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As duas Grécias

A Grécia dos nossos dias, orgulhosa da Grécia antiga, berço da democracia, está a assustar os mercados e a deixar os políticos impotentes. O ministro das Finanças belga, senhor Didier Reynards, membro de um governo que não existe, disse que se a Grécia entrasse em incumprimento (ou “default”), imediatamente os olhares se virariam para a Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e até para a França. Apesar de se ter feito esquecido da sua Bélgica, o que ele quis dizer foi que, com a queda da Grécia, os referidos países europeus tombariam como um castelo de cartas. A Grécia está para a Europa o que o Banco Lehman estava para os Estados Unidos, isto é, a Grécia parece ter agora para o mundo a mesma dimensão que tinha o Lehman.
Esta comparação é, aliás, feita pelo mesmo ministro ao dizer que a queda do banco americano levou a uma falta de confiança tal no sistema financeiro que a situação não se pode repetir sem esperar consequências dramáticas no conjunto da zona euro. Palavras proféticas porque, para espanto de todos pela rapidez do acontecimento, a Espanha e a Itália iniciaram um caminho que pode levar a essas consequências dramáticas.
Mas afinal qual é o problema de se emprestar mais dinheiro à Grécia?
Pois, o problema está nos CDS “credit default swap” (sobre a dívida grega) e nas agências de notação que apenas esperam um pretexto para confirmar que a Grécia está em incumprimento, para baixarem a notação da maioria dos grandes bancos europeus (a começar pelos bancos franceses).
Por essa razão discutem-se agora três opções:
1 – O “rollover”, ou seja, os credores aceitam voluntariamente estender a exposição à divida Grega por um período alargado;
2 – Uma troca de dívida com extensão da maturidade, ou seja, aceitam outros títulos com extensão do prazo;
3 – Uma restruturação voluntária fazendo apelo ao sector privado (solução que as agências de notação consideram ser um incumprimento).
Na prática, se estivéssemos a falar de uma família que num restaurante, no final duma refeição, não pode pagar a conta, as opções já previstas são:
1 – Podem sair da mesa sem pagar comprometendo-se a pagar num determinado período de tempo;
2 – As pessoas que estão nas outras mesas quotizam-se para pagar a conta dos ocupantes da mesa que não têm dinheiro e ficam à espera de serem pagos num determinado período de tempo;
3 – Paga só aquilo que tem no bolso e pede às pessoas da mesa ao lado que os ajudem a pagar o que lhes falta para o integral cumprimento.
Para não sermos apenas mais alguns a discutir este assunto de forma académica, acerca da liquidez, da solvabilidade, das reformas e das possíveis reestruturações da zona euro, preferimos fazer as perguntas que ninguém quer fazer.
1 – De onde vêm todos os milhares de milhões de que se fala?
2 – Este dinheiro resolve os problemas de solvabilidade dos países em causa?
3 –  Este dinheiro defende o sistema bancário dos países de que agora se conhecem os resultados dos testes de stress?
4 – Sabem os políticos que as necessidades escondidas do conjunto de bancos é superior às necessidades dos respectivos países?
5 – O Fundo Europeu de Estabilidade Financeira é uma entidade privada de direito luxemburguês. Porquê? Com que intenção? Quais as vantagens?
6 – O Fundo vai necessitar de uma nota AAA, o que quer dizer que, em princípio, cada 100 euros precisam de 120 euros de garantias. Assim, com os 440 mil milhões do fundo para garantias, acham que podem resolver mais problemas?
7 – O Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira que vai substituir o fundo em 2013 vai ter 80 mil milhões de capital repartido pelo peso económico dos países membros. Esses países têm dinheiro ou vão agravar o  seu endividamento?
8 – Cada país membro do FMI tem a possibilidade de levantar cerca de 10 vezes a sua contribuição para esse Fundo, mas a Grécia já recebeu 32 vezes a sua contribuição e Portugal 23 vezes. Como se vai resolver a situação quando for necessário salvar países bem maiores, sabendo que, teoricamente, o FMI só pode levantar 580 mil milhões?
