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Carta para ser lida em 2026

Caro Paulo

Se estiveres a ler esta carta em 2026 terás 70 anos. Ela foi escrita quando fizeste 60 anos em 2016, justamente quando estávamos a viver uma época atribulada na sociedade, em particular no sistema financeiro. Claro que esta carta se justifica também porque fiquei afectado a nível pessoal. Afinal de contas sou agora sexagenário, algo sobre o qual nunca tinha pensado na minha vida nem quando tinha 59 anos.

O confronto com a realidade não aconteceu logo no dia do aniversário. Isso aconteceu em Madrid, durante uma palestra de Emilio Durió, quando este falava da curva de Bell que é as nossas vidas. Dizia ele que aos 3 anos queremos deixar de usar fraldas, aos 12 queremos amigos, aos 16 já queremos sexo aos 18 a carta de condução. Aos 30 anos queremos dinheiro e aos 50 ser respeitados pelo que fizemos. Aqui começa a fase descendente da curva das nossas vidas, porque aos 60 se espera ainda poder ter sexo, aos 70 manter a carta de condução, aos 80 ainda ter amigos e aos 90 não ter que ter fraldas.

Não é uma visão agradável esta, da segunda parte das nossas vidas, e por essa razão decidi escrever esta carta para que me possa recordar de como via com a lucidez de um sexagenário, a realidade presente e o futuro. Se alguma coisa aprendi ao longo destes anos foi que a nossa visão, a forma de sentir e pensar as coisas é única para cada um de nós, e nesse sentido estamos completamente sós. Outros pensam de forma totalmente diferente, todos de forma única, excepto aqueles que não pensam. Claro que com o tempo acabamos por olhar para trás e moldar a nossa visão à da sociedade em geral. Resumindo, gostamos de nos sentir parte de um todo mas no momento sentimos e pensamos de forma única.  Muita coisa aconteceu nestes 60 anos.

Curiosamente, quase todas as alterações importantes que afectaram a sociedade dos últimos 40 anos, parecem estar relacionadas com o dinheiro. Recordo-me ainda de se falar em milionários. As pessoas que tinham um milhão, eram então pessoas com muito dinheiro. Hoje o equivalente será um bilionário. O curioso é que os milionários da época não tinham acesso a muitas das coisas que são normais nos dias de hoje, podendo mesmo dizer-se com segurança que muita gente hoje, apenas remediada, vive melhor que os antigos milionários. As casas são melhor aquecidas, as televisões são digitais, os telefones e computadores fazem parte do nosso dia à dia, os carros são incomparavelmente melhores e tudo o mais em que se possa pensar incluindo a assistência médica. Claro que hoje em dia é muito difícil diferenciar aqueles que têm mesmo muito dinheiro daqueles que têm muito crédito, mas o conforto é igual para ambos. Outra grande diferença agora é o facto de a grande maioria da população não poder passar sem alguma forma de auxílio do Estado. Imagino que em 2026 esta situação esteja muito pior, mesmo considerando que os Estados estão em precárias condições para manter o Estado Social, apenas e só porque não existe alternativa, ou então será o caos.

Naturalmente, existe uma muito maior, para não dizer permanente, intervenção dos Estados nas nossas vidas em resultado do auxílio, e curiosamente uma cada vez maior aversão ao poder organizado dos Estados. Imagino que será aqui que vai residir o grande confronto dos próximos 10 anos. E não estou a falar do terrorismo recente, mas da instabilidade social.  Os sinais são múltiplos nos últimos anos; a violência nas ‘’banlieues’’ de Paris em 2005 e depois em 2007, seguida de violência similar em Londres em 2011, todas por revolta espontânea. Mais recentemente, a apologia à violência por parte de Pablo Iglésias (secretário-geral do Podemos em Espanha)  em comício, quando o seu partido representa já perto de 30% dos votos. Estes são sinais e os sinais são como as dores de parto, no fim acaba por acontecer. Estou ansioso mas também curioso para saber como a sociedade irá reagir nestes próximos 10 anos.

