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‘’Dividocracia’’ vence democracia por KO

A palavra dividocracia não existe mas vai passar a existir porque é a nova forma de democracia do século XXI. Tem por base a dívida.
Convém talvez recordar que a democracia surgiu em Atenas no ano 508 antes de Cristo. Antes de 508 AC o povo de Atenas vivia um sistema conhecido por draconiano que vem do nome do legislador grego Draco, que editou um código de leis para Atenas que tinha a particularidade de prever sanções extremamente pesadas mesmo para crimes de mínima importância. A palavra ainda se mantém.

A democracia criada em 508 AC não era um lugar de gente similar mas sim de gente diferente, para que essas pessoas diferentes, apesar das diferenças, pudessem viver juntas e sem violência.

Mas voltemos à dividocracia. É uma nova forma de organização social que atribui a titularidade do poder aquele que tem o dinheiro e se sente com o direito moral para garantir o pagamento da divida independentemente do resultado democrático. Não é uma forma de organização social, não requer mecanismos de participação directa, mas mantém uma forma de participação indirecta com os eleitos das democracias locais.

A dividocracia, de que Wolfgang Schaeuble e o Eurogrupo são agora o seu expoente máximo, confere uma legitimidade aos seus representantes para estabelecerem acordos com base nos mecanismos contratuais.
Vem esta reflexão a propósito dos títulos de alguns jornais gregos depois do 3º resgate da Grécia: ‘’Grécia em Auschwitz, Schaeuble em busca de um holocausto na Europa’’ no DemoKratia, e ‘’Afundem o país ordena Wolfgang Schaeuble’’, título do Efimerida Ton Syntakton. Apesar dos títulos bombásticos não deixa de ser verdade que a Alemanha do euro e da União Europeia conseguiu expandir a sua influência sobre 28 Estados de uma forma só conseguida com o recurso a grandes guerras.

Porquê equiparar isto a uma guerra estarão agora certamente alguns a perguntar? Porque o acordo feito com a Grécia foi deliberadamente punitivo ao agravar as condições propostas uma semana antes, com o único intuito de demonstrar a força de quem manda.

De acordo com um livro de 2011 de Jim Rickards com o título ‘’Currency Wars’’, o governo dos Estados Unidos em 2009 organizou e patrocinou um jogo de guerra em que as regras eram a exclusiva utilização de instrumentos financeiros em vez dos habituais equipamentos bélicos.

O cenário desse jogo envolvia a Rússia a China, o ouro e a destruição da moeda americana no seguimento de uma sequência de eventos geopolíticos.

Curiosamente ou talvez não a importância do ouro no sistema monetário internacional revelou tornar-se muito mais importante desde 2009 com a Rússia e a China, por exemplo, a acumularem reservas de ouro em enormes quantidades e inúmeros países, entre os quais a Alemanha, a pedirem o repatriamento do seu ouro dos cofres americanos e ingleses onde se encontram depositados. Não menos importante é a criação do Asian Infrastructure Investment Bank com o intuito de diminuir em importância organismos como o Banco Mundial e o FMI, dominados pelos Estados Unidos.

A guerra do século XXI é financeira e económica e a Alemanha tem a sua estratégia nesta guerra e aplica na prática aquilo que certamente simula em jogos de guerra.

É curioso como sugere por exemplo, a saída da Grécia do euro apesar de não haver mecanismos de saída para nenhum país do euro excepto para a Alemanha. Este facto pressupõe estratégia, porque se não interessa resolver situações como a da Grécia então podia simplesmente sair do euro porque foi o único país que entrou com essa garantia.

Ora o fecho dos bancos na Grécia pode ser equiparado a um qualquer cerco realizado na idade média a uma qualquer cidade, feito com o objectivo de conquista. Outros exemplos recentes desta guerra mundial a nível financeiro estão na limitação de meios de pagamentos ou de acesso à rede SWIFT, que equivale a cortar o acesso ao sistema financeiro global.

O Irão, excluído pelos Estados Unidos da rede SWIFT, viu a partir desse momento a sua economia deteriorar-se em larga escala, no que eventualmente terá permitido facilitar a assinatura do recente acordo sobre energia nuclear. O regresso à rede SWIFT faz parte do acordo assinado.

A mesma estratégia foi tentada com a Rússia, tendo esta reagido energicamente dizendo que a sua inibição de acesso seria considerada um acto de guerra, pelo que ninguém deve ficar surpreendido ao saber que a China quer criar o seu próprio sistema SWIFT.

O GAFI (Grupo de Acção Financeira contra a lavagem do dinheiro e o financiamento do terrorismo) é uma organização intergovernamental liderada pelos Estados Unidos que actua visando gerar vontade politica mas que mais não é que uma forma de implementar vontade politica.

A dividocracia, Europeia imposta pela Alemanha busca o controlo financeiro e o controlo político Europeu. A estratégia, imagina-se conscientemente pensada, seguiu o seguinte trajecto:
1 – Conceder crédito aos países com acesso limitado a este. Uso e abuso desse crédito para consumo de produtos originários dos países que concederam o crédito.
2 – Quando o crédito atinge proporções dificilmente suportáveis, pedido de aumento do colateral, baixa do ‘rating’.
3 – Resgate do país, no que é sobretudo uma garantia de resgate das instituições financeiras que abriram as válvulas do crédito.

