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Do capitalismo para o socialismo. Do mercado para a politica

Sem que os cidadãos percebam bem o que se está a passar, estão bem atentos aos acontecimentos e têm plena consciência de que vivemos um momento histórico. É bem verdade que os nossos políticos não estão minimamente interessados em que a população se familiarize com as questões económicas, antes a fazem crer tratar-se de matéria para especialistas, muito menos encaram a possibilidade de formar a juventude para que tenha uma melhor noção, quer dos rudimentos da economia, quer da forma de os utilizar quando se depara com a necessidade de empreender. Pelo contrário, o que se ouve são pretensas soluções, complicadas, apresentadas numa linguagem ainda mais complicada e hermética, facilitando a criação, entre a população, da ideia de que se trata de matéria para especialistas.

 

Este procedimento tem dois impactos. O primeiro é fazer que os jovens pensem que o dinheiro vem unicamente das máquinas ATM, o segundo, mais sério, é que, perdendo as suas referências, a sociedade só se acalma quando constata a intervenção dos “sábios”.

 

Não deve espantar pois que os políticos estejam permanentemente a socorrer-se de grupos de sábios, barões e outro tipo de especialistas, para transmitir alguma tranquilidade às populações

 

Os mercados sofrem dos mesmos problemas. Joga-se no mercado, não se investe no mercado. Usa-se o mercado para fazer privatizações e para justificar muitos dos problemas da economia,   como aconteceu recentemente com as cotações do petróleo e do trigo.

 

Ninguém está interessado em prestar verdadeira atenção aos mercados de capitais, ninguém está interessado em que se pare de olhar e se comece a ver. Por ver, é importante lembrar agora que o que se vê no mercado é só o reflexo de algo bem mais importante. Na realidade é o efeito e não a causa, é o sintoma e não a doença.

 

Vivemos agora uma crise histórica e convinha tirar disso lições históricas, a começar por não se procurarem culpados como sempre acontece. Os verdadeiros culpados desta crise são muitos e começam nos governos, independentemente dos partidos que o constituem, nos bancos centrais, nas agências de rating, nos reguladores, nos bancos, nas seguradoras, nos fundos de pensões, nas Bolsas. Claro que existem mais responsáveis, provávelmente nós todos.

 

Na atribuição das responsabilidades seria interessante definir se é importante ou não encontrar as pessoas responsáveis pela situação que se vive. Na sociedade em que estamos inseridos, toda ela regulamentada ao pormenor mas cada vez mais consciente da inutilidade da maioria da regulamentação, muitas vezes esquece-se que a responsabilidade tem um nome.

 

Os exemplos estão no nosso dia a dia só que realmente não queremos vê-los. O trânsito pode ser um deles, nas suas múltiplas vertentes. Os automobilistas são taxados, multados, alertados para os índices de mortalidade que se registam nas estradas e no entanto o enfoque de quem pretende entrar neste “maravilhoso” mundo policiado das estradas continua a ser como tirar a carta e não como saber conduzir. Desde que se obtenha a carta e se possa ir para a estrada isso é muito mais importante que saber conduzir. Esta capacidade de se focar o que é secundário é exclusivo dos humanos, nos restantes animais não lhes são permitidas distracções com o que não é importante porque isso representa quase sempre a morte. È por isso, para eles, fatal.

 

Mas a sociedade habituou-se, a pretexto de salvaguardar os interesses das pessoas e da sociedade no seu conjunto, a viver desta forma desfocada questões importantes Na estrada registam-se acidentes enquanto se usa o telefone. Proíbe-se o uso do telefone, multa-se o prevaricador, mas ninguém cuida de verificar se sabe ou não conduzir. No mercado de capitais o absurdo é ainda maior, o investidor tem que afirmar conhecer os produtos antes de os poder negociar porque só assim tem perfeita noção do risco em que incorre. Imagine-se pedir-se o mesmo a um doente que vai ser operado: O senhor tem conhecimentos sobre cirurgia para avaliar os riscos da sua operação? Porque se não tem não pode ser operado

