Voltar ao Blog
O dinheiro não está seguro

Sexta-feira dia 1 de Janeiro de 2016 viu a entrada em vigor do novo sistema de ‘’Bail In’’ para o sector bancário Europeu. Este novo modelo para salvar os bancos da falência tem por base a medida adoptada em Chipre em 2013, impondo que os depositantes com mais de 100.000 euros pagassem uma parte dos prejuízos dos seus bancos.  (Para os que não se recordam do que escrevemos em 2013 por favor ler o artigo “Chipre: Bem vindo ao efeito dominó” aqui na página 5 do blog.) Este princípio é aplicado a partir desta data a toda a Europa. Bem, a toda a Europa não é bem assim, porque esta directiva que estabelece o ‘’Bail in’’ ainda não foi transcrita em 6 países. A Comissão Europeia já levantou acções legais no tribunal Europeu contra esses mesmos países, entre os quais se incluem a Holanda e o Luxemburgo, mas também a Suécia, a Roménia a Polónia e a Republica Checa para efectivar a sua total aplicação.

O negócio bancário é sobremaneira especial no actual sistema monetário, porque o dinheiro criado só tem como limite a capacidade de endividamento e é criado por todos os bancos. Dito de outra forma, o dinheiro só existe porque existe dÍvida.

Este facto obriga a que o negócio bancário tenha uma mentalidade de rebanho. O que um faz os outros copiam e as implicações são profundas para os depositantes na eventualidade de haver um problema de liquidez no sistema, ou na eventualidade de o sistema não poder expandir-se mais. ( Ler ensaio sobre dÍvida parte 1 e 2 aqui no blog na página 2)

Ora, a maioria do sistema financeiro está, hoje por hoje, super alavancado com a explosão de dÍvida que sucedeu desde 2008 e super atrofiado com as novas regras do Basileia 3, com as taxas de juro negativas impostas pelos bancos Centrais e com a dificuldades crescentes das pequenas e médias empresas e a necessidade de desalavancagem das grandes empresas. O dinheiro está ainda exposto a riscos significativos (se tivermos em atenção que os governos estão insolventes), assim que as taxas voltarem a subir, ou como diz Janet Yellen, presidente da FED, logo que estas normalizem.

Como sou um optimista, confio que aquilo que estamos a viver no sistema financeiro e monetário seja o equivalente à revolução industrial ou à revolução agrícola com a sua mecanização, porque as regras estão a mudar sem aviso prévio e estamos ainda no meio da crise, ou no princípio, mesmo tendo em conta que já passaram 8 anos desde o seu inÍcio, e sabemos que o sistema bancário já não é aquele que tínhamos.

Certo é que as pessoas ainda acreditam que têm o seu dinheiro guardado no banco mas, na realidade, hoje em dia, o que as pessoas têm é um contrato com o banco (produzido unilateralmente por este), em que depositamos o dinheiro em condições específicas e o banco tem o direito unilateral de alterar essas condições específicas. Em 2016, pelo menos, as pessoas com menos de 100.000 euros no banco ainda vão acreditar que o seu dinheiro estará a salvo, mas estará mesmo? O que não estará certamente a salvo são os fundos de pensões quando tiverem que começar a suportar as perdas de emissões de dívida do sistema financeiro, e certamente pensarão duas vezes quando forem solicitados a subscrever novas emissões de divida. Certo é também que alguns contribuintes pagarão sempre os prejuízos da banca, se não por via da condição de contribuinte sê-lo-á por via de depositante ou ainda como subscritor de fundos de pensões.

À medida que a crise avança no tempo e se agrava, apesar de nos dizerem o contrário, a verdade é que vamos tendo cada vez mais sinais de que o dinheiro quase já não nos pertence. Se pretende depositar dinheiro perguntam-lhe a sua origem, se pretender levantar dinheiro perguntam-lhe o que vai fazer com ele e porque o vai levantar. Não se esquecem no entanto de lhe cobrar todo o tipo de comissões.

Mas o problema não é Português ou Europeu, também nos Estados Unidos foi adoptada legislação que limita o auxílio aos bancos ‘’grandes demais para falirem’’, os famosos ‘’too big to fail’’.  Em teoria, se esta regra estivesse em prática em 2008, não teria sido possível salvar algumas das instituições que foram resgatadas.