A estratégia americana de sanções económicas e financeiras vem largamente documentada no livro ‘’Confessions of an economic hit man’’, de John Perkins, estratégia essa com o objectivo de controlar escravizando pela dívida e a utilização de organizações artificiais como o Banco Mundial ou o FMI.

Schaeuble, com a colaboração dos bancos alemães, aplicou aos países do sul a mesma estratégia, primeiro trazendo o crédito, depois vendendo os produtos aos devedores (Mercedes, BMW e Audi), finalmente comprando activos a preços reduzidos como, por exemplo, dívida desses países, imobiliário ou privatizações. Com as crises dos países do sul conseguiu também desvalorizar o euro permitindo com isso um novo impulso às exportações alemãs e ainda taxas de juro negativas para a sua dívida.

O resultado final desta estratégia é uma zona de influência equivalente à da Alemanha Nazi sem nunca ter invadido militarmente nenhum país, só financeira e economicamente.

As estratégias de guerra financeira não são novas como já referidas. Em 1956, as finanças públicas do Reino Unido estavam em estado crítico e como um problema nunca vem só o presidente do Egipto decidiu nesse momento nacionalizar o Canal de Suez colocando em risco o aprovisionamento do Reino Unido em petróleo. Para agravar as coisas a Arábia Saudita decide embargar o petróleo ao Reino Unido. A Inglaterra pede auxílio ao FMI mas este é recusado pelos Estados Unidos que ameaçam vender dívida inglesa criando assim um verdadeiro problema, porque isso implicaria o aumento das taxas de juro. A estratégia resulta e os Estados Unidos agarram a oportunidade para ganhar influência na região, enquanto o Reino Unido perde a sua hegemonia imperial.

Os políticos dos países endividados deveriam saber que não existe liberdade sem liberdade financeira. A liberdade não nos é dada por políticos nem atribuída pelo voto como ficou claro agora para os gregos, e como espero que seja claro para os outros países em situação de desequilíbrios financeiros. É bonito fazer referendos e ter eleições mas se os povos e os políticos seus representantes não derem verdadeira importância à liberdade financeira o exercício democrático não representará nada, ou só isso mesmo, um exercício.
Governos e famílias têm que produzir mais do que aquilo que consomem, porque senão, perdem a liberdade. Este paradigma é aquele que deve ser discutido.

Todos os que não estão de acordo com a situação actual, todos os que pensam que existem argumentos para contrariar o que se passa, e chegaram à conclusão que o actual nível de consumo e desenvolvimento não permite continuar a que se produza o suficiente para dar trabalho ao número crescente da população mundial, devem discutir o paradigma acima referido.

Os últimos 20 anos foram a época áurea dos incumpridores, porque incumprir foi gratificante atendendo a que todos os que cumpriram acabaram por ser penalizados. Se teve o dinheiro fora fez-se uma isenção para o repatriar. Se não pagou os impostos criou-se um plano de prestações para regularizar o incumprimento. Se tem mais de 100.000 euros no banco e ficou desempregado não pode receber subsídio, mas se foi um ‘’chapa ganha chapa gasta’’ tem direito a receber. Mas há muitos mais exemplos por todos os países e todos os governos – o da Austrália aplicou em 2013 um imposto de 15% nas contas títulos para pensões superiores a 100.000 dólares australianos. Aqueles que de forma responsável aforraram para precaver o futuro são agora taxados, aqueles não tão responsáveis, não.

Os cipriotas com aforro superior a 100.000 euros nas suas contas bancárias também viram o Estado impor um corte para salvar os bancos, sendo que esta decisão foi imposta a este Estado pelo Eurogrupo.
Esta transição verificada nos últimos 20 anos está certamente associada ao facto de não se confirmarem alguns pressupostos que se tinham por verdadeiros e afinal não são como por exemplo:
– Trabalhe duro 40 horas por semana durante 40 anos e pode depois viver da sua reforma.
– Imprima-se dinheiro, ou peça emprestado e não se preocupe com défices porque eles ajudam a economia a crescer assim como o nível de vida.

Apesar de não ser verdade, Paul Krugman, prémio Nobel, continua a sugerir que se gaste o máximo possível para sair da recessão, que se peça dinheiro emprestado para sair da situação de endividamento, e que se imprima o dinheiro necessário para permitir que isso aconteça.
No entanto quando uma teoria incorrecta é finalmente reconhecida como tal, é quando se produz a alteração, mas leva tempo. É verdade que com o tempo as convicções mudam, mas também é verdade que a natureza humana é resistente à mudança. Talvez por receio do desconhecido, talvez pela habituação à familiaridade, mas existe sempre um momento de ruptura, a gota que faz transbordar o vaso.

Se alguma coisa aprendemos desde 2008 com o início desta crise é que os governos farão tudo o que é necessário para evitar o colapso do sistema financeiro a menos que seja útil para os objectivos pretendidos como no caso grego, ou cipriota.

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