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ONDE FALAMOS DE BOLSA
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António José Seguro está errado

‘’Hoje é um dia muito importante para o nosso país e a prova de que tinha razão na minha cruzada para um papel mais activo do BCE’’, afirmou António Jose Seguro.

Governo ou oposição nunca põem em causa o modelo de crescimento pelo crescimento do crédito e enquanto isso continuar nada estará resolvido.
É por isso dramático, que governo e oposição não tenham ainda percebido que não haverá recuperação nos anos mais próximos, porque o modelo de desenvolvimento do mundo ocidental chegou ao fim. Viver a crédito vai ser mais difícil e beneficiar do crescimento financiado pelo crédito vai ser impossível.

O papel mais activo do BCE a que se refere AJS corresponde ao anúncio de compras ilimitadas de obrigações soberanas até 3 anos no mercado secundário, para os países da zona euro que se coloquem debaixo da supervisão da troika.
Este ponto ‘’que se coloquem debaixo da supervisão da troika’’ parece ser a questão importante, porque apesar de não concretizado pelo BCE, pressupõe que essas compras só se farão ao abrigo de programas como os impostos a Portugal, Grécia e Irlanda. Assim sendo esta cruzada referida por Seguro, ao contrário do que pensa, tem implicações negativas no clima social porque implica um endurecimento das medidas económicas e sociais, da mesma forma que tem implicações no crescimento da economia desses mesmos países, não favorecendo nenhuma retoma. Ora essa retoma é absolutamente essencial, atendendo a que sem crescimento não pode haver amortização de dívida e ao contrário, com esta ‘’ajuda’’ tem de haver ainda aumento de dívida, algo que é gravoso no actual modelo económico. Estamos em plena crise, de enormes proporções, pelo que nenhum aumento de liquidez pode reverter a situação. Na prática, o que existe é uma desaceleração da velocidade de circulação do dinheiro, enquanto os bancos não tiverem confiança para emprestar, e não terão tão cedo, porque ainda estão na fase de esconder risco.

Esta decisão do BCE é na realidade um balão de ar para os bancos e não como José Seguro parece pensar um estímulo à economia. Aliás, gostaria de saber quem foi que fez passar esta ideia peregrina, que os bancos centrais têm como missão ajudar a economia, quando na realidade os bancos centrais existem para ajudar os bancos e o sistema bancário.
A política e os bancos centrais têm uma relação promiscua desde que obrigaram os bancos a ter reservas e permitiram que a compra das obrigações soberanas constituíssem essas reservas.

Eu diria que esta decisão do BCE tem como objectivo testar a eficiência do modelo com Espanha e assim saber se ele pode ser aplicado à Itália. Será talvez bom recordar aos políticos que a intervenção do BCE é necessária porque os bancos alemães e franceses, que eram compradores da dívida desses países, diminuíram substancialmente as suas compras com o intuito de diminuir o risco de exposição aos países em dificuldades, para evitarem colocarem-se eles próprios em dificuldade.

Esta decisão do BCE vem no seguimento de decisões idênticas tomadas pelo FED, e pelo banco de Inglaterra nos últimos 5 anos com os resultados que se conhecem. Os índices sobem, as taxas de juro descem, o desemprego aumenta e a actividade económica diminui. Se alguma coisa mudou é certamente que a situação ficou pior.
Para toda a acção existe uma reacção oposta de igual amplitude dizia Newton. A acção do BCE de manter os juros a taxas mínimas históricas dando toda a liquidez que os bancos necessitem tem como reacção a penalização do aforro e das pensões.

No Japão esta política foi iniciada nos anos 90 com resultados decepcionantes que regularmente pioram, mas é verdade que a situação fiscal do país ainda não implodiu. Quem sabe se na Europa seremos capazes de fazer melhor?

Em Espanha como em Portugal e tal como no resto do mundo, governos e oposição não discutem a doença, insistem em discutir o tipo de médico que deve tratar a doença, por isso vamos continuar a esperar que António José Seguro e os outros percebam o quanto estão errados.

O dinheiro criado por um banco central é uma dívida que o banco central emite sobre ele próprio colocando esse Banco Central como o único actor económico com passivo que não é exigível. Ao contrário, quando em 2010, por exemplo, Espanha procedeu à fusão de 7 Cajas em dificuldades financeiras no que foi considerado um super banco designado por Bankia, (imagino que com a constituição do super banco pensassem que  os activos passariam a ser super sólidos), e posteriormente teve que ser parcialmente nacionalizado, este passivo é exigível aos contribuintes.