9 – As taxas de juro que os PIIGS estão a pagar são superiores às taxas de remuneração do fundo europeu de estabilidade financeira para que devem contribuir. Não é isso um problema para os países em dificuldades?
10 – Como pode a Grécia ser o Lehman Brothers da crise soberana “subprime” se, aparentemente, só estão 36.5 mil milhões nos bancos europeus e 47 mil milhões no BCE?
Será que podemos continuar a ter confiança nos políticos que estão a procurar resolver a situação actual, quando foram esses mesmos políticos que ao longo dos últimos quatro anos nos foram sucessivamente dizendo que:
1 – A finança mundial tem uma pequena crise de liquidez com o “subprime” que não deverá exceder os 250 mil milhões. (Os custos já vão em cerca de 20 vezes).
2 – A crise é maior que o previsto e existe absoluta necessidade de salvar os bancos se queremos manter o crescimento da economia. (Salvar os bancos não parece ter salvo a economia).
3 – Era precisa transferir as responsabilidades do sector financeiro para o contribuinte para manter a economia e evitar uma enorme depressão (talvez tecnicamente não tenhamos a depressão, mas existe uma enorme correcção que está talvez a caminho da depressão).
4 – Era preciso voltar às teorias de Keynes e, por isso, os Estados deviam endividar-se para tomar a iniciativa na economia. (Os esforços feitos pelos Estados não ajudaram a economia, como é evidente).
5 – O facto de se verificar uma recuperação económica e assim se ter evitado as contracções da economia é sinal de que o emprego também vai recuperar a seu tempo (O desemprego continua a aumentar no mundo ocidental).
6 – O problema grego era uma situação isolada que não representava perigo para o resto da Europa. (O problema grego é agora o gatilho do problema na Europa).
7 – A culpa do “subprime” era das agências de “rating” que não tinham avaliado correctamente o risco dos produtos vendidos pelos bancos. A culpa da dívida soberana “subprime” é das mesmas agências que estão agora a antecipar problemas. (As agências de “rating” existem para avaliar o risco da dívida e evitar que todas as partes envolvidas o façam à sua responsabilidade). O problema é de dívida e não de quem as avalia.
Nos Estados Unidos (exemplo da democracia nos últimos 100 anos), o país com o maior endividamento do mundo, por sinal maior que a totalidade do resto do mundo, o presidente da FED, Ben Bernanke (provavelmente a pessoa mais importante neste momento), afirmou nos últimos dias do QE2 que não tinha uma noção exacta das razões que estão a levar a economia a abrandar. Para rematar disse que precisava de mais tempo para decidir qual vai ser a próxima medida do Banco Central.
Os Estados Unidos não são o paraíso de paz que o mundo económico precisa e que os investidores procuram, afim de se protegerem das consequências da crise soberana existente. Com efeito, os Estados Unidos têm uma dívida pública em % do PIB que é de 92%, quando em Portugal é de 93%. Tiveram um crescimento em 2010 de 2,9% quando em Portugal foi de 1,3%. Têm uma taxa de desemprego de 9% que em Portugal é de 12%, e uma inflação de 3,5% que em Portugal é de 3,7%. Já o défice em % do PIB em 2010 era de 8.2% nos Estados Unidos quando em Portugal era de 9,1%, mas em 2011 espera-se que em Portugal baixe para 5,9% enquanto o dos Estados Unidos espera-se que suba para os 10,8%. Como se pode ver números “muito diferentes” que justificam que os Estados Unidos ainda tenham uma nota triple AAA que agora é ameaçada pelas agências de referência. Claro que não tem o mesmo impacto as baixas de “rating” realizadas pela Americana Egan Jones ou a Chinesa Dagong.

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