Voltar ao Blog
O Estado está contra

O mês de Maio levou-me até ao Vietname, um país de 94 milhões de habitantes instalados numa faixa de pouco mais de 2.000 km e que em área total é cerca de 2/3 da Espanha.

O Vietname fez parte do meu imaginário, porque cresci com a guerra do Vietname e me fiz adulto a ver filmes relacionados com a guerra do Vietname e, por essa razão, nunca o país foi uma das minhas prioridades. Para informação dos mais novos, diga-se que a queda de Saigão deu-se a 30 de Abril de 1975, um ano depois da nossa revolução de Abril, o que, em termos práticos, quer dizer que todos os Vietnamitas com a minha idade fizeram a guerra no Vietname.

A lógica do meu subconsciente era simples: se hoje se continuam a usar em manifestações em Portugal frases de ordem como ‘’Abril sempre, fascismo nunca mais’’, seria natural por parte dos Vietnamitas alguma hostilidade para com os ocidentais. Afinal de contas travaram duas guerras, uma com os franceses e outra com os Americanos.

A minha chegada deu-se em Da Nang, sensivelmente a meio do país, entre Saigão (agora Ho Chi Min) e Hanói, as duas cidades mais importantes e, respectivamente, capitais do Vietname do Sul e do Vietname do Norte. Da Nang é a terceira cidade hoje em termos de importância, e foi durante a guerra ponto fundamental, porque era uma base importante americana e a porta de entrada do Vietname do Sul.

Para grande surpresa minha, os Vietnamitas não olham os ocidentais de lado e não parecem obcecados pelo trauma da guerra. Nas agências de viagens podem-se comprar visitas a My Son, um conjunto de templos hindus (uma versão miniatura de Angkor Wat no Camboja, pois chegou a ser constituído por mais de 70 templos), destruído a 75% pelos bombardeamentos americanos, e  My Lai, local do massacre de um número indeterminado de civis, homens mulheres e crianças (entre 347 e 504, segundo a Wikipédia), levado a cabo por soldados americanos comandados por William Caley. O massacre foi justificado por psicólogos pelo medo prolongado a que os soldados estavam sujeitos.

Não sendo estes textos guias turísticos vem este a propósito de quê? De massacres, de destruição e de outras coisas como veremos mais adiante.

‘’Para se poderem tirar lições do passado há que entender as diferenças do presente’’, li algures, e a verdade é que este é um exercício que gosto de fazer. Vieram-me à memória, por isso, os ataques terroristas de Paris e Bruxelas que colocaram a Europa em estado de emergência. Guerra e estado de emergência são situações que parecem ser sempre actuais porque a história repete-se, sempre com dualidade de critérios, sempre com diferentes pesos e medidas, mas nunca da mesma forma.

A destruição dos templos de Palmira em 2015 pelo ISIS foram um atentado contra a humanidade como o foi a destruição dos Budas de Bamiyan no Afeganistão pelos talibãs.  No Vietname, os acontecimentos relatados acima foram tristes situações de guerra. O comandante William Caley foi condenado a prisão perpétua, mas acabou por cumprir três anos em prisão domiciliária. Já os militares que denunciaram o massacre (segundo a Wikipédia) tiveram o Estado contra eles durante 30 anos até lhes ser reconhecida a ‘’bravura’’ de terem denunciado o massacre.

Os Estados neste início do século XXI, quando comparados com os Estados do início do século XX, parecem ser muito mais fortes se se considerar o número de assassinatos de políticos, mas a realidade pode não ser essa e pode até ser só uma ilusão. Entre 1900 e 1914, foram oito os assassinatos e incluíram um presidente dos Estados Unidos, um primeiro-ministro Russo, um primeiro ministro de Espanha, o rei de Portugal, o rei de Itália, uma tentativa de assassinato ao rei de Espanha, o assassínio do Grande Duque da Rússia, e do Arquiduque Ferdinando da Áustria e depois… a Grande Guerra.