A pergunta que fica é, se os bancos não podem ser resgatados na próxima crise a partir de 2016, nos Estados Unidos e na Europa o que vai acontecer?

Esta questão é importante porque as instituições financeiras, apesar de privadas, estão estreitamente ligadas aos governos, porque ajudam a financiar os défices dos Estados e se em dificuldades são ajudados pelos governos desses Estados. Serão só os accionistas, os obrigacionistas e os depositantes, a partir de agora, a resolver o problema? Mas então qual vai ser a motivação das pessoas para fazer depósitos bancários, se podem vir a pagar os prejuízos do banco?

É precisamente aqui que estou optimista porque, na realidade, nem mesmo confiscando todos os depósitos se poderia resolver o problema de dívida que o mundo tem. Sobraria sempre ainda muita dívida, pelo que teremos sempre que evoluir para uma outra coisa. Em 2012, sugeri no livro “Capitalismo sem Capital”, que o Banco Central passasse a ser da Segurança Social, para que a dívida pudesse ser transformada em capital e este ficasse na posse dessa Segurança Social, ou seja, de todos os contribuintes.

Voltando aos bancos, estes estão agora tão regulamentados que bem podem passar por serviços públicos, mas o seu modelo de negócio pode ainda ter que mudar radicalmente. A Suíça, o país dos bancos, vai ter um referendo para que as pessoas se pronunciem sobre a possibilidade de os bancos serem proibidos de criar dinheiro (faculdade que lhes é permitida com o actual sistema) e de essa prerrogativa ser do banco Central. Uma alteração desta natureza obrigaria os bancos a terem 100% de reservas, contra os actuais menos de 5%, ou seja, para emprestar dinheiro teriam primeiro que ter dinheiro de depositantes.

De qualquer forma, o que há a reter é que agora é oficial o entendimento da Comissão Europeia do BCE e dos bancos, que estes nos estão a fazer um favor ao permitir que lhes emprestemos dinheiro com os nossos depósitos sem remuneração.

Na Suíça, já se percebeu que alguma coisa é preciso fazer. Vão tentar agora, com este referendo, e já tentaram com outro sobre o regresso ao padrão ouro em 2014 (ler o Referendo que ninguém falou aqui no blog página 2), uma alteração de paradigma.

Todos sabemos como é o ritual quando o sistema colapsa. Primeiro limitam os levantamentos e depois proíbem o acesso aos bancos durante um determinado período de tempo. Foi assim em Chipre e na Grécia tinha sido assim antes na Islândia. É o que não querem que se repita no resto da Europa.  Não será altura de repensar tudo e se discutir o que é no século XXI o dinheiro?

AVISO LEGAL: A informação aqui apresentada é apenas para fins informativos e não constitui uma recomendação de investimento, convite ou oferta para realizar qualquer operação ou transacção. Esta informação não é um reflexo de posições (própria ou de terceiros) firme dos participantes nos mercados de valores. A DIF Broker não tem em conta objetivos de investimento específicos ou situações financeiras particulares. Também não faz qualquer declaração ou assume qualquer responsabilidade sobre a confiabilidade das informações fornecidas ou perda decorrente de investimentos realizados. Este conteúdo é puramente informativo, portanto, não deve ser utilizado para valorizar carteiras ou ativos, nem servir de base para recomendações de investimento. Para os fins informativos deste blog, as decisões de investimento tomadas com base neste conteúdo são da exclusiva responsabilidade do investidor. As operações feitas em seu nome seguindo as recomendações de uma análise, em investimentos particulares e sem limitação, e alavancados, como o comércio de câmbio e investimento em derivados pode ser muito especulativo e, portanto, gerar lucros, mas também perdas. Antes de fazer um investimento ou efectuar uma transacção, deve considerar a sua situação financeira e consultar o seu / s conselheiro / s financeiros / s, a fim de compreender os riscos e considerar se é apropriado à luz da sua situação. Todas as opiniões expressas estão sujeitas a alterações sem aviso prévio. O conteúdo pode mostrar a opinião pessoal do autor que pode não reflectir a opinião da DIF Broker.
Os CFD são instrumentos complexos e apresentam um elevado risco de perda rápida dinheiro devido ao efeito de alavancagem.
86% das contas de investidores não profissionais perdem dinheiro quando negoceiam CFD com este distribuidor.
Deve considerar se compreende como funcionam os CFD e se pode correr o elevado risco de perda do seu dinheiro.