Uma coisa é ter curiosidade e outra ter receios; o primeiro receio que tenho é sobre a liberdade. A repressão financeira imposta pelos Estados democráticos não é compatível com a liberdade, porque ela começa a colidir regularmente com os direitos de uma população habituada ao Estado Social. A liberdade está agora limitada ao direito de voto, está restringida na sua dimensão. Será que vai voltar a haver liberdade pura e simples sem intervenções do Estado? Todos os dias ouvimos dizer que aqueles que têm dinheiro que paguem a crise. Dito por políticos. Pessoas teoricamente responsáveis. Há quem tenha dinheiro porque poupou ao longo da sua vida, há quem tenha dinheiro porque em vez de gastar tomou a decisão de trabalhar mais que os outros. Há quem tenha dinheiro porque o seu negócio prosperou pagando os respectivos impostos sem ter nenhum apoio ou incentivo do Estado. Há quem tenha dinheiro sem ter recebido nada de bandeja, e há ainda quem tenha feito tudo isso sem ter o dinheiro como compensação. Os riscos que se assumiram não são tidos em conta, se houve sucesso é normal. Os riscos só chamam a nossa atenção se o resultado for o insucesso. A pressão de fazer crescer uma empresa  assumindo a responsabilidade de mais trabalhadores também não conta, o que conta é o trabalhador despedido mesmo que não contribua para o crescimento da empresa. É difícil entender que a percepção esteja hoje em que são as pessoas e as empresas que criam riqueza, aquelas que são o problema.  Por isso o meu segundo receio é o da possibilidade de muito mais e maior conflito social, por perda de liberdade, o que a acontecer será resultante das lideranças que temos.

Por vezes pergunto-me se haverá necessidade de liderança politica sabendo que mentem ou que lhes falta competência ou simplesmente que são vendedores de banha da cobra? Pergunto-me por exemplo se em 2026 alguém se irá lembrar da Estratégia de Lisboa aprovada pelo Conselho Europeu em 2000 com o objectivo de transformar a economia Europeia na mais competitiva do mundo em 10 anos. Será que alguém se lembra disso hoje? Houve algum Conselho Europeu para seguir a evolução da estratégia ou para apurar a razão por que em 2010 em vez de sermos a economia mais competitiva do mundo estávamos mergulhados em terrível recessão? Este exercício seria académico se não houvesse entretanto uma nova Estratégia, esta sem ter sido anunciada, que veio substituir a de Lisboa. Esta estratégia da autoria do BCE tem um fio condutor entre o sector político e o sector financeiro, mas é decidida por pessoas não eleitas que nos afectam a todos e podem vir a afectar-nos muito mais debaixo da capa de que estão a defender os interesses da sociedade defendendo o nosso modo de vida.

O que é o nosso modo de vida é uma questão à qual gostava de poder responder, mas tenho dificuldade. Certamente terá a ver com o nível de conforto a que chegámos e com isso ao actual nível de consumo.

Seja como for o importante é que esta estratégia do BCE tem por objectivo destruir o aforro das pessoas, sacrificar aqueles que pouparam ao longo das suas vidas e eliminar o dinheiro físico para salvar os bancos e melhor poder taxar os contribuintes. Irá esta estratégia resultar? Será ela bem-sucedida pelos proponentes? Os planos quinquenais deram cabo da União Soviética e as estratégias a 10 anos não têm tido mais sucesso mas… Pelo menos esta carta não terá nenhuma consequência e quem sabe poderei até vir a rir-me daqui por 10 anos do ridículo que ela representa. Seja como for aqui fica a minha visão do futuro, consequência da estratégia do BCE.

Bancos e Governos preparam-se para se fundir numa única entidade. As instituições financeiras hoje já são uma extensão do aparelho do Estado, trabalhando activamente no que diz respeito ao branqueamento de capitais. Para mais não nos podemos esquecer que entre 2008 e 2011 os governos salvaram os bancos, e depois os bancos emprestaram o dinheiro necessário para financiar os Estados.

