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Alavancar e desalavancar eis a questão

Um dos problemas dos investidores é verem as coisas como gostariam de as ver e não como são na realidade.

De alguma forma, o mesmo se passa na economia. Quando tudo vai bem, é difícil pensar no que pode correr mal.

Nisso mesmo meditei, pouco tempo depois de acordar, ao olhar para a cidade de Santiago do Chile da janela do 23º andar do hotel onde me encontrava. O que primeiramente me chamou a atenção foi o pico do El Plomo com 5.400 metros de altitude, todo coberto de neve, ali tão perto à minha frente.

Mas, o que me impressionou mesmo foi a ‘’floresta’’ de gruas que rodeava o hotel indiciando outras tantas construções. De repente, fui levado a pensar que estava na China. As cidades dos países emergentes parecem-me todas iguais. Já não é só o seu comércio a retalho com as mesmas marcas, sinal da globalização evidente, mas são também os arranha-céus que parecem todos iguais. Só as pessoas são diferentes embora creia que as suas reacções também sejam semelhantes.

Vim depois a saber que o que se constrói em Santiago são apartamentos e escritórios, mas sobretudo apartamentos. Os preços, segundo me informaram, subiram 25% nos últimos três anos, mas os Chilenos acreditam que está tudo bem. Em minha opinião, creio que não, mas a natureza humana é assim mesmo. Apesar dos 5,5% de crescimento ano, quando tudo vai bem é difícil ver o que vai mal.

Recordo a queda do muro de Berlim, tido como uma vergonha para o mundo, como se dizia à época, e agora vemos os muros que separam Israel da Palestina e os Estados Unidos da América do México, que cumprem os mesmos objectivos mas que foram poupados ao mesmo estigma. Recordo o fim da guerra do Vietname tida como sendo a última com envolvimento externo, mas outras se lhe seguiram. A natureza humana é assim… cínica e pouco objectiva. Portanto, se fosse Chileno estaria atento às surpresas, porque raramente são boas.

Quando as coisas vão bem em termos económicos, isso quer dizer, no paradigma em que vivemos, que o crédito abunda, e quando o crédito é abundante o preço dos activos sobe. O imobiliário é considerado um activo. Paradoxal é que a lógica do Chile pode ser vista exactamente na lógica oposta à do Ocidente em crise. O Chile está a alavancar a economia, o Ocidente a desalavancar a sua.

Em termos concretos o que quer isto dizer? Que quando o crédito é abundante e os activos sobem 250% fazendo passar um investimento de 100.000 para 350.000 permite-se que o investidor que iniciou com 50.000 em capitais próprios e outro tanto emprestado pelo banco, passou a ter a possibilidade de levantar mais 125.000 quando o banco exige que só pode emprestar metade do valor do activo.

Na prática, este investidor terá uma alavancagem de 1 para 2 (175.000 sobre 350.000). Com estes 125.000 pode comprar outro activo para o qual o banco já só requer um pagamento inicial de 10% e, como tal, pode garantir a posse de um activo de um milhão duzentos e cinquenta mil, aqui já com uma alavancagem de 1 para 10.

Enquanto os preços continuarem a subir não existirão problemas, porque o próprio sistema se autoalimenta levando a que maiores valorizações exijam menores garantias e maiores alavancagens. Como se sabe, no auge da expansão do crédito no Ocidente em 2006, uma garantia de 3% (alavancagem de 33 para 1) era considerada muito conservadora por parte de alguns bancos que a praticavam, enquanto outros faziam empréstimos Ninja (no assets no income no Job). O problema surge quando os preços começam a descer e com ele o valor das garantias.

Santiago do Chile é, realmente, impressionante e o país parece ser mais um vencedor como todos os países que crescem. O que quer isso dizer para o investidor? Que no longo prazo estes países que crescem são uma melhor aposta que a Europa que não tem qualquer crescimento.

Em Santiago, o mês de Junho marca o inicio do Inverno com temperaturas de 18 a 20 graus durante o dia,  mas noites de 3 e 4 graus. As noticias, essas, são as mesmas que se encontram por todo o lado e têm como foco a Europa, neste momento específico, o resgate à banca espanhola.

Os títulos são assim mais ou menos os mesmos. ‘’Estudo do FMI diz que banca Espanhola precisa de 50.000 milhões’’, lia-se no jornal local Mercúrio, “Banca Espanhola com 100.000 milhões”, titulava o Wall Street Journal no dia seguinte.

Uns amigos que me levaram à inauguração do segundo restaurante Nolita do Chef Pancho Toro estavam tão curiosos em saber a minha opinião sobre o assunto como em garantir que ficaria com uma boa impressão da noite. E foi uma muito boa experiência conhecer os incansáveis donos do Nolita, os irmãos Pancho e Carlos Toro e a sua mulher Jessica Edwards, sempre atentos a tudo.

A conversa versou o tópico do dia. “Os bancos no Chile são sólidos, só os Espanhóis Santander e BBVA vendem activos por causa da situação europeia”, diz-me Eduardo. Eu respondo-lhe que é fácil aos bancos resvalarem para a asneira porque têm tendência a emprestar mais do que deveriam e, como em tudo, quando a quantidade aumenta a qualidade diminui, mas para um banco quanto mais empresta mais ganha e é difícil resistir a esta filosofia, sobretudo numa economia em crescimento como a do Chile.

No Ocidente, o que se passa é exactamente o contrário. Para os bancos, a nova realidade é o incumprimento por parte das famílias, das empresas e até dos Estados, como a Grécia. Sempre que existe um incumprimento, o prejuízo é subtraído imediatamente ao capital do banco. Em média, por cada euro de garantias o banco tem 25 de empréstimos, ou seja, se o banco tiver que assumir 4% de perdas está tecnicamente falido.

Por esta razão, em períodos de crise, os bancos não podem efectuar créditos mas sim livrarem-se de responsabilidades e aumentarem a sua liquidez. Os bancos entram em dificuldades quando a sua liquidez não garante mais as perdas. Se por absurdo um banco tem 10.000 milhões em empréstimos e só tem 10 milhões em liquidez isso quer dizer que o banco está alavancado de 1 para 1 milhão e tem que rapidamente liquidar responsabilidades suficientes para trazer o seu rácio para os tais 25 para 1, considerados ‘’normais’’.

O problema nestas situações é que o banco tem que absorver as perdas geradas, ou seja, se o banco vende os activos que estão em incumprimento que, por exemplo, os que tinham empréstimos de 100.000 por 50.000 para realizar liquidez, tem que contabilizar os 50.000 como perdas efectivas. Esta é a razão pela qual os bancos precisam de ser resgatados e é também a razão pela qual estamos muito longe de ter o problema resolvido. 19

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