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Chipre: Bem-vindo ao efeito dominó

Em Chipre, o governo esta a confiscar a riqueza das pessoas porque tem de equilibrar as suas contas fiscais. Não tem alternativa, apesar de ser moralmente ofensivo. É moralmente ofensivo porque não fazia parte das regras. É o mesmo que um senhorio que aluga um apartamento e diz ao inquilino que o preço pode mudar se ele decidir gastar mais dinheiro na sua vida privada. Não aceitaríamos um negócio assim, mas não existe alternativa quando é o governo a fazê-lo.
Por cá, com música de fundo de Grândola Vila Morena,  os políticos afirmam que a austeridade está a levar a uma espiral recessiva. Explicam esses mesmos políticos que ao reduzir o consumo está-se a reduzir a capacidade das empresas e ao reduzir a capacidade das empresas reduz-se a capacidade de emprego. Tento imaginar uma nova cepa de políticos que fomentem a gestão da procura ou melhor, que incitem as pessoas a consumir o que quer seja e a qualquer preço, para que a procura aumente.
Tento imaginar mas é aterrador pensar que as pessoas possam pensar assim de forma simplista.
Em tempos idos estudava-se que não é a procura a chave da economia. A chave estava na poupança e na realização de capital. Quando existe poupança e essa poupança é canalizada para o sector produtivo geram-se lucros e criam-se empregos.
A procura é o que se obtém como resultado da poupança e do investimento e não o contrário como muitos agora parecem querer fazer acreditar.
A pergunta natural será: existe solução para a crise continuando com o modelo actual? Existem três soluções no modelo actual.
1. A primeira solução é a austeridade que está a ser seguida na Europa. O problema com esta solução é que teremos que corrigir os excessos dos últimos 30 anos, pelo que não se pode esperar que a situação fique corrigida em 30 meses, sobretudo se nos recordarmos que o ditado popular diz que é mais fácil destruir que construir.
2. A segunda solução possível é restruturar. Isso quer dizer permitir que os detentores de dívida percam dinheiro. Esta opção foi sempre afastada até ao último resgate na Grécia por receio de risco sistémico. A confirmação desse risco sistémico confirmou-se agora com a crise de Chipre. Esta solução espoletaria problemas sociais mais rapidamente porque destruiria muita poupança.
3. A terceira solução implica imprimir dinheiro com o intuito de gerar inflação com o objectivo de destruir o valor da dívida antes que os seus custos se tornem insuportáveis para os governos.
Nenhuma destas soluções é agradável para o nosso futuro enquanto sociedade mas cada uma delas permitiria voltar a retomar num futuro longínquo o nosso modelo monetário a um nível de pressão sustentável para a sociedade. De forma resumida, estas soluções permitem que voltemos a repetir os mesmos erros no futuro, mantendo o ‘status quo’.
Acontece que Chipre, o primeiro dominó da crise soberana, teve um outro tipo de solução, com a imposição de uma taxa directa nos depósitos. Esta medida destrói automaticamente uma parte da poupança dos aforradores.
O hábito de seguir regras de conduta é uma atitude muito diferente de fazer as coisas sabendo que certos actos terão determinadas consequências. Na Europa, actualmente, não parece haver regras nem a noção das consequências relativamente a certas medidas erradas.
O primeiro erro e o mais importante está em considerar dívida como activo. Divida não é um activo, divida é uma aposta sobre o futuro. Quando essa aposta não é ganha a dívida não pode ser reembolsada e transforma-se num problema, que é a realidade que temos actualmente.
Este erro é tanto mais importante que é gerador de outras confusões. Por exemplo, uma das grandes confusões que todos fazem actualmente ao identificarem os que ‘’têm dinheiro’’ está entre os que têm capital e os que têm “cash flow”. Os que têm “cash flow” são mais interesseiros porque sabem da necessidade de manter a chegada desses fundos de forma regular. Esses são obrigados a ter a opinião de outros porque ela pode ser mais importante que a sua.
Os que têm capital são diferentes, podem ter opiniões mais fortes e manter essas opiniões. O capital dá liberdade, mesmo que a pessoa seja pouco dotada intelectualmente ou moralmente.
A maior vantagem de ter dinheiro é que se pode ser menos influenciável e subserviente daqueles que o têm. Todos já fomos confrontados com situações de quase servilismo face aos que têm dinheiro e aos que têm poder, mesmo que não tenham mais nada que o justifique.

Os Estados Europeus têm agora como missão equilibrar as suas contas naquilo que se designa por austeridade. Para isso, tira uma parte dos rendimentos do trabalho dos empreendedores, dos trabalhadores, aplica uma taxa para a segurança social, depois aplica um imposto sobre tudo o que é consumido e finalmente não se esquece de retirar uma parte ao que se conseguir poupar. Chipre foi um passo mais longe retirando uma taxa ao dinheiro das pessoas no banco. Poderíamos pensar que tudo isto chegaria  mas na realidade sabemos que não chega e, por isso, temos o Banco Central numa missão inflacionista ao imprimir dinheiro. No fundo o efeito da inflação tem o mesmo efeito que Chipre fez aos depósitos mas de forma mais suave de modo a que as pessoas não vejam.
Para muitos a crise tinha acabado, regularmente a comissão europeia vem anunciar que com a resolução de um problema ficou a crise resolvida. Infelizmente não é o caso.  Se assim fosse o mercado interbancário não continuaria fechado porque os bancos continuam a não emprestar dinheiro entre eles, um sinal de que a desconfiança se mantém.
Com o dominó que representa Chipre a cair passará a haver uma maior nacionalização das dívidas soberanas, ou seja os bancos franceses passarão a comprar preferencialmente dívida francesa os bancos espanhóis farão o mesmo relativamente à dívida espanhola e os bancos portugueses serão os grandes compradores da dívida nacional. Para os bancos dos países do norte é mais um sinal da desconfiança entre os bancos e os Estados da zona euro, para os outros, para os bancos dos países do sul, é só uma inevitabilidade.
Estes factos são suficientes para tornarem os testes de “stress” numa inutilidade. Porquê? Porque os testes têm em consideração  situações de “stress” económico mas não consideram as desordens que atingem o sistema financeiro actual. Essas desordens têm origem na própria comissão europeia com as suas decisões arbitrárias, hoje são as obrigações soberanas que sofrem um desconto, amanhã uma taxa imposta aos depósitos. Isto claro assumindo que as decisões são da comissão e não somente da Alemanha, porque se a percepção passa a ser que as decisões são impostas exclusivamente pela Alemanha então temos também um problema de democracia na Comunidade Europeia se se confirmar que algumas vozes já não são ouvidas. Não é um problema se rapidamente se passar para um Estado Federal, mas pode tornar-se um sério problema se a percepção da Europa passar a ser a de que a Alemanha passou a controlar e ocupou a Europa sem ter que dar um tiro.

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