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ONDE FALAMOS DE BOLSA
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Descansa em paz Pincarilho

Com o tempo deixamos de ter certezas e deixamos de julgar as pessoas, ou melhor, passamos a julgar com menos certezas. Os conceitos de certo ou errado começam a ser muito mais simples, o que não quer dizer que sejam vistos com mais clareza, e as opiniões de outros são efectivamente dos outros. Basta ler a história para perceber que é uma longa lista de desastres trágicos por ordem cronológica, narrados de forma mais o menos romântica, para termos uma perspectiva mais relativa da vida. A vida é o que queremos fazer dela.

Pedro Pincarilho era um colega da DIF um amigo e uma fonte de boa disposição para todos, que ontem partiu por vontade própria para uma viagem sem regresso.

Com um misto de raiva, respeito, vergonha e desconforto a morte do Pincarilho é uma tragédia por muitas razões, mas sobretudo porque não soube viver, porque não soube crescer, mas soube morrer para ter paz.

 

A morte é um tema amplo, por vezes legal, por vezes moral, muitas vezes religioso com o qual lidamos mal, apesar de estarmos todos a cada momento mais perto dela. A morte é preconceituosa, a morte assistida não é legal, se for por acidente é trágica, a morte por velhice tem geralmente pouca dignidade a morte só é heroica se for na guerra, mas o suicídio não é natural. Temos etiquetas para tudo, o que dá à morte um estatuto que vagueia entre o prémio Nobel e o desprezo total.

 

O Pincarilho não será para mim nem heroi nem vilão, mas só um Homem pela forma como passou pela vida. Foi o Jesse Livermore Português, o primeiro trader em Portugal a viver exclusivamente das operações que fazia no mercado, ‘’os trades’’. O Pincarilho só conhecia dois tipos de dinheiro, aquele que o mercado lhe podia dar amanhã ou aquele que o mercado lhe poderia tirar. Engenheiro de formação, Pincarilho era uma enciclopédia viva de análise técnica, que ensinou de forma brilhante a muitos clientes da DIF ao longo dos anos.

 

O crash de 2001 no Nasdaq representou a sua segunda falência no mercado, mas ao contrário da espectacular recuperação financeira que teve depois da falência de 1998, o seu sistema automático não mais permitiu que voltasse a ser rico. A grande virtude que tinha como analista técnico, de só pensar pela sua cabeça e não se deixar influenciar pelas noticias, foi também a razão que o levou a não compreender que o mercado tinha mudado radicalmente e que os bancos centrais tinham uma cada vez maior influencia nos mercados.

Todos ansiamos estar bem connosco próprios. O Pincarilho nunca mais foi capaz de estar em paz consigo.

A DIF era a sua ultima casa, onde estavam os seus amigos e foi para eles que escreveu dizendo que pedia desculpa por não aguentar mais, com um abraço. Todos os teus amigos na DIF devolvem-te esse abraço muito forte. Descansa em paz Pinca.