Neste século, os ataques terroristas têm por objectivo matar simples cidadãos sem responsabilidades políticas. Assim a história parece estar a repetir-se mas de forma diferente. Cidadãos inocentes mortos em Nova Iorque, em Madrid, em Moscovo, em Paris, em Bruxelas. Estas são as diferenças do presente. Mas porquê pessoas anónimas em detrimento de políticos? Muito provavelmente porque o povo não se importaria tanto com a morte dos políticos, enquanto que a incerteza de se ser vitima de um atentado aleatório com a actual força dos media tem agora mais impacto, e esta é a grande mudança.

O interessante neste exercício de tirar lições do passado, creio, é que nunca estamos preparados para o futuro, senão não estaríamos a falar do futuro. Mas o Estado transmite essa noção em função de acontecimentos. Na realidade, não nos está a preparar para o futuro, o que faz é tomar medidas em função das experiências passadas.

Por exemplo, os Estados Unidos da América fizeram a guerra do Vietname com base na experiência que tinham da guerra da Coreia. A história repetiu-se, mas não da mesma forma. Os franceses, no final da primeira Guerra Mundial, construíram a ‘’impenetrável’’ linha Maginot para se defenderem de um novo ataque alemão. A estratégia teria resultado na primeira guerra mas não serviu de nada na segunda. A história repete-se mas nunca na forma esperada.

O mesmo se pode dizer da crise que vivemos desde 2008: ‘’é a mais grave desde a grande depressão de 1930’’, mas como sabemos que não estamos numa grande depressão? As pessoas em 1930 também não sabiam que estavam a viver a grande depressão, sabiam que estavam a viver uma crise ainda nunca vivida.

Contra, é o tema deste texto, porque o Estado está sempre contra ao tentar criar as mesmas ou melhores condições para os seus cidadãos com base nos conhecimentos passados. Enquanto as empresas têm de se adaptar à mudança, viver em constante alteração regulamentar e fazê-lo com a naturalidade dessa constante que é a mudança, o Estado promete que nada vai mudar. Por exemplo, a crise de 1930 viu desaparecer um grande número de bancos, seguradoras e grandes empresas, e não havendo mecanismos de protecção só as empresas mais eficientes ficaram. Na actual crise, os Estados não deixaram as instituições financeiras pagar pelos seus erros e como tal decidiram salvar um grande número de empresas e instituições. O resultado foi o esperado? Evitou-se uma depressão do tipo de 1930? Sim, mas criou-se uma situação nova no sistema monetário e financeiro invertendo o modelo. Agora quem deve não tem que pagar juros e quem poupou não consegue receber juros.

Em Portugal, a situação não é diferente, o Estado está contra. Claro que não é isso que afirmam os políticos, antes pelo contrário, mas a posição do Estado é, por princípio, estar contra.

Imagine que acreditou que a baixa dos preços do petróleo estava para durar e em função dessa análise tomou a decisão de iniciar uma empresa de transportes acreditando que o mercado iria expandir-se.

Eis senão quando vem o Estado e aplica uma taxa aos combustíveis. Depois aumenta o salário mínimo e ainda dá instruções para que a ASAE e a polícia de segurança estejam particularmente atentos a este tipo de negócio.

O promotor desta empresa de transportes tinha encontrado um preço de venda que lhe permitia ganhar dinheiro. O seu plano parecia estar bem feito, mas colidiu com os planos do Estado e estes são sempre mais importantes porque são supostamente para benefício de todos. Qualquer gestor precisa de ganhar dinheiro para investir no seu negócio, o Estado quer que ganhe dinheiro para lho poder tirar e assim financiar os seus.

Mas o Estado tem muitas formas de estar contra, e para isso tem as diferentes polícias, o SEF, o SIS, a ASAE, os reguladores, os impostos e a lei para que se curve aos interesses do Estado, e a aceitar o que lhe impõem.

Por muito que nos custe o Estado não exerce o poder do bem sobre o mal, o Estado limita-se a seguir a sua agenda e que é regular e regular. A União Europeia promulga uma média de 17 regulamentações diárias que depois são transcritas em cada país. Para o leite existem mais de 12,600 leis, para o pão 1,264, para almofadas cinco e para o conteúdo das almofadas 109, as escovas de dentes têm direito a 31 leis e as pastas de dentes a 47… Claro que não se pode alegar o desconhecimento da lei, mas imagina-se sem esforço com esta amostra que a todo o momento estaremos sem saber se estamos a cometer alguma ilegalidade, que vai permitir ao Estado estar contra.

