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Esta economia de faz de conta pode acabar mal

Em 23 de Janeiro escrevi aqui que os acontecimentos no mercado eram o inicio de uma crise ou paradoxalmente uma oportunidade. Quase dois meses depois atingimos a segunda fase do problema que estava na base daqueles acontecimentos e traz com ela o que parece ser já pânico em relação à moeda americana, o dollar.

Justifica-se por tudo isto uma nova comunicação sobre os mercados. Convém aqui dizer que estes escritos são uma visão pessoal, carregada das inevitáveis dúvidas de quem sabe que os acontecimentos apesar de previsíveis, se desenrolam de forma autónoma e sempre surpreendente.

Comecemos pelo ouro e pelos índices. De acordo com o que escrevi em 23 de Janeiro a estratégia correcta seria comprar ouro e vender os índices. Foi Isso exactamente o que aconteceu, mas a forma como isso aconteceu não permitiu muitas vantagens em termos práticos. Todos sabem que é na base da análise técnica que vejo os mercados. É essa análise que permite avaliar o risco implícito no mercado, para além da sua direcção. Os movimentos de impulso acontecem sempre depois de um movimento de correcção e isso, surpreendentemente, não aconteceu desde Janeiro tornando difíceis posições direccionais.

Os acontecimentos deste fim de semana com o Bear Sterns, o quinto maior banco de investimento dos Estados Unidos, é um grito de alerta para todos os investidores porque estamos em ”mares nunca dantes navegados” e, provavelmente, mais próximos daquilo que titulei ‘o rebentamento final” em 26 de Fevereiro. Estamos provavelmente perante uma crise financeira de proporções impensáveis mas, mais grave ainda, estamos perante uma crise que tem a rapidez de um tsunami e a mesma capacidade de destruição.

Vamos recapitular. Na segunda feira 17 de Março o mercado acorda sabendo que no domingo o Banco Bear Stern foi vendido ao JP Morgan por 2 $ usd por acção quando o banco cotava a 26 $ usd  no fecho da sessão anterior. Apesar de já não ser normal um banco perder 90% do seu valor num fim de semana, o financiamento da compra pelo JP Morgan é ainda mais anormal porque é financiado a 100% pelo FED o Banco Central americano. Como administrador da DIF gostaria de ter tido a oportunidade de fechar um negócio deste tipo para a corretagem em Portugal. Objectivamente, o que isto quer dizer, é que a situação é tão má que são necessárias medidas únicas próprias para situações desesperadas.

Vamos agora recapitular o porquê das medidas desesperadas. A falência de um grande banco causaria um efeito em cascata em todas as outras instituições a que estivesse ligado pelas suas posições em derivados, a começar provávelmente pelo próprio JP Morgan. O tamanho do mercado de derivados é de 600 triliões de dólares para uma riqueza mundial de quase 10 vezes menos e a complexidade destes derivados pode ter implicações em relação à economia mundial que não são ainda óbvias.

Esta crise tem origem no mercado imobiliário, uma área que se tornou o ganha pão do sistema financeiro, e está a infectar todo esse sistema financeiro por via da fragilidade do dólar. Curiosamente, em função dos acontecimentos, o que seria normal seria a valorização do ouro contra todas as moedas, mas eis que, surpreendentemente, o euro aparece como sendo uma moeda refugio, criando ainda mais distorções no mercado.

Na actual crise o FED tomou a decisão de fazer o oposto ao que fez em 1929, inundando o mercado de liquidez. Esta politica está a desvalorizar o dólar e pode desvaloriza-lo ainda muito mais.

Em termos práticos, para o investidor, estes momentos são terríveis porque os níveis de risco são muito elevados e estão na inversa proporção das oportunidades. O cross eur/usd ou o usd/yen ou o ouro vão certamente ver a continuidade dos seus movimentos recentes a longo prazo, mas podem a qualquer momento ter movimentos de correcção importantes, seja por intervenções das autoridades, ou por força de outros acontecimentos agora imprevisíveis.

Não tenho nenhuma experiência vivida com o que está a acontecer com a moeda padrão internacional, mas todos sabemos o que aconteceu ao Brasil e à Argentina em anos ainda recentes com a desvalorização das suas moedas. Pode estar a economia americana imune a uma situação idêntica? E estaria porquê? Porque é a moeda de referência? Penso que não! Veremos certamente subidas no mercado americano, provavelmente veremos até subidas dentro de pouco tempo, mas pensar que podem ser subidas reais será uma ilusão, porque só poderão estar ligadas à desvalorização da moeda e à inflação.

As medidas tomadas pelo FED não estão, por enquanto, a ter o resultado esperado pelo seu Governador Bernanke, porque os contornos totais da situação não se resolvem com equações matemáticas, e estão intrincadas na confiança dos participantes do mercado. Confiança é algo que se ganha todos os dias no sector financeiro mas que se perde num instante. O mercado está a quebrar os diferentes níveis de confiança e é isso que está em causa. Hoje todas as instituições financeiras viram os seus níveis de margem baixar para efeitos de colateral na negociação de CFDs, todos sem excepção foram para o nível mais baixo, porque a qualidade do risco do sector financeiro baixou. As implicações imediatas são o fecho de posições para manter o mesmo nível de risco ou o aumento de margens. O mesmo se passa ao nível dos institucionais. Na semana passada o Fundo Carlyle teve uma chamada à margem de 97 milhões de dólares, um montante que não parece muito importante na escala financeira actual, mas, ainda assim, não foi possível ao fundo obter esse dinheiro e por isso fechou. Por cada dólar do fundo a Carlyle tinha 31 dólares investidos, compreende-se que com este tipo de alavancagem qualquer situação contrária como um aumento de margens em função do risco pode ser dramático.

Neste momento o sector financeiro não reage como Bernanke pretende porque ninguém sabe quem é o próximo interveniente que não está já em condições de pagar.

A ganância do sistema financeiro é responsável pela situação actual. A constante necessidade de apresentar resultados irreais por parte dos bancos explica-se agora com a necessidade de criar uma riqueza virtual, que não tinha suporte real. Imagino que não é mais possível aos bancos manter os mitos sobre a noção de risco que veicularam nos últimos anos, porque obviamente não eram eles próprios conhecedores da noção desse risco.

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