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Cuba e o que queremos dar em contrapartida

A semana em Cuba passou demasiado depressa. A última vez que tinha estado em Havana foi no ano 2000. Entre o momento em que saí do avião, o controlo de passaportes, a recolha da bagagem e verificação da mesma no raio-X tinham passado 15 minutos, uma enorme surpresa para quem ainda se lembrava das cinco horas que tinha passado no aeroporto em 2000 para entrar em Cuba, um país profundamente pobre que praticamente tinha vergonha de se mostrar aos turistas.

Ir a Cuba é ainda andar para trás no tempo, mas já não tem nada a ver com o ano 2000. É verdade que os imóveis ainda se encontram em horrendas condições, mas a escassez de produtos já não é notória e até as estradas principais já não têm buracos.

Tendo em consideração que o mundo está a viver uma espécie de revolução entre os que têm e os que não têm, pareceu-me ser o momento adequado para visitar Cuba, para ver in loco como estava o paradigma da revolução socialista. Foram por isso razões filosóficas encapotadas numa viagem turística de observação.

Pessoas idênticas, ideias diferentes. De um lado planificação central, com controlo de capitais, controlo das pessoas e controlo dos meios de comunicação, do outro, alegadamente, liberdade económica com planificação dos bancos centrais, sem controlo de capitais mas controlo das contas bancárias por causa do branqueamento de capitais, sem controlo dos meios de comunicação mas com concentração dos mesmos com muitas ‘’fake news’’.

É comum dizer-se que o mundo actual sofre da ausência de estadistas do nível de uma Margareth Thatcher ou de um Miterrand, o que será provavelmente verdade quando comparamos ao Sr. Macron ou à Sra. May, mas Cuba também já não tem Fidel nem o irmão Raul; agora tem um senhor Miguel Díaz Canel que parece ser mais terreno. Poucas diferenças aqui, o que separa verdadeiramente estas duas realidades é a política e a liberdade económica, sendo politicamente correto, mas sendo mais concreto o que separa as duas realidades é o comércio livre e o crédito. O que torna a política consensual é a palavra consensual não a política.

‘’ Muita coisa mudou com o novo presidente?’’, perguntamos a Ernesto o nosso motorista.’’ Não’’ foi a resposta rápida. ‘’O homem foi escolhido para ser lá colocado pela estrutura, não foi eleito. Quem manda continua a ser Raul Castro e bem, porque com ele as coisas melhoraram. Fidel e Raul Castro são como Dom Quixote e Sancho Pança. Raul é muito mais pragmático. Com ele eliminaram-se burocracias intermédias como os governos provinciais, agora tudo é decidido entre governo central e municipal, mas mesmo assim inúmeros burocratas supervisionam a economia Cubana manipulando e controlando qualquer variável, eles dão alimentação à população alocam casas quando necessário, impõem quotas, controlam os preços e os serviços.’’ Fiquei a pensar que Cuba não se comporta como uma nação mas antes como uma gigantesca empresa que garante tudo aos seus funcionários mas de forma extremamente ineficiente.

O mais curioso é que o seu povo não parece infeliz (pelo menos aqueles com quem contactei), está consciente das limitações que tem no acesso a bens de consumo mas não se vê infeliz e como tal não parecem estar sujeitos aos mesmos ciclos que nós temos no Ocidente, em que temos alguns dias bons e outros em que parece que o mundo conspirou contra nós.

Pergunto-me se será porque as pessoas não têm dívidas em Cuba, ou melhor porque não têm acesso a crédito? Será porque não é visível a enorme desigualdade entre ricos e pobres que se vê no Ocidente?

A riqueza está normalmente acessível àqueles que têm talento, massa cinzenta, ambição ou simplesmente sorte, os outros limitam-se a trabalhar para pagar todo o tipo de responsabilidades, sobrando pouco para investir. Em Cuba, um taxista como Ernesto pode poupar até 100 euros por mês, o seu problema é que não tem oportunidades para investir e pouca escolha para consumir.

Estranho mundo em que as pessoas no Ocidente querem trabalho garantido, educação e saúde sem custos, um rendimento mínimo garantido e as pessoas em Cuba que basicamente têm isso tudo, o que gostariam de ter era oportunidades para exprimirem a sua individualidade.

