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48 horas na Argentina

No dia 23 de Junho de 2017 fiz a minha primeira visita a Buenos Aires. Foi uma estadia curta, de apenas 48 horas, mas valeu a pena, tanto profissional como emocionalmente. A Argentina sempre me fascinou mas um fascínio comedido, porque tinha origem na sua historia económica. Dizia-me um amigo que para fazer um doutoramento em economia monetária era preciso viver algum tempo na Argentina.

A viagem fez-se desde Montevideo no barco Juan Patricio, da empresa Buquebus, com chegada ao terminal do mesmo nome, no bairro Puerto Madero.

No hemisfério sul Junho corresponde a Novembro no hemisfério norte mas,  contrariamente ao frio que se fazia sentir no outro lado do Mar de la Plata em Montevideu, Buenos Aires decidiu brindar-me com uma temperatura primaveril, perfeita nos 20º centigrados. O dia estava tão esplendoroso que não fazia sentido apanhar um táxi, e por isso, decidimos caminhar até ao hotel Mélia, na rua Reconquista, que deveria estar a menos de 30 minutos a pé. Impressionaram-me logo ali no terminal, os edifícios dos bancos ICBC (Chinês) e BBVA, pela dimensão e porque, não podia ignorar o longo historial de eventos financeiros negros na Argentina. Depois de atravessar a rua, os outros edifícios, mais antigos, muito bonitos, bem como as avenidas que fazem lembrar Paris, tudo a provar sem dificuldade aquilo que se diz, que a Argentina era, no inicio do século passado, um dos países mais ricos do mundo.

Definitivamente a chegada pelo terminal Buquebus, não nos fez sentir que estávamos na América do Sul, mais parecia a Europa. Uma ajuda do Google e rapidamente percebemos a trajectória descendente deste país fabuloso nos últimos cem anos: uma turbulenta historia politica, com 5 golpes de Estado desde 1930 e 5 bancarrotas desde 1956. Dificilmente se pode falar da Argentina sem falar de Perón (seria o mesmo que falar do futebol argentino sem falar de Maradona). Perón foi o homem que deu o ‘’peronismo’’ à Argentina e, dizem também, que deu uns milhares de passaportes aos nazis em fuga logo após o fim da segunda guerra mundial. Ganhou 3 vezes as eleições presidenciais, duas das quais seguidas, a segunda só interrompida por um golpe de Estado conhecido como ‘’a revolução libertadora’’. Pela terceira vez eleito, morreu um ano depois, em 1974, e deu lugar a Isabel Perón. O ano de 1974 é também o ano da nossa revolução dos cravos e por isso também já muito próximo de nós. Todos os que, como eu, viveram a nossa revolução estão recordados de Evita Perón e também de Pinochet no Chile. Os que não são desse tempo recordam-se certamente pelas piores razões de Madona no filme Evita.

Chegados ao hotel começou o trabalho. O Melia ia ser o centro das nossas operações nas 48 horas seguintes. O hotel estava agitado com inúmeros políticos do partido Renovador que preparavam os seus candidatos para as próximas eleições de Outubro. Ao final do dia decidimos sair para jantar. Muita gente nos passeios, muito barulho, muitos bares e restaurantes cheios,  e muitas câmaras de televisão esperando fumo branco do partido, mesmo ali, à porta do hotel.

Guadalupe, a jornalista argentina que nos acompanhava a caminho do restaurante La Brigada no bairro Santelmo, explicava que o Peronismo se apresentava desmembrado nestas eleições, dividido que estava por vários partidos. O partido Renovador que assentara arreais no hotel seria actualmente o terceiro maior partido. Quando lhe perguntei como era o “Peronismo”, diz-me que, na origem, pretendeu ser uma espécie de terceira via entre o comunismo e o capitalismo, uma via em que se retiraram as liberdades civis e se destruiu a riqueza, atacando tudo e todos, apelando à classe trabalhadora urbana. Perón, não era nem conservador nem liberal, tanto atacava, quando necessário, os estudantes de esquerda como, atacava a igreja. As suas origens militares certamente justificariam as estratégias de confronto que foi mantendo, mas a sua agenda, resumia-se a ter o maior controlo sobre a economia da Argentina.

A internet confirma que tudo o que o Peronismo fez desde a sua fundação foi aumentar incessantemente o controlo sobre a economia do País, com nacionalizações, programas sociais populistas e com benesses a grupos de interesses. Guadalupe explicava que o actual presidente Macri, que tinha derrotado o partido Peronista nas últimas eleições, havia sido, anteriormente, presidente da Camara de Buenos Aires e que tinha uma fortuna importante acumulada na construção e na industria. Para um Europeu é raro encontrar na politica pessoas que fizeram fortuna antes, com os seus negócios. É mais comum políticos fazerem essa fortuna depois. Segundo ela, desde que tinha tomado posse, havia alterado quase tudo na Argentina, e isso reflectia-se no índice Merval de Bolsa que não parava de subir e na diminuição do mercado negro do dólar. Esta questão da moeda é das mais importantes para qualquer argentino, porque viveram o “corralito”.

Quem esteja interessado em saber mais pode ver neste link Argentina Economic collapse o que foi o corralito argentino. Nas reuniões mantidas com potenciais clientes foi surpreendente ver como os Argentinos desconfiam do facto de o governo autorizar investimento no estrangeiro e a transferência oficial de dinheiro  para o estrangeiro. A verdade é que o governo Macri deu um perdão fiscal a quem tivesse dinheiro fora do País sem ter obrigatoriedade de o repatriar mas pagando um imposto de 15%. Este tipo de perdão fiscal é comum nos manuais de governação de qualquer país. As contas publicas são um problema grave em todo o lado e a Argentina nem tão pouco é considerada país emergente pelo MSCI tal a situação em que se encontra. Desde que foi eleito, a Argentina, país da carne, voltou a exportar-la, algo que não fazia com o governo anterior que punha restrições em tudo o que eram exportações de bens alimentares. Em resultado disso, os preços estão a subir em tudo o que era controlado antes pelo Estado. Foi sem surpresa que enquanto o empregado de mesa no La Brigada cortava a carne com uma colher, ouvi Guadalupe afirmar que existe, o perigo de este presidente não acabar o mandato. Afinal de contas os Peronistas ganharam 11 das ultimas 13 eleições e nas duas que perderam os opositores não acabaram o mandato.

É sempre fascinante conhecer-se um país novo, pessoas novas, realidades novas, inclusive comparar realidades evitando fazer esse exercício sem preconceitos. Cortar carne com uma colher diz muito sobre a carne argentina, mas diz também muito sobre a engenhosidade das pessoas de um País. A engenhosidade, embora mal direccionada, é também visível em alguns esquemas com taxistas em Buenos Aires, e em muitos outros esquemas a que o País se habituou mas talvez seja resultado do que afirmou Roberto Murchison CEO do grupo Murchison ao jornal La Nacion de Buenos Aires, dizia que em “sociedades corruptas gera-se mais pobreza”.
Foram só dois dias, mas muito mais haveria que contar. Por exemplo a Argentina fez recentemente uma emissão de obrigações a 100 anos em dólares. Parece-nos tema suficientemente interessante por muitas razões, para voltar a falar da Argentina e dos ensinamentos que nos pode dar nestas questões de dinheiro.

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