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Bancos: Uma tragédia para a poupança!

  • Bancos: Uma tragédia para a poupança!

Em 1999, com a introdução do Euro, o futuro do negócio bancário na Europa seria resplandecente. Segundo nos informaram políticos e banqueiros centrais, com a introdução da moeda única, a concorrência no espaço europeu iria resultar em menor concentração bancária.

Bancos: Uma tragédia para a poupança!

A uniformização da legislação aplicada a cada estado-membro, permitiria às entidades de menor dimensão concorrer com menos recursos, dada a necessidade de interpretar uma única normativa.

Os países-membros da zona euro entregariam parte da sua soberania ao Banco Central Europeu, em particular a condução da sua política monetária. Um simples governador e o seu conselho passariam a ter um papel decisivo na determinação de um dos preços mais importantes de uma dada economia: a taxa de juro.

O mercado interbancário entre bancos seria enormemente ampliado, dado existir uma única divisa, havendo a possibilidade do banco alemão A conceder um crédito ao banco B em Portugal na mesma divisa. Assim, surgiu a Euribor, uma das principais taxas de referência da zona Euro, considerando-se no seu cálculo as taxas dos 32 principais bancos europeus, excluindo-se os valores extremos – os 15% mais altos e os 15% mais baixos.

O aparecimento de taxas de juro muito inferiores às que existiam no passado, em países como Portugal, Espanha, Grécia e Itália, permitiu que particulares, governos e autarquias entrassem numa orgia de endividamento que nos conduziu à enorme crise de 2008, simbolizada pela queda da Lehman Brothers, e à crise da dívida soberana europeia, iniciada pela falência do estado grego em 2010. Esta última, conduziu à supervisão de todos os bancos comerciais do espaço europeu pelo Banco Central Europeu. Em cada crise, maior concentração de poder a favor dos supervisores.

A solução é sempre a mesma: falhou?

Necessitamos de maior centralização e concentração de poder.

Esta nova realidade que nos trouxe? Ao contrário do propalado, a concentração bancária nunca foi tão gritante. No final de 2007, antes da grande crise de 2008, o banco norte-americano JP Morgan tinha uma capitalização bolsista de 101 mil milhões de Euros, enquanto a do BCP era de 11 mil milhões de Euros.

No final de 2019, a capitalização bolsista do primeiro era de 390 mil milhões de Euros, enquanto a do segundo apenas 3 mil milhões; para termos uma ideia do que se passou: em 2007, o JP Morgan era 9 vezes o BCP, enquanto agora é 130 vezes!

Bancos: Uma tragédia para a poupança!

A única e “simplificadora” normativa emanada da União Europeia nunca foi tão favorável às grandes instituições: agora, para se operar um simples negócio financeiro, são necessários batalhões de advogados, um regimento na auditoria interna e compliance, uma multidão de auditores externos e milhares de relatórios para as autoridades de supervisão e fiscais!

Atendendo à voracidade por mais impostos e receita fiscal, actualmente, o sector financeiro tornou-se o braço armado dos governos na investigação de qualquer tentativa de evasão fiscal e branqueamento de capitais, ou seja, sem receber um cêntimo dos estados, trabalha como de um polícia se tratasse; caso contrário, está sujeito a multas e sanções milionárias e os seus administradores estão sujeitos ao opróbrio.

  • Em conclusão, trata-se de um cenário muito complicado para as pequenas instituições, aquelas que podiam trazer inovação e concorrência ao mercado. Actualmente, apenas as grandes instituições podem suportar tal cenário, com óbvio prejuízo para os clientes.

Ao contrário das promessas, as grandes instituições estão cada vez maiores e impossíveis de derrubar. Nunca como agora são demasiado grandes para falir. Em 2019, o PIB espanhol foi de 1.245 mil milhões de Euros (Fonte: Expansion; 2019) e os activos do banco Santander, para o fecho do mesmo período, encerraram em 1.523 mil milhões de Euros! Ou seja, 20% superiores aproximadamente.

No final de 2019, os activos do BNP Paribas estavam avaliados em 2.165 mil milhões e o PIB francês, para 2019, foi de 2.300 mil milhões de Euros – os activos do BNP equiparam-se ao PIB anual do estado onde se encontra a sua sede e origem do seu negócio.

Bancos: Uma tragédia para a poupança!

Uma das razões apresentadas para esta situação: uma actividade global, realizada em vários países, como é o caso do Santander. Este banco actua em várias geografias, como por exemplo, Brasil, Chile, Argentina, Espanha e Portugal. Mas se analisarmos outros negócios, igualmente globais, tal dimensão nunca ocorre.

A Royal Dutch Shell, cotada na bolsa de Amesterdão, para 2019, publicou activos em torno a 370 mil milhões de Euros. A Shell é uma empresa que actua num negócio que requer um enorme investimento em infra-estruturas e operações em várias geografias, no entanto, os seus activos estão longe de se aproximar do PIB holandês, que foi superior a 800 mil milhões de Euros em 2019.

A Apple, uma das empresas com maior capitalização bolsista no mundo e com uma presença global, possui activos de 310 mil milhões de Euros, uma fracção dos activos do banco norte-americano JP Morgan (2.397 mil milhões de Euros no fecho de 2019).

Fruto do sistema de reservas fraccionadas, que permite conceder crédito do “ar”, a partir de um simples registo no balanço, ocorre inexoravelmente o crescimento exponencial do balanço, chegando-se à situação, perfeitamente comum na actualidade, em que o PIB do estado do seu principal mercado equipara-se ao valor dos activos de um banco. Qual é o supervisor ou governo que irá enfrentar tal instituição, na eventualidade de uma crise?

  • Para agravar esta situação, com a crise da dívida soberana europeia, o papel de intermediário da poupança dos bancos foi eliminado pelo Banco Central. Com o argumento de que não existe inflação, o BCE reduziu as taxas de juro para 0% ou negativas – ocultando as verdadeiras razões, a falência de vários estados da zona euro-, permitindo que os bancos passassem a financiar-se gratuitamente, sem a necessidade de competir pelas poupanças dos particulares e empresas.

Neste processo, esqueceram-se que os contratos de crédito de muitos bancos utilizam taxas variáveis. Com as decisões do BCE, as taxas de juro passaram a ser 0%, ou mesmo negativas, dando lugar a situações surreais: em lugar de receber juros, o banco paga pelo crédito à habitação do cliente. Esta situação foi promovida por um Banco na Dinamarca!

Esta loucura burocrática, em paralelo com taxas de juro negativas, está a destruir a banca europeia. Tal situação reflecte-se nas cotações de muitos bancos. O Banco Santander apresenta uma tendência descendente desde finais de 2007.

Bancos: Uma tragédia para a poupança!

Os mercados começam a duvidar da solvência do Deutsche Bank, um dos principais bancos alemães. Desde a grande crise, a sua cotação reduziu-se em mais de 70%. O mesmo se passou com o BCP, o seu gráfico é tão estranho, que nem permite retirar qualquer conclusão: parece uma queda no abismo!

Bancos: Uma tragédia para a poupança!

Se os bancos se deparam com enorme dificuldades numa economia em expansão, o que irá acontecer na próxima crise? Muito provavelmente irá aplicar-se a solução Cipriota, em que os depósitos com um valor superior a 100 mil euros foram simplesmente confiscados. Importa recordar que os seguros de depósito não possuem, nem de perto nem de longe, os recursos para enfrentar uma crise sistémica do sistema.

No próximo dia 26 de Março de 2020, no hotel Vila Galé no Porto, iremos comentar este tema e outros relacionados com a poupança dos portugueses. Poderá inscrever-se aqui.

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