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De visita à China

Passei uma boa parte do mês de Janeiro na China.  Ora a China é, neste momento, o motor do mundo, não obstante a bolsa Chinesa ter sido das que mais perdeu em 2011 (25%) pelo que a questão que me levou à China foi saber se depois de tais resultados a situação económica do País é ou não preocupante.
A China de 1980 representava tão só 1/7 da economia americana, hoje a realidade é bem diferente e nas condições em que está o mundo e aplicando um chavão em moda, se a economia Chinesa gripar o mundo corre o risco de apanhar uma pneumonia.
Acresce que o apetite da China pelas matérias primas tem sido o motivo principal da sua subida, e como tal o que se passa na China passa a ser fundamental.

Na Ásia e na China em particular está actualmente a maior procura de cereais do mundo. Apesar dos esforços consideráveis feitos pelos Chineses no melhoramento de técnicas que lhes permitem em alguns locais proceder a 3 colheita por ano e de, por exemplo, ter batido o recorde de produção de milho nos últimos 7 anos, a realidade é que para absorver a procura, essa produção teria que ter quintuplicada. Ora, só os Estados Unidos são neste momento capazes de exportar tais quantidades  mas andam actualmente entretidos a subsidiar a produção de etanol (justamente com base no milho), chamando-lhe energia verde.

Mudando de assunto, a China tem a faculdade de ser capaz de coordenar o seu sector financeiro porque o seu controlo está no Estado. Este facto permitiu que a crise de 2008 se não fizesse sentir quando incentivou a criação de grandes projectos financiados pela banca, nomeadamente no imobiliário.

A folgada situação financeira da China pode permitir-lhe continuar neste caminho durante mais algum tempo certamente, mas é difícil prever quanto.

Falando em imobiliário, a China tem a particularidade de ter um mercado local, o que quer dizer que as estatísticas nacionais não reflectem a realidade. Os preços são difíceis de prever, estão em queda nos três locais que visitei ( Hong Kong incluido ) tal como em Novembro passado, tinha podido constatar em Pequim. Porém, a desvalorização é diferente, consoante as cidades.
O curioso é que os preços caíram mais nas grandes cidades como Pequim e menos nas mais pequenas como Nanning e Kunming.
O governo Chinês planeia construir nos próximos cinco anos 7 milhões de casas por ano, ou seja, um pouco mais do dobro do que foi construído em cada ano entre 2008 e 2010, sem contar com o investimento privado, o que faz prever uma continuada pressão à baixa por via da oferta.

A ideia é manter as pessoas a trabalhar e trazer mais gente das zonas rurais para as cidades. A conclusão mais importante parece ser que, cada vez mais e mais economia chinesa, vai estar dependente do governo e isso não é bom.

O ano de 2012 é também, curiosamente, ano de eleições na China, neste caso para mudar a liderança do partido. A sensação com que ficamos quando avaliamos o resultado da observação económica feita à China é que a situação, em alguns pontos, não é muito diferente daquela que temos na Europa.
Enquanto regularmente vemos a Europa, nas suas reuniões dar como resolvidos todos os problemas para logo depois se  constatar que nada foi resolvido, na China vê-se uma continuada aceleração na construção e apesar de já haver cidades inteiras que ainda não estão habitadas ficamos a saber que o ritmo de construção ainda vai aumentar.

De uma forma ou de outra creio que lá como cá os políticos já devem ter percebido que o problema não pode ser solucionado seguindo o modelo actual e estão indecisos entre o custo de um capitalismo sem capital, e a ilusão de manter um capitalismo sem capital. Lá como cá interesses especiais e “lobies” conseguem subverter o sistema politico para obter favores privados. Lá como cá a economia torna-se menos dinâmica e menos capaz de criar riqueza mesmo que por razões diferentes. Felizmente para a China ela está ainda na juventude do processo enquanto que por cá já estamos na terceira idade.

