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ONDE FALAMOS DE BOLSA
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Europa tem plano de contingência?

A historia tem mostrado que sempre que os governos fazem esforços para manipular os mercados, os efeitos positivos de curto prazo acabam por ter consequências mais desastrosas no longo prazo.
Correndo o risco de ser inconveniente ao dizer que os politicos tendem a reagir de forma errada a verdade é que as suas politicas provocam incentivos errados, distorcem a informação daqueles que procuram gerir racionalmente e acabam por colocar a economia em pior situação.

Gostaria de clarificar que não me refiro a Portugal. A analise que sou obrigado a fazer aos mercados globais levam-me a extrapolar um raciocinio global e é essa analise que me leva a ver coisas que temos normalmente dificuldades em admitir. Alguém se recorda quando foi que Portugal teve o seu último orçamento equilibrado? Claro que ninguém se lembra como não se lembram os Franceses porque o último orçamento equilibrado foi no ano anterior ao da eleição de Giscard d’Estaing em 1974. Mas lembram-se os Americanos que nos últimos 2 anos do mandato de Clinton foi excedentário no final do século XX, mas antes desses 2 anos o anterior orçamento equilibrado tinha sido em 1957, já na geração anterior. Como se vê a divida não é um assunto recente apesar de só agora ser discutido todos os dias.

A divida desde o final do padrão ouro em 1971 é absolutamente essencial para o sistema bancário, para os governos, as famílias porque o actual modelo monetário está garantido por divida. Ora o crescimento da divida é exponencial enquanto que o crescimento económico é linear, o que invariavelmente resultará no colapso. Como disse Herbert Stein, se algo não pode continuar eternamente, pára. Essa é a situação em que estamos neste momento a parar. O problema não é só a divida é sobretudo os juros dessa divida, apesar de em muitos desses países estarem em minimos históricos. Esse dinheiro cada vez ocupa mais espaço no orçamento e faz com que o serviço publico seja financiado a crédito, enquanto o produto do trabalho cada vez tem mais impostos, para pagar uma divida que cada vez cresce mais. Este é um circulo vicioso que resulta numa imensidão de problemas Vejamos alguns:

1 – Um governo não pode apropriar-se de toda a riqueza do país. O normal seria gastar só aquilo que pode cobrar em impostos e a pressão fiscal na Europa já está acima dos 50%.
2 – O pagamento desses juros está agora em terceiro lugar nas despesas do Estado.
3– Uma sociedade dividida entre os que têm e os que não têm, sem a almofada da classe média, está destinada ao fracasso. A razão pela qual não dividimos a sociedade entre ricos e pobres é porque a interpretação não se limita ao dinheiro e é extensivel aos que têm o poder de controlar e os que não têm (sector publico e privado) aos que têm o poder de interpretar a legislação e os que não têm ( justiça com advogados)
4- Os jovens deveriam poder acreditar num futuro melhor que o da geração anterior e não estarem amarrados às responsabilidades financeiras e sociais criadas pela geração anterior.
5- A produtividade de uma sociedade não pode aumentar quando o sector da educação condiciona a futura geração às ideias que nos trouxeram aqui, não incentivando o empreendedorismo.
6- A riqueza no modelo actual só pode ser criada quando se constrói algo ou faz crescer algo, mas não pode ser conseguido sem energia barata e a energia tornou-se um bem escasso.
7- A produtividade e a riqueza só podem ser suportadas num enquadramento legal sólido de princípios simples que sejam do conhecimento de todos e que por todos podem ser respeitados. Isso não acontece quando as leis são modificadas constantemente à medida que mudam as legislaturas ou que sofrem as influências dos lobies e vão-se acumulando ao ponto de se ter criado uma actividade como a arbitragem legislativa.
8- A essência da prosperidade está na individualidade e não nos governos. O que estes têm feito é baixar regularmente o nível de conceito de riqueza para que a base de tributação seja sempre maior.
9- O conceito de grande empresa deve ser repensado porque a produtividade está inversamente correlacionada com o desemprego, tal como o desenvolvimento tecnológico.
10- Procurar um emprego vai ser mais e mais dificil, e trabalhar por conta própria deveria ser de novo a tendência, não fosse a regulamentação de qualquer actividade e a burocracia um impedimento.
11- As taxas de juro são neste contexto um factor extremamente importante porque cada subida de 1% representa um custo adicional de muitos milhares de milhões e acelera o processo de falências em dominó.
12- O problema social é iminente porque quando as pessoas perdem tudo e já não têm nada a perder, acabam por perder a cabeça.

Parece portanto difícil que o mundo evite uma situação mais grave nos próximos meses. Atendendo a que a Grécia está neste momento a negociar com os seus credores este parece ser o momento oportuno para perguntar se existe em termos politicos algum plano de contingência para a eventualidade de a Grécia e os seus credores não chegarem a acordo até 20 de Março que é a data para os Gregos pagarem 14 mil milhões de divida que se vencem. Os politicos e os reguladores foram lestos a exigir planos de contingencia aos serviços financeiros depois da crise do Banco Lehman em 2008 e muito bem, a questão que se coloca agora é saber se os mesmos politicos fizeram eles próprios aquilo que tão bem sabem impôr aos outros. A situação por ser politica pode parecer despropositada mas não é, e permito-me explicar porquê:
1- Nos últimos dois anos tudo foi feito para mascarar a situação dramática do sector financeiro europeu e nenhuma medida de fundo foi tomada que tivesse abordado alguns dos pontos abordados acima.
2- A eventualidade de um default Grego pode ter implicações no BCE, nos Credit Default Swaps e respectivas contrapartes, colocando em causa o sistema financeiro Europeu e depois o sistema monetário no seu conjunto, apesar de tecnicamente o BCE estar à margem destas negociações e os CDS não serem tecnicamente activados se os credores ‘’aceitarem’’ a troca. O imbrógio legal é tremendo.
3- Um default Grego reformula automaticamente o conceito de divida soberana Europeia e o mito da sua segurança pelo que coloca em risco a restante Europa e provavelmente o restante mundo ocidental.
4- A probabilidade de uma sucessão de defaults levará eventualmente à eliminação total de qualquer novo financiamento, provávelmente de qualquer tipo.
5- Todos os fundos de pensões que têm por base divida soberana tornar-se-iam automaticamente insolventes agravando a situação social.
6- Os fundos já fornecidos pela Troika à Grécia são divida subordinada, pelo que um incumprimento levantará certamente a relevância ou não da divida subordinada e da legislação que lhe dá suporte, com implicações em toda a restante divida subordinada na Europa.

As perguntas que se podem fazer é se esses planos de contingência a existir incluem:
1- A compra total da divida Grega?
2-  Uma desvalorização unilateral do euro?
3-  A transformação total da divida existente em Eurobonds e a emissão de nova divida feita individualmente pelos respectivos países emitentes sujeitas aos preços dos mercados?
4- O desencadear de uma guerra para criar um problema maior e diminuir a relevância deste?
5- O desencadear de uma guerra com o intuito de diminuir a capacidade instalada e equilibrar a oferta com a procura?
6- A criação de um novo paradigma financeiro?
7-      Europa a duas velocidades
8- Outras soluções contempladas no plano de contingência?

Seria óptimo conhecer esse plano de contingência já seria bom saber que ele existe, porque a confiança no sistema financeiro é a esperança que todos os depositantes não peçam o levantamento do dinheiro ao mesmo tempo, atendendo a que a maioria desse dinheiro está aplicado em investimentos não muito…líquidos.