exemplo, estão nos valores mais altos de sempre. No entanto, o custo dessa dívida, na grande maioria dos países desenvolvidos, está nos níveis mais baixos de sempre. Algo não bate certo se tivermos em consideração que a quantidade tem como consequência o declínio da qualidade. Dívida é sempre um problema: que o digam os milhares de portugueses endividados, que o diga o grupo GES. A dívida, qualquer tipo de dívida, é sempre uma preocupação, porque em princípio tem que ser paga, logo quanto mais dívida há maior deve ser a preocupação. A quantidade de dívida torna também o sistema financeiro mais frágil, porque como foi dito quando a quantidade aumenta a qualidade diminui e, por isso, não faz sentido que o seu custo diminua também. O que já faz sentido que se diga para justificar a situação é que todo o sistema financeiro está baseado na confiança, e uma baixa do custo do dinheiro faz aumentar a confiança mas não significa que resolva a situação. O BES tem sido fustigado pelos mercados. Depois de ter conseguido com sucesso em Junho um aumento de capital de mil milhões de euros, estará brevemente obrigado a outro, tudo porque as pessoas ligadas ao BES certamente se esqueceram que o negócio bancário é um negócio de confiança. Situações como aquelas por que passaram os bancos BPN ou BPP ou pelas quais passa agora o grupo GES, fazem-me pensar como o dinheiro é sempre um curioso tópico para uma filosofia barata. Constata-se facilmente que em todas estas situações a única intenção era o lucro. Fazer mais e mais dinheiro era o objectivo mas o resultado final foi desastroso. Um artigo na revista Exame sobre felicidade e a produtividade dos trabalhadores levou-me a imaginar que as pessoas que estão na génese destes casos não perseguiam esse objectivo para tirar mais partido da vida, mas para se sentirem seres superiores. É que todas as notícias com elas relacionadas as davam como seres de excepção, trabalhadores incansáveis, dispondo de pouco tempo para desfrutarem da vida, pelo que sou forçado a crer que era procedendo assim que se sentiam felizes, estando aqui a relação entre produtividade e felicidade de que falava o artigo. Pode por isso também admitir-se que esta sede de poder para se sentirem superiores é uma variante do conceito de felicidade e, a ser assim, imagino que a busca dessa felicidade se reflectia na necessidade de se concretizar sempre em mais um ou outro negócio, ou na manutenção a todo o custo daqueles já concretizados, sempre por uma questão de poder. A ser verdade esta teoria, é curioso verificar como a felicidade se ajusta ao estatuto socioeconómico. Uns precisam ter dinheiro suficiente para investir em arte, ou simplesmente para ter acesso a produtos topo de gama, enquanto para outros concretizar o objectivo de simplesmente ter comida na mesa ou poder ir ao cinema lhes proporcionam a mesma felicidade. Agora que não têm esse poder, não consigo imaginar o que devem estar a sentir as pessoas envolvidas nestes problemas. Que tipo de coisas lhes poderão dar agora a suprema felicidade que julgavam poder alcançar? Serão elas capazes de se adaptar aos diferentes conceitos de felicidade? Se sim que conceito de felicidade se pode usufruir com a consciência de tanta infelicidade causada a tantos? Que futuro se pode ter quando o de tantos outros foi brutalmente interrompido? Mas pode-se filosofar mais ainda sobre as razões que causaram tanta infelicidade a tantos, e essas razões estão ligadas ao gradual desaparecimento das noções de risco por parte dos investidores com tanta “protecção” ao risco que hoje se pretende garantir. A natureza e a vida vêm com riscos naturais aos quais a humanidade se ajustou, acrescem agora outros riscos, menos naturais, criados por governos, bancos centrais e reguladores em nome da “estabilidade”. Essa estabilidade é agora responsável por não se saber avaliar risco e é essa estabilidade que regularmente é surpreendida pelos mercados quando atribui a verdade dos preços.

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