Claramente existe um problema de liberdade intelectual dos dois lados da política. Este tema não se resolve entre os bons e os maus e não pode haver só duas possibilidades porque nem os bons nem os maus parecem resolver o problema. E quem são os bons e os maus nesta história se ambos se afirmam campeões da liberdade da democracia e dos direitos?

Einstein disse que: se tivesse só uma hora para resolver um problema de que a sua vida dependesse, utilizaria os primeiros 55 minutos para formular a pergunta de forma correcta. Segundo ele, depois de conhecer correctamente o problema poderia encontrar a solução em 5 minutos.

Porque não procuram os políticos encontrar a pergunta correcta ao problema atual?

O comércio por exemplo deveria ser um direito tão natural como a propriedade e na realidade a liberdade de transacionar deveria ser um direito superior a todas as leis, porque permite que os povos se compreendam melhor e se apreciem mais, sem deixar de manterem as suas identidades.

Claro que falar de capitalismo e socialismo parece muito mais fácil, mas nem as novas versões de liberalismo ou social-democracia trazem nada a um tema que parece ser só demagogia não a solução. Vejamos as diferenças.

Enquanto no Ocidente o poder de compra aumenta graças ao aumento do endividamento, em Cuba só podem gastar o produto do seu trabalho. Enquanto a primeira solução produz um crescimento fictício que se confunde com riqueza e não se pode manter, a segunda não traz crescimento.

O dinheiro é usado pelos governantes quer sejam de países ocidentais ou de Cuba sempre da mesma maneira, transferindo o dinheiro de uns para outros. O dinheiro criado pelos bancos centrais não é muito diferente do sistema com duas moedas em Cuba. Enquanto os bancos centrais no Ocidente manipulam a taxa de juro favorecendo uns em detrimento de outros, Cuba faz o mesmo com o seu sistema de duas moedas. O objetivo em ambos os casos é financiar os governos.

Os governos existem para proteger as suas populações, e para essas funções básicas controlam a polícia, a justiça, as forças armadas e para estas funções cobravam impostos. Mas percebendo o negócio da redistribuição de dinheiros decidiram alargar o âmbito dos seus serviços, protegendo as populações com o Estado Social (doença, desemprego, velhice, pobreza, pensões), e mais ainda recentemente contra o terrorismo, as alterações climáticas a poluição e as crises económicas. Para isso, os governos no Ocidente aplicam todos a mesma solução, se uma determinada atividade está na moda é taxada, se se mantém na moda é regulada, se deixa de estar na moda é subsidiada. Em Cuba, o governo não é diferente na sua forma, somente nas suas práticas, porque tem recursos diferentes. O princípio é o mesmo: taxar e subvencionar. Depois, com números e estatísticas criam-se um sem número de interpretações para justificar o que for necessário.

Falar de capitalismo no Ocidente não faz sentido. O capitalismo consiste em querer produzir mais com menos. Menos capital, menos trabalho, menos matérias-primas, tudo isto regulado pelo preço ao consumidor em competição. Ora, com o aumento de regulação, o dinheiro fictício criado pelos bancos centrais e a política de subvenções, o capitalismo, deixou de existir. Os bancos deixaram de ser intermediários entre o aforro das famílias e a economia ao poder emprestar dinheiro que não existe.

Da mesma forma falar de socialismo com o pretexto que os ricos exploram os pobres é abusivo e confundir pagar mais impostos com ganhar mais é ridículo, porque como disse Tatcher o socialismo só é possível enquanto existir dinheiro de outros para distribuir, e já há muito que ultrapassamos esse ponto, poderíamos taxar 100% de tudo que não seria suficiente para equilibrar as responsabilidades assumidas.

Depois deste longo exercício feito no regresso de Cuba, gastando os meus 55 minutos na formulação da pergunta correcta, creio que a faria do seguinte modo: será possível utilizar o dinheiro dos bancos centrais para beneficio das pessoas obtendo o que queremos do Estado sabendo o que queremos dar em contrapartida?

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