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A formação na área do investimento é medíocre e elitista ficando-se pelos conceitos de investimento, algo bem diferente do que seria aprender a investir.   Mas, em contrapartida, o sector não é parco em regulamentação e para os menos atentos daí a surpresa pela actual situação. Para os mais atentos a única surpresa está na rapidez dos acontecimentos. Mas recapitulemos. Nos últimos 10 anos a sociedade viveu um crescimento exponencial do crédito sem que ninguém se tivesse interessado em saber como, de um momento para o outro, isso passou a ser possível. O nível de conforto das pessoas aumentou na razão directa do seu endividamento e os políticos foram falando de crises mais ou menos importantes, da inflação e do desemprego. Para a população a linguagem era a mesma, mas os conceitos eram novos: Consumir era importante para fazer crescer a economia, o acesso ao crédito essencial para permitir maiores níveis de conforto. A forma como isso era conseguido não era importante. Afinal o mundo vivia mais feliz. Já agora, atendendo a que os governos não sabiam e são governos, é provável que as pessoas que me leiam também não saibam, por isso é melhor explicar: Tudo isto só foi possível com crédito.

 

Para que estes níveis de consumo fossem possíveis os bancos tiveram que criar produtos que os fizeram passar a viver uma economia diferente da economia real e ninguém achou anormal. Por exemplo, os bancos cresciam a taxas de 20% ao ano e o sector representa cerca de 20% da economia, mas era normal o País crescer a taxas de 1%. Ninguém achou por bem perguntar como isso era possível. Seria que 80% da economia “crescia” a taxas negativas?

 

Voltando aos bancos. O seu crescimento passou a ser enorme quando comparado com o PIB dos respectivos países e a dimensão da divida dos governos desses mesmos países. Por exemplo,  nos Estados Unidos as responsabilidades do sector bancário são de 200% a divida do governo federal. Esta é, para quem não sabe, superior à totalidade da divida do resto do mundo,

Na Irlanda, na Bélgica, em Espanha e no Reino Unido está entre os 600 e os 1000%. Na Suíça, o país dos bancos, a responsabilidade destes é de 3000% em relação à divida do governo.

 

Pode haver gente que esteja confundida com a divida dos governos. Na linguagem politica a divida anual chama-se deficit orçamental. Na linguagem das famílias, chama-se problema no orçamento familiar. Aqui reside simultaneamente o problema e a solução. Como já perceberam, o endividamento tem sido um problema só para as famílias, não o tem sido nem para os governos nem para o sector bancário. A minha proposta vai, pois, para que se elimine o problema das famílias, resolvendo dessa forma o problema dos bancos. Creio que a adopção desta solução se poderia considerar uma nova ordem financeira.

 

Os números

 

Os números são, neste momento, o foco de interesse de todos os jornais. Faz parte dos hábitos da sociedade em que vivemos comunicar de forma curta, rápida, mesmo que o numero não represente coisa nenhuma. Olhando para as primeiras páginas, ficamos a saber que o custo da operação ”Salvar os Bancos” ficará na Europa entre os 1.3 e os 1.9 triliões de euros e muitos bancos estão a ser nacionalizados, para dar mais confiança às populações. As populações também ficaram mais confiantes com as intervenções governamentais depois do 11 de Setembro. Passamos mais tempo nos aeroportos, temos passaportes electrónicos, pagamos um custo pela segurança, aceitamos ser apalpados e não podemos levar nem pasta de dentes nem espuma de barbear. Actualmente podemos esperar mais… confiança, com a intervenção do estado na Banca. Não creio que se esteja à espera de mais estabilidade ou mais prosperidade.

 

Também não creio que se esteja à espera de recriar um modelo comunista ou socializante, já que todos sabemos que não funciona. Pode dizer-se que assim como o comunismo caiu com a queda do mundo de Berlim o capitalismo caiu com as nacionalizações da Banca hipotecaria e da seguradora AIG nos Estados Unidos.   Assim  ninguém se pode rir do outro. A solução estará  na implementação de uma terceira via.

