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De Washington com o apoio do Bangladesh

Foi em Washington que tomei conhecimento que a Irlanda havia pedido o apoio da União Europeia e do FMI e que o pacote de auxilio andaria à volta de 100 mil milhões de euros ou seja 20.000 euros por cada Irlandês.

O taxista, de nome Amir, que nauela hora me levava para Union Station, era do Bangladesh e vinha mantendo comigo uma agradável conversa sobre os impactos da crise americana na sua actividade. Para ele, a crise tinha sido uma oportunidade que lhe tinha permitido comprar uma casa numa urbanização com golfe por 240.000 dólares em ”foreclosure”, ou seja, já tomada pelo banco, quando essa mesma casa havia sido vendida em 1999 por 450.000 dólares.

Amir explicava-me, com o devido cuidado por eu ser português, que a vida é feita de periodos bons e periodos maus e que era nos bons que se devia poupar na expectativa da chegada dos inevitáveis periodos maus. Foi o que fez, com a certeza de que, depois deste periodo mau, virá outro bom, só não sabendo prever quando. Com a experiência de quem veio do Bangladesh há 19 anos, Amir garante-me que só fez a compra porque conseguiu um empréstimo com taxa fixa a 4.5% durante os próximos 30 anos, a que corresponde uma mensalidade de 1700 dólares , seguros e impostos incluidos. De outra forma não teria feito o negócio, porque esse é o montante da responsabilidade que pode assumir.

Aproveita a oportunidade para me dizer que não entende o que o empréstimo do FMI à Irlanda  vai resolver, para além de garantir que os credores vão receber o dinheiro emprestado com os respectivos juros. Provocador, interrompo para lhe dizer que pagar aquilo que se deve é importante para qualquer pessoa, porque se não o fizermos, perde-se toda a credibilidade e fica-se impedido de pedir mais dinheiro emprestado no futuro. Amir, com a sua experiência capitalista americana, diz-me que não é bem assim. Ele, pediria dinheiro para comprar um novo carro que lhe permitisse ganhar mais do que ganha actualmente, mas nunca pediria dinheiro para pagar dividas contraidas anteriormente porque, se já não era capaz de pagar as antigas como iria conseguir pagar as antigas mais a nova? Pergunta-me se percebi o seu raciocinio. Imagino que faz a pergunta porque sabe que sou português e sente que deve falar como se eu fosse muito estupido. Digo que sim, que vejo a lógica de só se pedir emprestado se for para produzir mais e melhor.

 Aproveita então para dizer que na sua opinião estes empréstimos aos governos só podem ser uma vigarice como muitas que se fazem  no Bangladesh. porque todos sabemos que ninguém vai poder pagá-los.

 Como se de propósito, passamos à frente da sede da FED, a reserva federal e diz-me Amir : -é aqui que imprimem o dinheiro para pagar as dividas da América. A Irlanda também deve estar a pensar comprar uma destas máquinas . Se o conseguir vai pagar os empréstimos sem problemas.

 Fico contente por poder explicar-lhe que a Irlanda não pode comprar uma dessas máquinas porque quem imprime o seu dinheiro é o BCE, o Banco Central Europeu e esse banco não é controlado pela Irlanda, como o não é por qualquer dos países da União Europeia. Chegados à Union Station, vira-se e, com ar circunspecto, diz: ‘’if it’s not a scam they are F—-, it’s 75 dolars sir‘’.

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