De volta do Vietname, no avião, um programa da BBC sobre pinguins explicava que ao fim de dois meses de vida os pais forçavam os filhos para o mar para aprenderem a nadar. Na natureza, cada espécie tem nos seus progenitores um mentor que os prepara para a vida.

Com os seres humanos aconteceu o mesmo, mas depois, com ambos os progenitores obrigados a trabalhar, a escola passou a cumprir essa função, mas pergunto-me se ainda é o caso. Os pais deixaram de o fazer faz muito tempo, pelo menos desde que passaram a ter que se preocupar mais com eles próprios em grandes organizações ou com as suas carreiras, ou simplesmente porque a sociedade deixou de ter uma dimensão humana e tudo passou a ser mais estereotipado.

Não existem mais actividades económicas rentáveis com mestres da sua arte e respectivos aprendizes. Não existe mais a possibilidade de ninguém se dedicar a actividades que não sejam passíveis de se massificar ou industrializar nos seus processos. Como resultado, em lugar de se aprender fazendo, aprende-se em teoria.

Imagino que o mesmo pinguim, se estivesse na mesma fase de desenvolvimento que os seres humanos, não seria atraído para a água ao engano a troco de comida como fazem os pinguins progenitores (isso seria até provavelmente ilegal), para aprender a nadar. O normal seria frequentar uma escola e ter um semestre de teoria sobre os mares e oceanos, a composição da água e a sua salinidade, o conjunto de peixes que fariam parte da sua dieta e que poderiam ser caçados e a identificação dos animais que são os seus predadores. O segundo semestre seria de formação prática numa piscina, seguindo métodos apurados por um pinguim especial que trabalhou uma vida inteira a melhorar esta forma de ensino. Por esta altura uma grande parte dos pinguins já teria abandonado a escola por não serem suficientemente académicos, e uma outra parte já estaria suficientemente cansada de viver com os pais sem saber ainda caçar nos mares.

Por causa dos pinguins recomendo a leitura de ‘’A Ilha dos Pinguins’’ de Anatole France para se perceber como e porquê o Estado ficou do contra, em resultado da história da nossa civilização.

AVISO LEGAL: A informação aqui apresentada é apenas para fins informativos e não constitui uma recomendação de investimento, convite ou oferta para realizar qualquer operação ou transacção. Esta informação não é um reflexo de posições (própria ou de terceiros) firme dos participantes nos mercados de valores. A DIF Broker não tem em conta objetivos de investimento específicos ou situações financeiras particulares. Também não faz qualquer declaração ou assume qualquer responsabilidade sobre a confiabilidade das informações fornecidas ou perda decorrente de investimentos realizados. Este conteúdo é puramente informativo, portanto, não deve ser utilizado para valorizar carteiras ou ativos, nem servir de base para recomendações de investimento. Para os fins informativos deste blog, as decisões de investimento tomadas com base neste conteúdo são da exclusiva responsabilidade do investidor. As operações feitas em seu nome seguindo as recomendações de uma análise, em investimentos particulares e sem limitação, e alavancados, como o comércio de câmbio e investimento em derivados pode ser muito especulativo e, portanto, gerar lucros, mas também perdas. Antes de fazer um investimento ou efectuar uma transacção, deve considerar a sua situação financeira e consultar o seu / s conselheiro / s financeiros / s, a fim de compreender os riscos e considerar se é apropriado à luz da sua situação. Todas as opiniões expressas estão sujeitas a alterações sem aviso prévio. O conteúdo pode mostrar a opinião pessoal do autor que pode não reflectir a opinião da DIF Broker.
Os CFD são instrumentos complexos e apresentam um elevado risco de perda rápida dinheiro devido ao efeito de alavancagem.
79% das contas de investidores não profissionais perdem dinheiro quando negoceiam CFD com este distribuidor.
Deve considerar se compreende como funcionam os CFD e se pode correr o elevado risco de perda do seu dinheiro.