 

A terceira via

 

Em condições normais  seria preciso dinheiro para a operação ”salvar a banca”. Para isso existem os mercados, mas neste caso não parece viável que se recorra ao mercado. A alternativa costumava ser aumentar os impostos, algo de impensável nesta crise. Afinal de contas os banqueiros foram salvos, não ia ser agora a população quem iria pagar a crise. A terceira via é imprimir moeda. Afinal de contas desde os anos 90 que o mundo, através da banca, acumula dividas com a securitização que se mantinha suspensa no espaço sideral sob a forma de derivados com designações anónimas.  Este montante securitizado é de cerca de 640 triliões de dólares, ou seja, quase 10 vezes a riqueza total do mundo medida pelo PIB. Todos vivíamos bem com isso porque a maioria não sabia que ali estava, por isso creio que se pode transformar esse montante em liquidez e distribuir pelas famílias. Afinal de contas estão lá os empréstimos para as casas, os carros, os equipamentos, as dividas dos países não cobradas (recordam-se dos impostos Portugueses terem securitizado os montantes não cobrados?). Está lá tudo, por isso ou se risca essa divida ou se cria o dinheiro que isso representa.

 

Não sei se é aqui que deve entrar o debate político, porque os políticos também o não sabiam e o pior que se pode fazer é pedir a opinião a pessoas que não sabem. A democracia é uma coisa maravilhosa porque todos emitem opinião sobre aquilo que não sabem,  ’’ vamos recapitalizar a banca, ou vamos nacionalizar, deve o governo pagar os erros dos ricos, ou simplesmente salvar os erros dos pobres que estão a ficar sem casa? Mas será que não é possível aumentar o poder de compra das populações e evitar o desemprego?

 

Os políticos estão sem soluções, felizmente para eles são políticos e por isso não lhes serão cobrados os erros que possam ter cometido ou possam cometer, espero aliás que não se punam mais os erros de ninguém e que o caso Lehman tenha sido sido o último. Voltando aos políticos, os americanos aprovaram a compra de produtos derivados designados por tóxicos (antes não eram tóxicos), mas agora vão comprar participações nos bancos. Não foi o que estava combinado mas esta solução é melhor e mais rápida. Tudo agora é mais rápido. Antigamente era preciso convocar uma AG, cumprir os prazos, fazer aprovar as decisões pelas entidades de supervisão etc., mas agora pela exigência da situação, não. Talvez se possa estender esta metodologia a todas as empresas, talvez tudo possa ser mais rápido, os reguladores a tratar com todos os regulados de forma expedita. Não há razão para que não seja assim. Os mercados já não são livres, são mais que isso. São entidades preservadas pelos governos. A terceira via implica que se tenha um conceito de liberdade diferente nos mercados, um pouco à semelhança da nossa liberdade democrática.

 

Nesta primeira fase a liberdade de alguns bancos é maior que a de outros porque a divida lhes é garantida pelo Estado nos próximos 3 anos. Existem ainda alguns problemas que os políticos vão ter que resolver para implementar esta terceira via com segurança. A injecção de liquidez no sistema para salvar as famílias pode dar origem a inflação. Na antiga economia isso era certo e muitos participantes estão viciados nisso. Por exemplo, o Mitsubishi subscreveu acções preferenciais do Banco Morgan Stanley com rendimento de 10% ao ano. Warren Buffet fez o mesmo relativamente ao banco Goldman Sachs e o Tesouro Americano também emprestou dinheiro à seguradora AIG a taxas de 11%, ora isto faz prever inflação no futuro, algo incompatível com taxas de referência em dólares a 1,5% ou com taxas de referência de outras moedas também em queda.

De qualquer forma como dizem os Brasileiros no fim tudo acabará em bem e se ainda não está bem é porque não chegou ao fim.

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