Resultado, hoje temos Estados mais endividados e bancos em situação idêntica. Têm por isso interesses em comum. Este facto pode resultar numa aceleração do processo de federalismo europeu dos países do euro, mas creio também que irá representar uma desagregação da Comunidade Europeia que não está unida pelo euro. Ao invés, a incapacidade de evoluir para uma federação pode criar um retrocesso importante em todo o projecto europeu. Tudo vai estar dependente do dinheiro, e dos bancos que são quem tem o dinheiro, e vai depender das pessoas aceitarem esta influência dos bancos no destino de todos no actual formato.

Os bancos estão em processo decadente seria bom que estivessem num processo evolutivo, mas não estão. O esforço que fizeram para ocultar a realidade dos bancos ao longo dos anos não o permite. Essa realidade está patente no facto de as pessoas estarem convencidas que vão ao banco depositar dinheiro quando na realidade vão emprestar dinheiro ao banco. Obviamente, se as pessoas não tivessem sido convencidas dos depósitos a segunda versão não levaria tanta gente a emprestar dinheiro aos bancos, e os bancos provavelmente não teriam a relevância que têm ainda nas nossas sociedades.

As pessoas não admitiam a perda de dinheiro entregue aos bancos com maior ou menor remuneração (lá está porque faziam depósitos e não empréstimos), mas hoje ou aceitam ou não perceberam que os ‘’depositantes’’ podem perder o dinheiro ou o dinheiro não será integralmente devolvido. Creio que continuam sem perceber que fazem empréstimos e não depósitos.

Claro que esta ilusão criada por múltiplos conceitos de garantias, levou a que as pessoas passaram a pensar que o dinheiro aplicado nas instituições financeiras era inquestionável e provavelmente agora passou a ser questionável sobretudo com taxas de juro insignificantes. A confiança está agora em causa e a motivação para ter o dinheiro no banco é cada vez mais limitada sem taxas de juro que compensem.

A grande dificuldade dos dias de hoje não está em acompanhar os acontecimentos, a grande dificuldade está em avaliar as consequências indirectas dessas mesmas medidas quer elas sejam de carácter político económicas ou fiscais e finalmente as suas implicações morais. A introdução de taxas de juro negativas seguida agora da procura em eliminar o dinheiro físico parece ser uma medida desesperada para controlar o sistema monetário. Os bancos centrais têm como plano obrigar os consumidores a consumir mesmo que tenham que recorrer ao endividamento. A mim não deixa de ser-me estranha esta forma de estimular a economia com taxas de juro negativas. Países que tinham no seu endividamento um centro de custos agora têm um centro de receitas. Quanto mais pedem mais ganham. Empresas que pedem dinheiro para receber uma remuneração em vez de terem um custo. Pessoas que pagam para ter ‘’depósitos’’ em vez de receberem.

Como irão reagir as pessoas a estas situações e como se irá revelar a repressão financeira para que o sistema se mantenha como o conhecemos.

É verdade que aprendi ao longo dos anos que o homem é um animal de hábitos. Os políticos e os bancos centrais esperam certamente que as pessoas se habituem a uma nova realidade; pouco dinheiro em circulação muito controlo sobre os movimentos de capitais para depois se poder taxar todas as ‘’liberdades’’ quando já não houver alternativa.

Mas estamos a falar de dinheiro. Para muitos europeus a nova realidade implica colocar 1000 euros no banco e receber 950  um ano depois sem contar a inflação. Quererá isto dizer que no futuro quem mais tarde pagar as suas contas terá que pagar menos? Quem não pagar os impostos nos prazos em vez de pagar juros à taxa legal receberá juros à taxa legal? Produzir mais do que o que se consome e guardar a diferença foi sempre a norma, este novo conceito deverá no mínimo trazer alguns receios às pessoas porque pelo menos a mim traz.  Será interessante ver quem irá ganhar este confronto.

O que me parece lógico é que as pessoas não tenham interesse em fazer empréstimos aos bancos com os seus depósitos se isso lhes vai custar dinheiro.

Não admira que o CEO do Deutsche Bank tenha dito que acredita que dentro de 10 anos já não haja dinheiro em notas, esta carta serve para isso mesmo, comprovar se em 2026 sim ou não ainda haverá dinheiro, eu espero sinceramente que sim porque senão isso quererá dizer que já não terei nenhuma liberdade.

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