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O referendo de que ninguém falou

Passou quase ao lado de todas as notícias o referendo sobre o ouro, na Suíça.  Com efeito, no dia 30 de Novembro, os suíços foram chamados a pronunciar-se sobre se pretendiam que o ouro suíço (todo aquele que está fora da Suíça) fosse repatriado, e se o seu Banco Central deveria comprar ouro até 20% das suas reservas.

Este referendo foi provavelmente o mais importante da história recente, não obstante os suíços utilizarem com demasiada frequência a consulta directa, porque, na prática, o que se referendou foi a possibilidade de um regresso ao padrão ouro. O resultado foi um rotundo não, com mais de 74% de votos contra.

Todos os bancos centrais têm, actualmente, balanços alavancados em virtude da sua política ser, de há muito, criar dinheiro de forma digital para, a seguir, comprarem outros activos, tais como obrigações, moeda ou ainda futuros acções e ETF. O balanço de um banco central é, por norma, constituído pelo passivo, que representa o dinheiro por eles próprios criado, e o activo, que é tudo aquilo que foi adquirido com esse dinheiro. Este referendo tinha a intenção de obrigar a que vinte por cento desses activos no Banco Central Suíço fosse constituído por ouro físico.

Não estou seguro que fosse uma boa coisa esta tentativa de regresso ao padrão ouro, sobretudo tendo em consideração que era uma tentativa unilateral, mas foi certamente bom tentar uma mudança de paradigma.

Os políticos não são más pessoas, assim como não são pessoas estúpidas Também não são santos como também não serão pecadores. São pessoas como todas as outras, como qualquer um de nós. É a actividade política que induz à fraude, apoiada nesta noção peregrina de que os políticos existem para nos proporcionarem o bem e fazerem o que é correcto. Obviamente, isto não é verdade. Os políticos existem para implementarem agendas que interessam aos seus partidos e, como tal, que a eles interessam particularmente.

Os políticos, quando no exercício do poder, afirmam melhorar a economia, enquanto na oposição a esse poder, afirmam poder exercê-lo ainda melhor. A população faz de conta que acredita. Por todo o mundo, os políticos, supostamente a bem das populações, intervêm nas economias e nos mercados a mandato dos seus potenciais votantes. Não têm o poder divino que supostamente era concedido por Deus aos monarcas reinantes, mas têm um poder equivalente. É o poder constitucional que lhes é outorgado pelas democracias.

Este referendo era importante dado que, desde 2008 que as máquinas políticas iniciaram um movimento com a intenção de absorverem o aforro das populações, quer ele seja público quer ele seja privado.  O referendo confirma ainda a instabilidade do sistema financeiro e a necessidade de um sistema alternativo. O resultado prova que a maioria da população, suíça pelo menos, ainda não percebeu a necessidade dessa mudança de paradigma. Não admira. A grande maioria da população mundial também ainda não percebeu que o objectivo dos planos de resgate só teve como intuito salvar os bancos, e não estamos a falar dos pequenos bancos mas daqueles que realmente importam.

Hoje tudo é feito com o intuito de direccionar as coisas no sentido que interessa. Se a bolsa sobe exageradamente não se criam mecanismos ou leis com o intuito de baixar as cotações. O contrário já é verdade. Quando as instituições financeiras perdem determinado valor em bolsa proíbem-se as vendas ‘short’ com o intuito de evitar colapsos. Não que a medida seja realmente efectiva mas é psicologicamente importante, porque demonstra que o mercado é livre desde que tenha o sentido que interessa.

E que sentido é esse que interessa? A manutenção do sistema monetário e financeiro como o conhecemos e assim adiar a mudança de paradigma. Senão como compreender que seja possível emprestar dinheiro aos bancos a taxa zero e não seja possível fazê-lo a particulares empresas ou mesmo até aos Estados.

O exemplo recente da situação do BES deveria dar uma ideia mais clara, pelo menos aos portugueses, do que poderia acontecer ao sistema financeiro mundial e Europeu em particular se os países em dificuldade não fossem resgatados. Infelizmente não creio que tenham essa ideia nem de forma clara nem menos clara, como parece evidente na Comissão Parlamentar do caso BES. As instituições grandes demais para falir precisam de tempo para saírem de situações mais complicadas.

Na realidade, todo o mundo precisa de tempo, mas este só é concedido geralmente aos muito grandes. Ricardo Salgado afirmava na Comissão que não lhe foi concedido o tempo que necessitava. Nesse preciso momento imaginei a quantidade de empresas ou pessoas a quem o BES não concedeu o tempo que necessitavam, e pensei também nas infindáveis negociações politicas para os resgates soberanos que permitiram dar o tempo que os grandes bancos Europeus necessitavam.

O sentimento generalizado ainda é que existe uma entidade que pode resolver a situação, porque está acima das regras que se aplicam aos outros. Senão por que razão por exemplo, o G20 tomou a decisão de estimular até 2% o crescimento das economias. Porquê 2%? Porque não 3% ou 7% já que estes governantes têm essa capacidade. Será que acreditam realmente que a política, tem esse dito ‘poder divino’ concedido pelos votantes? O problema, como todos sabemos, é que, apesar da decisão política, o resultado não corresponderá nunca à decisão. Nestas como em outras questões económicas, infelizmente a maioria da população já deixou de se questionar. Estamos habituados a ouvir dizer que ‘a procura global não é suficiente’, mas não nos questionamos que quantidade de procura seria necessária se é que haja quem o saiba, nem nos perguntamos por que razão deveria haver mais procura que aquela que existe.

O resultado do referendo é um mau sinal quanto ao interesse manifestado pelos votantes sobre estas questões económicas. Parece que não aprendemos com os erros dos outros e pouco aprendemos com os nossos. O Japão aumentou o seu programa de QE (quantitative easing) em 2001 propondo-se comprar 60% da dívida japonesa. Agora, compra a totalidade da sua dívida e, contra as suas expectativas, o primeiro resultado prático foi entrar de novo em recessão. A razão por que é necessário mudar de paradigma é que todas as intervenções governamentais nesta fase não melhoram nenhuma situação, antes pelo contrário. Isto tem que ver com o facto de os políticos procurarem planificar o nosso futuro, e a humanidade não foi concebida para planeamentos em larga escala. A antiga União Soviética só pode confirmar isso mesmo.

Quando olhamos para a história e lemos sobre a época feudal perguntamo-nos como era possível a Humanidade aceitar aquela situação.

Actualmente, vivemos com tantas leis tantos códigos e regulamentos que é difícil senão impossível a alguém existir sem ser culpado de infringir alguma coisa.

A isto chamamos agora liberdade.

Uma liberdade garantida por uma elite que assume trabalhar para eliminar as desigualdades, mas que na realidade a promove usando um sistema financeiro sem capital que só pode beneficiar aqueles que têm tempo ou podem ganhar tempo com as suas garantias.

Larry Summers eminente intelectual e político americano afirma no livro ‘A fighting chance’ de Elizabeth Warren o seguinte:  “Eu tive que fazer uma escolha. Podia ser um ‘insider’ ou podia ser um ‘outsider’. Os ‘outsiders’ podem dizer aquilo que entendem, mas as pessoas que fazem parte dos ‘insiders’ não as ouvem. Mas os ‘insiders’ têm acesso privilegiado e a oportunidade de levar as suas ideias adiante. As pessoas – as mais importantes –, ouvem aquilo que têm para dizer. Mas os ‘insiders’  também sabem que existe uma regra inquebrável; não se criticam os outros ‘insiders’.”

Este é por agora o caminho que interessa.

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