Por agora isso reflecte-se na energia do país e na sua vontade de crescer, mas a um ritmo cada vez menor em função da dimensão que vai adquirindo.

A China era em 1990 um país profundamente comunista e profundamente pobre. Cerca de 20 anos depois é a segunda potencia mundial criada sob o lema ‘’um país dois sistemas.’’ Infelizmente não existe nada de muito novo na receita aplicada. As grandes mudanças na história económica que deram origem à evolução da humanidade foram sempre ideias revolucionárias. Não existe nada de revolucionário neste modelo, apenas originalidade. Lá como cá a preocupação daqueles que gerem os destinos dos países é não ter uma população que pense, utilizando os mesmos processos, que são, como se sabe sobejamente, saturar a imprensa com as várias variantes da forma como se pretende que a população pense.

O problema do pensamento da maioria, em politica económica, é que, ao contrário da politica “tout court”, não é permitido pensar de forma diferente a nenhuma minoria. A ideologia politica não é económica. Hoje já se sabe que o mundo não se divide entre esquerda e direita mas sim entre aqueles que têm dividas e não as podem pagar e os que podem pagar essas dividas. O que a politica discute é como não pagar, o que a politica económica discute é como conseguir continuar a pagar.

O antigo primeiro ministro Sócrates, um politico, disse que todos sabem que a divida de um país não é para se pagar é para se gerir. O prémio Nobel da economia Krugman que agora nos visitou escreveu o mesmo, dizendo que ‘’as famílias têm que pagar as suas dividas, os governos não. A estes basta-lhes que as suas dividas cresçam mais devagar que a sua base tributária’’.

Na China, como cá ou nos Estados Unidos, ninguém discute o entendimento absurdo tácito existente, que uma divida privada é efectivamente devida a alguém, mas as dividas de um país deve-mo-las a nós próprios.

A DIF Broker apresentou este mês no seu site uma nova página com a designação:’’ Portugal Painel de Bordo’’ a qual tem a intenção de permitir às pessoas pensar na base de factos e não das noticias avulso de 30 segundos nos diferentes canais.
Não deve deixar de ver emhttp://www.dif.pt/web/pt_pt/painel-de-bordo .
A divida é assunto do dia em todos os órgãos de comunicação, mas não se discute se a divida perpétua é a única solução.

Para já é absolutamente essencial para o sistema bancário, para os governos, as famílias e o actual modelo monetário, desde que possa ser mantida e, preferencialmente, continuamente aumentada.

Os credores (os que detêm a divida soberana) não se pouparão a esforços para garantir que serão pagos com…. juros. Os devedores vão continuar a sua situação de escravidão para com os governos e os seus Estados, sequestrados que estão pelos impostos devidos.
Esta é a situação que deriva do pacto tácito entre a politica económica e a politica dominada pelos juristas seus representantes e que resulta num sistema bancário que cria dinheiro através do seu sistema fraccionário, não para emprestar às famílias e às empresas mas para comprar divida dos Estados.

Os bancos centrais por sua vez, para manter a ‘’estabilidade monetária’’ criam ainda mais dinheiro, para manter os bancos, as grandes empresas e os Estados solventes, recorrendo a todos os métodos para sustentar os preços dos activos mesmo que seja necessário adulterar o mercado.

Os políticos esses procuram todas as soluções para controlar a situação e evitar que sejam os mercados a fazê-lo. O problema com o controlo, é que não permite deixar acontecer aquilo que deveria acontecer e que é deixar os falidos falirem. Sobre estes assuntos não existe debate politico, sobre as causas do problema nada é dito. Discute-se o mal que estão a fazer as agências de rating, discute-se a possibilidade de criar outras na Europa que façam o que se lhes pedir, e ignora-se o facto de ser esta divida o único suporte do nosso sistema monetário.
Ignora-se o facto de termos um sistema baseado na promessa de pagamento dessa divida.
O ano de 2012 está a ser marcado como o anterior por desinformação económica.

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