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ONDE FALAMOS DE BOLSA
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A Dinamarca os carros eléctricos e regulação

No avião, a caminho de Copenhaga, aproveitei a viagem para ler a edição de “’a primeira aldeia global”’.

 Ao ler como Portugal mudou o mundo, na versão de Martin Page, apercebo-me que, na actualidade, não é muito diferente a forma como se reage às situações de crise ou de poder. Basta-me ler as noticias de qualquer jornal para o confirmar.

Os políticos actuais afirmam estar a trabalhar para a construção de um mundo melhor, mas não se vê inovação nem visão estratégica que o confirme. O trabalho que têm produzido não nos permite prever isso. A história tem isso de interessante: poder dar-nos uma perspectiva futura em função do passado.

 Pela história nos apercebemos também o quanto as pessoas têm tendência para a habituação  – por alguma razão se diz que o homem é um animal de hábitos. Por exemplo, se as coisas correm bem durante algum tempo,  as pessoas tendem a acreditar que podem continuar bem por mais algum tempo, apesar de terem dúvidas. Se tal se concretizar, então acabam por deixar de ter dúvidas e acreditam que essa é a nova norma, que as coisas vão continuar bem “ad eternum”.

Nos mercados passa-se o mesmo. Durante a subida “irracional” dos mercados nos anos 90 (nas palavras de Greenspan), as pessoas também acreditaram que os preços das acções iriam continuar a subir ao mesmo ritmo eternamente.  Falou-se até de uma nova economia na altura. Para os políticos de então, os argumentos eram suportados nas estatísticas, pelo que não se ouviu nenhum deles dizer às populações que os tempos eram de poupança. Ao contrário, o que lia nas parangonas dos jornais era que o consumo era essencial para o continuo crescimento da economia.

Não é muito diferente o momento que agora vivemos. Os governos e os políticos parecem acreditar que é possível continuar a seguir e mesma politica que foi seguida nos últimos 30 anos sustentando e defendendo uma economia baseada no crédito.

Na Dinamarca, tinha a curiosidade de verificar os impactos da crise numa sociedade que é considerada de “comunista para ricos”. A Dinamarca como “case study “, sempre me pareceu interessante como potencial cobaia para um estudo empírico entre valor e preço. A noção que tenho é que na Dinamarca o preço acompanha melhor o valor das coisas.  Na conferência em que estive presente, um participante local, conhecedor do esforço feito por Portugal nas energias alternativas, falou-me com entusiasmo sobre carros eléctricos, não se coibindo de me dizer que a Tesla Motors era um excelente investimento para os próximos anos, muito melhor que a nova GM. Disse-lhe que, do meu ponto de vista, o carro eléctrico era um absurdo, porque se forem produzidos em grande número, assumindo que as massas vão poder comprá-los, darão cabo da rede eléctrica, porque, simplesmente, não temos nem teremos capacidade de gerar electricidade para manter um quarto dos carros actualmente em circulação. O meu interlocutor  respondeu-me que isso não seria um problema dado que na Dinamarca os carros eléctricos são vendidos sem os impostos que oneram os outros, o que os torna desde logo mais baratos para os Dinamarqueses.  Sem querer entrar em polémicas ainda retorqui que a crise vai ter que disponibilizar muito menos crédito para a compra de carros e os governos terão também menos acesso a dinheiro para fazer estradas ou reparar as existentes. O ar com que me olhou fez-me pensar por instantes que a crise não é igual para todos.

A verdade é que não notei na Dinamarca menos gente nos restaurantes ou nos hotéis, não notei ainda que trabalhassem mais horas ou que alguma outra coisa tivesse mudado. Nem mesmo o tempo. Nevava como há cerca de um ano, quando cá estive, apesar do frio desta vez me parecer mais intenso.

Voltando à conferência, o tópico mais importante era “a tendência da regulação no sector financeiro”. A tendência que ficou patente é que vai haver mais regulação, muito mais regulação, com a intenção de prevenir uma crise como esta, até à próxima (crise).

Estava curioso com este tema porque a crise que vivemos não é notoriamente uma crise de regulação, é uma crise de excesso de crédito ao nível das famílias das empresas e dos Estados. O sector financeiro é só o veiculo da crise porque só o sector financeiro pode criar crédito. O aumento da regulamentação desde os 10 mandamentos não evitou nunca nenhuma das crises que o mundo viveu. E, contudo, os 10 mandamentos tinham uma vantagem, podiam e deviam ser do conhecimento de todos. Mais regulamentação não ajuda a um dos primados da lei em relação à qual todos somos incumpridores:  “Ninguém pode alegar o desconhecimento da lei”, um paradoxo quando se sabe que ninguém tem o conhecimento total da lei.