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Grécia cai não cai?

Com os bancos fechados (durante pelo menos 7 dias), a bolsa de valores igualmente fechada, com intermináveis filas para levantar o seu dinheiro nos bancos (60 euros ao dia) multiplas outras filas para encherem os depósitos nas gasolineiras e em maior numero ainda nos supermercados, demonstram que as pessoas não estavam minimamente preparadas.

Pelo contrario, o que temos estado a fazer ao longo dos últimos anos, é prepararmo-nos para uma situação similar, mesmo que, intimamente, continuemos convencidos que a Grécia não sairá do euro, ainda que possam ocorrer  nacionalizações, falências, ou ‘’default’’ nas responsabilidades financeiras do país, com ou sem restruturação da sua divida. Nada disto confirma a saída do euro e veremos mais adiante porquê.  Primeiramente porque, ao contrário das noticias, que dão conta regularmente de que estão todos a preparar-se para o ‘’Grexit’’, nós estamos, na realidade, a preparar-nos para o fim deste sistema monetário e o inicio de um outro, o que é um problema muito mais abrangente e de que ninguém, ou muito pouca gente fala, porque talvez não interesse para já pensar mais longe.

Pensar um pouco mais longe significaria ver que o problema Grego só tem importância porque representa um verdadeiro dominó, que, se cair, levará a que Portugal, Espanha, Italia e Irlanda sejam os proximos, mas do qual ninguém, provavelmente, estará isento ou ficará de pé. Não está em causa que não haja ainda mais ajudas do BCE, o que está em causa é que, na cabeça dos investidores, com a queda da Grécia aumenta substancialmente a dúvida de que o projecto politico Europeu se mantenha, porque o precedente de abandonar um dos seus, representa  exactamente isso, um precedente. Este com consequências imprevisiveis.

Os gregos sabem muito bem que sair do euro será um desastre e os Europeus sabem que a saída da Grécia pode ser, ao mesmo tempo, um desastre para o euro. O problema não é que esta situação seja irresoluvel, o problema é que, mesmo que se resolva, esse problema voltará dentro de seis meses. Isto porque esta questão da divida não tem solução para a Grécia , nem para Portugal nem para Itália nem para qualquer outro país da Europa Ocidental. Este sim, é o verdadeiro problema que não desaparecerá enquanto não se sair desta situação igual à da pescadinha de rabo na boca, que o mesmo é dizer aumentar o endividamento para pagar mantendo os mesmos conceitos até agora utilizados desde 2008. Enquanto não se sair daqui, tudo o que se está a fazer é comprar tempo.

Convém talvez recordar o ditado que diz que tudo o que nasce torto tarde ou nunca se endireita. A entrada da Grécia no euro resultou de uma manipulação de números, criada pela Goldman Sachs e que teve como cérebro o senhor Mario Draghi, actual governador do BCE, o que não deixa de ser irónico.

É o momento de nos questionarmos que implicações poderão ter os cerca de cento e trinta mil (130 000) milhões de divida grega que está a servir de colateral se, eventualmente, a Grécia decidir abandonar a Zona Euro?

Convém aqui lembrar também que esta União Europeia de há muito decidiu claramente proteger prioritariamente os interesses dos bancos e dos investidores e por isso nos encontramos na situação actual.

A questão que toda a gente pretende ver respondida é o que vai acontecer agora? Há para esta questão, infelizmente, várias respostas e como tal não uma só.  Se, no referendo ganhar o “não”, o Governo Tsipras ganha a intenção de voto mas entra imediata e automáticamente em “default” .

Com o default automático É preciso saber se ele será organizado (com o apoio da troika) ou não organizado. Se não for organizado a banca será imediatamente nacionalizada e os funcionários públicos e pensionistas provavelmente passarão a receber uma parte das suas mensalidades em divida publica criada numa nova moeda.

Se o Sim ganhar então é o Governo de Tsipras que perde, e como tal cairá, o que implica novas eleições e uma espera até que as negociações possam ser retomadas. Durante essa espera é possível que seja criada uma moeda paralela, os funcionários públicos e pensionistas provavelmente não poderão ser pagos e em função dos acontecimentos se verá se a Grécia sai ou não do Euro mesmo que não haja leis ou regulamentação que o preveja. Depende também de como irá decorrer o período de controlo de capitais hoje iniciado.

Podem ainda obviamente acontecer outras politiquices entretanto embora remotas, como por exemplo a Troika decidir encontrar um compromisso, a Grécia conseguir um empréstimo fora do âmbito da zona euro (China ou Rússia) para pagar ao FMI, ou ainda o governo Tsipras demissionar antes do referendo de dia 5.

A última hora do dia 30 de Junho irá ajudar a clarificar algumas coisas. Primeiro saber se o FMI utiliza os 30 dias que tem ao seu dispor para decretar se houve ou não default. Se esse default é imediatamente reconhecido, as obrigações Gregas deixam de poder ser utilizadas para colateral e o BCE automaticamente retira o seu programa ELA de auxilio aos bancos.

Infelizmente ou felizmente, o problema não se limita à Grécia em caso de default. É preciso equacionar as consequências dos 95 mil milhões de divida Grega que está a colateralizar o programa ELA (não valerá nada) já referido acima, e mais 35 mil milhões que estão a colateralizar obrigações emitidas pelo EFSF European Financial Stability Fund. Já agora recordar ainda que dos 300.000 milhões de divida que a Grécia tem 200.000 milhões estão justamente entre o EFSF e o ESM European Stability Mechanism, mecanismos europeus que garantem também os outros países. Um verdadeiro faz de conta.

Para todos os observadores atentos o importante é que não haverá solução, fica claro que o problema não é politico é mesmo matemático, e na melhor das hipóteses será adiado. O adiamento é aquilo que as partes procuraram nos últimos 5 meses sem chegarem a nenhuma conclusão.

Para esses mesmos observadores o importante é retirar ilações como o deveriam ter feito anteriormente com o Chipre, e obviamente o publico Grego não retirou, porque senão não estariam nas imensas filas para levantar dinheiro.
As pessoas ainda acreditam que têm o seu dinheiro à guarda no banco, mas hoje em dia o que as pessoas têm é um contrato com o banco (produzido unilateralmente por este) em que depositamos dinheiro em condições especificas e o banco tem o direito unilateralmente de alterar essas condições especificas sempre que tiver o apoio das autoridades.

Esta questão do apoio das autoridades é significativo porque as instituições financeiras apesar de privadas estão estreitamente ligadas aos governos, porque ajudam a financiar os défices dos Estados e quando em dificuldades são ajudados pelos governos e estão tão regulamentados que podem bem passar agora por serviços públicos.

à medida que a crise avança no tempo e se agrava, apesar de nos dizerem o contrário, a verdade é que vamos tendo cada vez mais sinais que o dinheiro quase não nos pertence. Se depositar dinheiro perguntam-lhe a sua origem, se pretender levantar dinheiro perguntam-lhe o que vai fazer com ele e porque o vai levantar. No entretanto não se esquecem de lhe cobrar todo o tipo de comissões e se necessário como acontece na Grécia e aconteceu no Chipre e na Islandia fecham as portas por periodo indeterminado.

Muita gente quer acreditar que o problema está na Grécia.

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